Ian Shapiro: Cuidado com influência dos pequenos partidos nos governos

Uma conferência de alto nível com politólogos de todo o mundo, "Que democracia", promovida pela Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS), está a decorrer esta sexta-feira em Lisboa

Ian Shapiro, cientista político da Universidade de Yale, trouxe um alerta sobre acordos, coligações e
pequenos partidos. "Cuidado", avisou, "com a influência que pequenos partidos podem ter no governo".
Na conferência de abertura, esta manhã, o politólogo que defende a "não dominância" como princípio
fundamental da democracia admitiu não conhecer bem o caso português, mas sublinhou que se está perante uma realidade em que "o governo governa na sombra de dois partidos". Para este académico de origem sul-africana que investiga teorias de justiça e democracia - e é autor de vários livros - "partidos grandes e mais fortes são melhores para a democracia".

No entender de Shapiro, é sempre um risco, como já sucede em vários países, incluindo os EUA e o Reino Unido, que as direções dos partidos fiquem "reféns" por causa de acordos com partidos minoritários, de ideias com pouca representatividade ideológica, ou mesmo "reféns" de fações mais radicais dos próprios partidos.

Ian Shapiro é crítico do sistema eleitoral norte-americano, que permite que candidatos como Donald Trump estejam na posição em que está o magnata."É um exemplo de como um grupo pode tornar refém um dos partidos", salientou, lembrando que apesar de haver cerca de 120 milhões de votantes para escolher o Presidente, o candidato republicano é escolhido por 13 milhões. "Isso faz com que pareça ter muito mais apoios do que realmente tem. Tudo isto mostra que as primárias e outros mecanismos de selecção descentralizados não são uma boa ideia para a democracia".

No Reino Unido, Shapiro encontra outro mau exemplo de democracia, onde 170 deputados do Labour votaram contra a manutenção de Jeremy Corbyn como líder do partido, com 40 a favor. Mas ele consegue ser reeleito pelas bases. "Esta descentralização da eleição das lideranças é pouco saudável porque enfraquece o partido no Parlamento", afirmou. Identifica outro mau exemplo em Israel, onde o governo tem de coligar-se com um pequeno partido da extrema direita e tem de fazer cedências a este grupo com representatividade muito reduzida.

O tema central da conferência será abordado por tópicos de discussão: "As instituições Europeias são
democráticas?", "As maiorias têm sempre razão?" ou "Existem alternativas à representação política?".
Estas são algumas das questões a que os oradores tentarão responder. Um dos oradores em destaque é Mario Vargas Llosa, que encerrará o dia de trabalhos. Jaime Gama irá moderar a sessão. Chantal Mouffe ou Jean L. Cohen são outros nomes que estarão presentes na conferência anual da Fundação Francisco Manuel dos Santos.