Há pedregulhos no caminho da esquerda

Sanções, sistema financeiro e Orçamento do Estado: o caminho é estreito para geringonça. Mas direita é argamassa que a une

O debate do possível Estado da Nação será hoje feito de várias incógnitas, verdadeiros pedregulhos na engrenagem da geringonça: as sanções, o sistema financeiro e o próximo Orçamento do Estado. E, qual pescadinha de rabo na boca, umas e outras ligam-se: eventuais sanções podem penalizar as contas, atrasar investimentos e baralhar metas e objetivos da proposta orçamental para 2017. Do lado da banca, o cenário repete-se e os balanços do BES, do Banif e da Caixa estão ainda por fechar (e saldar), com eventuais reflexos para o próximo ano.

Nos últimos dias sucedeu-se um coro - de Lisboa a Berlim, passando por Bruxelas - que antecipava um castigo a Portugal se o governo não corrigisse a trajetória, antecipando-se sanções para algo que ainda não aconteceu. Será este, porventura, o prato forte do debate de hoje à tarde, no Parlamento, no registo a que se assistiu nos últimos dias: o passa-culpas.

Este jogo de responsabilização será também inevitável no debate que se fará sobre o estado do sistema financeiro - e depois dos casos de BPN, BPP, BCP, BES, Banif e Caixa não há volta a dar.

Basta ler respostas dadas por deputados de várias bancadas no inquérito do DN (na edição em papel), mas também a forma como o ministro adjunto, Eduardo Cabrita, responsabiliza o PSD, nomeando Passos Coelho e Maria Luís Albuquerque, na incerteza que hoje se vive. Os consensos que vão sendo pedidos - a começar pelo Presidente da República - parecem não ter possibilidade de retorno.

Não há volta a dar: é à esquerda que o PS terá de acomodar a sua política. O maior desafio, sabe-o António Costa, será a construção do próximo Orçamento do Estado, onde o governo socialista terá de continuar a contentar deus e o diabo, entre "a reposição de direitos", pedida pelo BE, PCP e PEV - que assinaram as "posições conjuntas" que viabilizaram o executivo do PS.

De Bruxelas (e das agências de rating, que voltaram a ser citadas por quem as criticou muito quando atiraram Portugal para o "lixo") sopra o discurso quase único da necessidade de medidas adicionais, mesmo que, como não se cansa de repetir o primeiro-ministro, as piores previsões (como as do FMI) estimem um défice abaixo dos 3%, ou seja, abaixo de eventuais procedimentos excessivos.

A esquerda só tem uma leitura para esta pressão. Bruxelas só pretende o regresso da austeridade. Disse-o Catarina Martins, do BE: "A Comissão Europeia não pode sancionar o país e o que está a acontecer neste momento é um ataque verdadeiramente à democracia em Portugal e à nossa economia", criticou. Afirmou-o João Oliveira, do PCP: o adiamento é um "processo de chantagem e de pressão sobre o país por parte da Comissão Europeia" e das instituições europeias em geral, para "reverter todas as medidas positivas que têm sido tomadas" em Portugal e a "recuperar a política do anterior governo". Também o disseram vozes do PS.

É a pescadinha que se repete: PS, BE, PCP e PEV continuam a ter um denominador comum que lhes dá argamassa - a oposição à política do passado. A argamassa de que se faz o atual Estado da Nação e que é também ela uma incógnita para o futuro.

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