"Há anos que não dou uma boa gargalhada. E sinto falta disso"

Num país com 525 mil desempregados de longa duração, a Cáritas criou a resposta que faltava: grupos de "desempregados anónimos". Um abriu as portas ao DN. Mas não muito: o que se passa no GIAS fica no GIAS

"O meu nome é Luís, tenho 43 anos e estou desempregado há dois". Foi pouco mais do que estas palavras que Luís B. disse na primeira sessão do grupo, a que em jeito de brincadeira cama de "desempregados anónimos". Os nove desempregados chegaram desconfiados, com semblante de desespero e com a voz presa e trémula e foram-se sentando num círculo, apresentando-se timidamente por ordem dos ponteiros do relógio. Estavam dados os primeiros passos do Grupo de Interajuda Social (GIAS) da Cova da Piedade, em Almada, um projeto pioneiro da Cáritas de apoio a quem enfrenta o desemprego de longa duração, que atinge mais de 525 mil portugueses (segundo o INE).

Todas as quartas-feiras, pelas duas da tarde, o grupo reúne-se no Centro Paroquial Padre Ricardo Gameiro para conversar durante duas horas. Começaram nove, hoje restam seis. Os desertores abandonaram o círculo redondo por uma boa causa: arranjaram emprego. Só passou um mês e meio desde que o grupo começou a funcionar, mas em muitos rostos o desespero já foi trocado por sorrisos. "Quando chegaram aqui, na primeira sessão, pareciam acompanhados de nuvens negras sobre a cabeça, traziam todo o peso de serem desempregados sobre as costas, mas agora recuperaram a alegria", explica a psicóloga e animadora do grupo Cláudia Andrade.

O grupo é mesmo uma espécie de "desempregados anónimos" e foi nesta condição que todos se quiseram manter, à exceção de Luís, que dá o nome verdadeiro mas limita o apelido a um "B".

A técnica responsável pelo grupo, Ana Carvalho, explica que o GIAS "não se centra na procura ativa de emprego, mas sim em recuperar as pessoas emocionalmente, em dar-lhes autoestima". Uma ideia que é complementada pela outra técnica responsável, Rita Ferreira, que explica que esta é uma forma de "pessoas que estavam numa profunda depressão por causa do desemprego verem uma luz ao fundo do túnel". A "evolução" registada pelas responsáveis "a cada semana que passa", nota-se em Luís, o silencioso e tímido das primeiras sessões, que toma agora o papel de porta-voz do grupo.

O que se conta nestas sessões é, no fundo, a vida, os problemas do quotidiano do desempregado, que para muitos já se arrasta há demasiado tempo. É que o desemprego de longa duração, de acordo com dados o INE, baixou no último trimestre de 2013 de 540 mil para 525 mil portugueses, mas aumentaram, em 6,4%, os desempregados há mais de 36 meses, que são já 218,3 mil. No GIAS estão as faces humanas destes números.

Ao DN, Luís B. conta o que já disse no círculo: que está desempregado há dois anos e vive num quarto alugado, com uma pequena TV, que lhe serve de "única companhia" todas as noites. O dia-tipo do antigo comercial de vendas é: "Acordar tarde para ir buscar o almoço à cantina social, e, como não tenho dinheiro, a sopa tem de chegar para o jantar." Depois de almoço, Luís vai até "à loja de um amigo, que me deixa enviar currículos do computador, porque não tenho internet em casa", voltando depois a casa. No dia seguinte, repete o mesmo ritual. Quando abre o e-mail, o panorama é sempre o mesmo: "Não há respostas. Antes enviava três currículos e respondiam-me de dois. Agora envio dez e não há nenhum interessado."

Sem direito a subsídio de desemprego, o rendimento social de inserção (RSI) é o único dinheiro certo que Luís recebe ao final do mês. "Mas nem chega para pagar a renda", desabafa. A sorte são os amigos, que o ajudam nas despesas e às vezes o levam a furar a monotonia da travessia do deserto que enfrenta. "Tenho um amigo que me leva ao cinema e outro que me leva ao café a ver o futebol."

E depois há o grupo, claro. Como explica Cláudia Andrade, "muitos deles passam a semana à espera que chegue "a" quarta-feira". O grupo fez Luís recuperar a autoestima, mas continua a sentir-se velho para arranjar emprego. Há pouco tempo tentou trabalhar como empregado de balcão, mas disseram-lhe que "aos 43 anos já era muito velho". Mas há esperança, que veio do próprio GIAS.

O mais velho do grupo, João (nome fictício) foi aos 62 anos o primeiro a abandonar as reuniões pois arranjou trabalho na área da restauração. Como lembra Cláudia Andrade, o facto de o decano do grupo arranjar emprego "deu uma grande motivação aos outros, principalmente aos que se achavam velhos demais para conseguir emprego".

O grupo inicial era muito heterogéneo. Tanto nas idades ("dos 28 aos 62 anos"), como no nível de escolaridade ("desde a quarta classe à licenciatura"), passando pelo estado civil ("solteiros, casados, divorciados") e pelo estado emocional ("desde patologias e depressões profundas, a pessoas que se animaram com facilidade). Porém, como explica Ana Carvalho, "a partir do momento que entram por aquela porta, somos todos iguais".

O grupo tem administrativos, donas de casa, contabilistas e até o baterista de um grupo musical. Apesar das diferenças geracionais e de estilos de vida, como explica Rita Ferreira, "todos se respeitam e partilham experiências entre si". Há, aliás, um código de conduta com dez pontos, definido pelo próprio grupo, dos quais se destaca um que é constantemente lembrado: "O não julgamento."

Uma das últimas sessões - que o DN importunou com a sua presença - teve como mote uma frase de José Saramago proposta pela monitora Elsa: "O espelho e os sonhos são coisas semelhantes, é como a imagem do homem diante si próprio." Uma desempregada emocionou-se e não conseguiu conter as lágrimas quando a discussão evoluiu para a questão: "Qual é o seu maior sonho?" Luís B. não respondeu, pois revê-se nas palavras de uma colega de círculo. "Ela disse que o sonho dela era ser feliz. No fundo, esse é o sonho de todos nós."

Esta foi a primeira reunião sem o Ricardo (nome fictício), um caso de sucesso do grupo. Ricardo, de 28 anos, estava desempregado há mais de cinco (desde os 23) quando o grupo foi criado. Já havia entrado numa redoma, que parecia não ter fim e a que a psicóloga Cláudia chama de "círculo vicioso do desemprego". Porém, passado um mês e meio no GIAS, Ricardo arranjou emprego. Uma evolução a pique. Um dia, ao sair da reunião do GIAS, Ricardo olhou-se ao espelho e disse: "Eh pá, tu até és um gajo giro." Levantou a cabeça, inscreveu-se num ginásio, recuperou a autoestima e passou a encarar as entrevistas com outra confiança. No fim, deixou uma cadeira vazia no círculo.

Este projeto começou a ser desenvolvido pela Cáritas na Junta de Freguesia de Santa Isabel, em Lisboa, em 2012. Atualmente há também um GIAS em Leiria e está outro em fase de arranque na Quinta do Conde. O objetivo primeiro destes grupos é que os desempregados voltem a sorrir. É isso que tenta fazer Luís B. "Não me sinto a viver, sinto-me remediado. Há anos que não dou uma boa gargalhada, daquelas valentes. Antes dava até me doer a barriga. Agora já não. Sinto falta disso."

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