"Houve massacres como My Lai? Diria que sim, nos primeiros dias em Angola"

Jornalista sul-africano Al J. Venter conta ao DN o que viu nas três guerras que Portugal travou em simultâneo nas colónias africanas, com militares sem experiência de combate desde 1918

Apesar das reportagens críticas, garante não ter sido alvo de qualquer censura pelo regime salazarista.

Porque é que Portugal perdeu a guerra colonial?

Há quem diga que Portugal não perdeu as guerras no Ultramar. A verdade é que, com o golpe militar de Abril de 1974, foi posto um ponto final nas hostilidades. Não foi um desastre cataclísmico como o que a Alemanha nazi sofreu em 1945, mas o conflito terminou e os militares regressaram a casa. Quase podem comparar-se essas circunstâncias com a retirada francesa da Indochina em 1958 ou a ignominiosa partida dos soviéticos no Afeganistão, em 1989. Todas estas potências superiores abandonaram os seus objetivos militares declarados e os adversários no terreno reclamaram vitória. As guerrilhas em Angola, Moçambique e Guiné (hoje Guiné--Bissau) também exultaram. Celebraram até que os de Angola e da Guiné começaram a enfrentar-se e iniciaram novas guerras. Na minha perspetiva, é o mesmo tipo de situação que vai acontecer à Rússia de Putin na Síria, dentro de poucos anos.

Podia antecipar-se esse desfecho com Portugal antes de 1974?

Todos os envolvidos nessas hostilidades africanas podiam ver no início dos anos 1970, de forma perfeitamente clara, que as coisas nos domínios africanos de Lisboa não podiam continuar assim para sempre. O país estava a ficar exangue por uma guerra que colocava uma das mais pequenas e pobres nações da Europa Ocidental contra a vontade da União Soviética. Também é preciso ter em conta que tudo aconteceu no pico da Guerra Fria, que não era um assunto menor nos anos 1960 e 1970. Assim, tudo mudou com a Revolução dos Cravos. Quando sucedeu, a quase totalidade da nação portuguesa respirou de alívio. Em retrospetiva, foi justo que as guerras terminassem naquela altura. Fui frequentes vezes a Lisboa nos anos 1960 e 1970 e conheci algumas das principais figuras: os generais António de Spínola e Bettencourt Rodrigues. Não havia dúvidas de que a nação estava cansada do conflito. Os americanos cunharam uma frase para isso no final da II Guerra Mundial - chamaram-lhe "cansaço da guerra". A nação portuguesa - após 13 duros anos de hostilidades - estava completamente exausta. Tem de se reconhecer que as dificuldades eram quase insuperáveis, sendo as finanças uma das principais: Portugal tinha muito pouco dinheiro de reserva e isso manteve-se durante décadas. Comparado com os dias de hoje - com comunicações instantâneas e voos a jato -, Angola estaria do outro lado do globo. As tropas não voavam para lá como os americanos fizeram no Vietname: iam em navios e isso exigia tempo e dinheiro.

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