Gungunhana esteve ontem (escondido) no Palácio de São Bento

O outro lado Miguel Torga, António Lobo Antunes e um segredo escondido com prudência, num discurso carregado de história

Há uma omissão muito diplomática no discurso de posse do novo Presidente, ao não revelar o autor de uma frase citada. "Este reino é obra de soldados" foi escrito pelo punho de Mouzinho de Albuquerque, o "herói português do século XIX" que em Moçambique não tem essa mesma aura: afinal, foi ele que comandou as tropas que capturaram Gungunhana, ou Ngungunhane, este sim considerado herói nacional naquele país africano. Um dos convidados de honra na cerimónia do Palácio de São Bento era Filipe Nyusi, o presidente moçambicano.

A frase consta da extensa carta que Mouzinho escreveu ao príncipe Luís Filipe, em 1898. Aos 38 anos, tinha um longo currículo militar e acabava de ser destituído do cargo de governador de Moçambique, na sequência de intrigas po-líticas. Para compensá-lo, o rei D. Carlos nomeou-o ajudante de campo, oficial-mor da casa real e aio do príncipe Luís Filipe, que tinha então 9 anos. A carta reflete a desesperança em que o expedicionário mergulhou e que o levou ao suicídio quatro anos mais tarde - "tudo é pequeno neste nosso Portugal de hoje!" Mas glorifica o papel do soldado - "príncipe que não for soldado de coração fraco rei pode vir a ser", e nas "linhagens reais só foram grandes os que souberam lançar mão da espada". "Ser soldado - acrescenta - é dedicar-se por completo à causa pública, trabalhar sempre para os outros." Não podia adivinhar que antes de atingir os 20 anos o príncipe seria morto ao lado do pai, no atentado na Praça do Comércio, em 1 de fevereiro de 1908.

António Lobo Antunes e Miguel Torga foram os escritores citados por Marcelo Rebelo de Sousa. Ao romancista foi buscar dois versos de um pequeno poema escrito para ser cantado - "Se a minha terra é pequena/ Eu quero morrer no mar", o mesmo que o novo Presidente tinha incluído em 2005 na antologia pessoal Os Poemas da Minha Vida. De Miguel Torga, trouxe dois excertos de uma intervenção sobre Camões lida a 9 de junho de 1987 em Macau, publicada no Diário XV. "O difícil para cada português não é sê-lo; é compreender-se": o tema era Camões e a questão da identidade nacional era oportuna, pois estava lançado o processo que levou à transferência da soberania de Macau para a China.

No início do primeiro discurso presidencial, também Marcelo descreve os portugueses: "Amor à terra, saudade, doçura no falar, comunhão no vibrar, generosidade na inclusão, crença em milagres de Ourique, heroísmo nos instantes decisivos." Começa pelo princípio, digamos. "Crença em milagres", porque esta vitória de Afonso Henriques sobre os árabes em 1139, com localização por estabelecer, surge envolvida num imaginário sobrenatural e relaciona-se diretamente com a fundação da nacionalidade. Como diz José Mattoso na História de Portugal (volume 2) - a associação dos dois factos "veio a suscitar a necessidade de imaginar uma intervenção divina que demonstrasse o seu sentido transcendente e que sublimasse a função de Afonso Henriques como enviado por Deus para esmagar os inimigos da fé".

Homem de leis, o Presidente recorda os documentos institucionais da fundação: o Tratado de Zamora, assinado por Afonso Henriques e Afonso VII de Leão e Castela em 1143, pelo qual o Condado Portucalense passa a ser um reino, e a Bula do Papa Alexandre III, que em 1179 reconhece a independência do novo país.

Outras Notícias

Outros conteúdos GMG