Guerra aberta entre Belém e São Bento (VÍDEO)

Cavaco Silva quebrou ontem o silêncio sobre o chamado caso das escutas para acusar o PS de o tentar "colar" ao PSD em período de pré- -campanha eleitoral. "Manipulação", acusa o Presidente, que recusa em termos contundentes qualquer acção própria no levantar da suspeita de escutas em Belém. PS diz que este é o "pior momento para querelas artificiais".

O conflito entre a Presidência da República e o PS subiu ontem a um nível inédito: Cavaco Silva evocou o chamado caso das escutas para acusar os socialistas de o tentarem "puxar para a luta político-partidária", encostando-o ao PSD. Apontou "declarações graves" de "destacadas personalidades do partido do Governo", falou em "ultimato", deixou acusações de "manipulação". E acabou mesmo a afirmar que "foram ultrapassados os limites do tolerável e da decência".

Na reacção, o PS, pela voz do ministro da Presidência, Pedro Silva Pereira, respondeu a Belém que "este é o pior dos momentos para lançar o País em querelas artificiais" - sobretudo quando "assentes em suspeições absurdas". Silva Pereira rejeitou que o caso das escutas tenha tido origem nas declarações de deputados do PS. Ao invés, atribuiu toda a polémica a "suspeições totalmente absurdas e infundadas" atribuídas a um membro da Casa Civil da Presidência. Reacção oficial à parte, as palavras de Cavaco deixaram ontem o PS entre o estupefacto e o irritado. "É uma intervenção tão absurda que não merece comentários", afirmou ao DN Renato Sampaio, líder do PS/Porto.

Na declaração ao País, Cavaco Silva disse ter sido "surpreendido", durante o mês de Agosto, com "declarações de destacadas personalidades do partido do Governo exigindo ao Presidente que viesse falar sobre a participação de membros da sua casa civil na elaboração do programa do PSD". "Declarações graves", referiu o chefe do Estado, avançando a leitura que então fez das palavras dos dirigentes socialistas - "puxar o Presidente para a luta político-partidária, encostando-o ao PSD"; "desviar as atenções do debate eleitoral das questões que realmente preocupavam os cidadãos".

Sobre o passo que se seguiu (a divulgação pelo jornal Público de declarações de um membro da Casa Civil, apontando suspeitas de que a Presidência estaria a ser alvo de escutas do Governo), Cavaco garantiu não ter tido conhecimento prévio das "interrogações atribuídas" a um membro do staff de Belém. O discurso do chefe do Estado tinha, aliás, começado por um afastamento total em relação à suspeita de escutas - "Não existe em nenhuma declaração ou escrito do Presidente qualquer referência a escutas ou a algo semelhante". Cavaco disse também ter "algumas dúvidas quanto aos termos exactos em que possam ter sido produzidas" as declarações relativas a escutas em Belém. Ainda assim, sustentou que qualquer cidadão pode interrogar-se "sobre como é que aqueles políticos [do PS] sabiam dos passos dados por membros da Casa Civil".

Reiterando que houve uma tentativa de o "colar ao PSD", Cavaco apontou a publicação pelo DN de um mail entre jornalistas do Público - que revelava que Fernando Lima, assessor de imprensa, era a fonte que apontara a suspeita de escutas - para afirmar que "desconhecia totalmente a existência e o conteúdo do referido e-mail". "Pessoalmente, tenho sérias dúvidas quanto à veracidade das afirmações nele contidas", acrescentou. Apesar disso, invocando a dúvida criada na opinião pública sobre se teria sido violada a regra do sigilo na Presidência, Cavaco diz ter optado por "alterações" na Casa Civil, deixando implícito que não afastou Fernando Lima de Belém .

A publicação do mail foi também o motivo para questionar a segurança do sistema informático de Belém. O Presidente disse ter ouvido, ontem, "várias entidades com responsabilidades na área da segurança" - após o que ficou a saber "que existem vulnerabilidades", pelo que pediu que seja estudada a hipótese de as reduzir. Defendendo que o "Presidente não cede a pressões", acrescentou que foi por este motivo que se manteve em silêncio durante a campanha eleitoral. 

Comunicação do Presidente da República ao País

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