Hollande promete apoio da França a Portugal na UE

Em Paris, sê parisiense. Marcelo e Costa discursaram em francês aos emigrantes. Presidente português quebrou protocolo e a Europa dominou conversas com PR francês

"Sabeis bem que, com a França, não tendes apenas um parceiro no Conselho Europeu, mas um amigo." A promessa, solene, ouviu-se da boca do presidente francês, François Hollande, tendo a seu lado o Presidente português e o primeiro-ministro. Foi pronunciada perante muitas dezenas de emigrantes portugueses em Paris, na cerimónia de celebração do Dia de Portugal, que teve lugar na câmara municipal da capital francesa - e onde a respetiva presidente, Anne Hidalgo, declarou a António Costa como continua a achar a sua ação "inspiradora", agora como chefe do governo como antes como autarca.

Marcelo Rebelo de Sousa, fiel a si mesmo, resolveu mais uma vez quebrar o protocolo. Estava prevista a condecoração de quatro emigrantes portugueses em França com a Ordem da Liberdade: Margarida Santos Sousa, Manuela e José Gonçalves e Natália Syed, que nos atentados de Paris em novembro do ano passado assistiram pessoas que fugiram do Bataclan, a sala de espetáculos onde terroristas jihadistas franceses fizeram mais de oito dezenas de mortos.

O Presidente fez, porém, questão de permitir ao seu homólogo francês o direito de ser ele a impor as condecorações a dois deles. Pela primeira vez, o Dia de Portugal comemorou-se em França com a presença ao mais alto nível da hierarquia do Estado português - e tanto Costa como Marcelo fizeram questão de discursar em francês (o primeiro totalmente, o segundo parcialmente).

Hollande tinha a oferecer a Portugal o seu apoio total às posições europeias do governo de Costa. "As escolhas que Portugal fez são escolhas que são conformes as regras europeia e que são igualmente convergentes com as escolhas que a França fez. Queremos cumprir as regras, isso faz parte do que entendemos como empenho no projeto europeu. Mas queremos criar flexibilidade, queremos que Portugal, como a França, possam criar emprego e tomar medidas de progresso social", disse, na cerimónia na mairie. Porque, explicou, "a Europa não são só regras económicas, é também um projeto de civilização".

Marcelo e Costa chegaram a França em aviões separados e, antes da cerimónia das condecorações, encontraram-se com Hollande e com o primeiro-ministro francês, Manuel Valls, no Palácio do Eliseu. "É uma honra ter ao mesmo tempo o Presidente e o primeiro-ministro de Portugal aqui em Paris para festejar o dia nacional do seu país. Portugal é um país perfeitamente comprometido com o projeto europeu, tal como França, e devemos trabalhar juntos neste período de interrogações e inquietude. Trabalhamos juntos para que as relações culturais sejam reforçadas e as relações económicas devem ser intensificadas", disse o Presidente francês.

Hollande anunciou então que em julho visitará Portugal. Depois brincaria com o assunto dizendo que se o PR português pode celebrar o Dia de Portugal numa capital estrangeira, já a ele não lhe perdoariam se passasse o dia nacional francês fora do seu país. Estará em Lisboa em julho - mas não no 14 de julho. Na mairie gracejou ainda com o Euro 2016, fazendo votos para que Marcelo volte a Paris dentro de semanas, quando Portugal disputar com a França a final do torneio.

No discurso da mairie, Hollande anunciaria que vai ser reforçado o ensino de Português nas escolas francesas. Agradeceu a ajuda de Portugal ao seu país na operação militar que está a decorrer no Mali. E ainda aos portugueses que, nos atentados de Paris, com grande "coragem e sangue-frio", ajudaram feridos. Recordou, neste contexto, o esforço luso ao lado dos franceses na I Guerra, falou de Amália, de José Afonso, da ajuda de Aristides de Sousa Mendes a centenas de judeus franceses que fugiam do nazismo. Sublinhou a "formidável capacidade" de inserção na sociedade francesa que os emigrantes portugueses revelaram.

Marcelo Rebelo de Sousa, pelo seu lado, sublinhou como Portugal e França estão irmanados em defesa de valores como "a liberdade, a igualdade, a fraternidade, a democracia, a lealdade à República e ao Estado social de direito". E depois centrou-se na comunidade portuguesa em Paris: "A capital de França é de certa forma uma capital de Portugal."

Lembrando que ele próprio tem família no estrangeiro - "todos os meus netos vivem fora, penso neles com emoção" -, multiplicou-se em elogios aos portugueses que a partir do início dos anos 1960 emigraram para França. "Aqueles que aqui estão são o melhor de Portugal. A França não esquece e Portugal esquece menos. Vós sois do melhor de Portugal."

Já António Costa, dirigindo-se diretamente ao Presidente Hollande, sublinhou o que os une nas questões europeias. "Partilhamos uma visão comum da União Europeia. É preciso aprofundar a Europa", afirmou. Acrescentando depois terem também em comum "a esperança de que a Europa não seja um sonho do passado".

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