Governo português "não vê a importância" do investimento da Altice

Português cofundador da Altice lançou críticas à governação e garantiu que investimento em Portugal vai continuar

O cofundador da Altice Armando Pereira afirmou hoje, em Vieira do Minho, que o Governo português "muitas vezes não vê a importância" do investimento daquele grupo francês em Portugal.

À margem da inauguração do segundo 'call center' (centro de contacto) da Altice em Vieira do Minho, Armando Pereira garantiu que o investimento em Portugal vai continuar, mesmo que por vezes pareça que "não gostam" do grupo que comprou a PT Portugal.

"A Altice investe em Portugal de uma maneira muito importante. Na semana passada aconteceu uma coisa importante aqui em Portugal, mas penso que, muitas vezes, o Governo português não vê essa importância", criticou.

Em 14 de julho, o grupo Altice anunciou que chegou a acordo com a Prisa para a compra, por 440 milhões de euros, da Media Capital SGPS, SA, que detém a TVI.

Alguns partidos já pediram ao Governo português para travar o negócio.

"O Estado português detém os instrumentos necessários para travar a fraude em curso e reverter o processo de destruição da PT, e tem as condições e a obrigação de intervir, evitando uma aquisição da TVI por parte da Altice e as consequências para o país", afirmou ontem o secretário-geral comunista, Jerónimo de Sousa.

Para o líder comunista, "é preciso coragem e determinação para escolher entre os interesses nacionais" e o "poder de uma multinacional".

A coordenadora do Bloco de Esquerda (BE), Catarina Martins, também já questionou o negócio, nomeadamente as condições financeiras da Altice para comprar a TVI ao mesmo tempo que quer despedir mais de três mil trabalhadores da PT.

Catarina Martins afirmou há dias que "um país que se leva a sério não pode permitir que isto esteja a acontecer".

Armando Pereira disse não entender esta oposição ao negócio, mas garantiu que o grupo Altice vai continuar a investir em Portugal.

"Mesmo se às vezes nos dizem 'para que vêm para aqui, eles não nos querem, penso que não gostam de nós', vamos continuar", assegurou.

Natural de Guilhofrei, Vieira do Minho, Armando Pereira vincou que vai continuar a investir na sua terra e no seu país.

"Nós não fazemos política, nós somos industriais", lembrou, repetindo a ideia já transmitida durante a conferência de imprensa de apresentação do negócio de intenção de compra da Media Capital.

Nesse mesmo dia, durante o debate do estado da Nação, o primeiro-ministro manifestou-se apreensivo com o futuro da PT, agora propriedade da multinacional Altice, temendo mesmo pelo futuro de postos de trabalho e apontando a uma das operadoras "falhas graves" no incêndio de Pedrógão Grande.

"Receio bastante que a forma irresponsável como foi feita aquela privatização [pelo anterior Governo PSD/CDS-PP] possa dar origem a um novo caso Cimpor, com um novo desmembramento que ponha não só em causa os postos de trabalho, como o futuro da empresa", declarou o primeiro-ministro.

António Costa fez depois referência ao que se passou em termos de comportamento das operadoras de telecomunicações durante o período de combate às chamas no incêndio ocorrido em junho passado em Pedrógão Grande, no distrito de Leiria, e que causou 64 mortes.

"Aliás, espero que a autoridade reguladora [para as telecomunicações], olhe com atenção só o que aconteceu com as diferentes operadoras nestes incêndios de Pedrógão Grande. Compreenderá certamente que houve algumas que conseguiram sempre manter as comunicações e houve outra que esteve muito tempo sem conseguir comunicações nenhumas - e isso é muito grave", salientou ainda o líder do executivo.

Depois, António Costa disse que, pessoalmente, enquanto consumidor de telecomunicações, já tinha tirado conclusões face ao panorama existente no mercado nacional.

"Por mim, já fiz a minha escolha da companhia que utilizo", disse.

O cofundador da Altice defendeu hoje que "não deve haver muitos problemas" para a concretização do negócio da compra da Media Capital SGPS, SA, que detém a TVI. "Há ainda atores que vão intervir nessa decisão, mas não deve haver muitos problemas", referiu.

Apesar disso, Armando Pereira admitiu que o Governo português "não facilita as coisas" ao grupo francês.

A Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) tem de se pronunciar sobre a operação, sendo o seu parecer vinculativo.

O parecer final sobre o negócio caberá à Autoridade da Concorrência.

O segundo 'call center' da Altice, agora inaugurado, deverá criar cerca de 300 postos de trabalho, tendo hoje arrancado com meia centena.

No primeiro, que abriu em maio de 2015, já trabalham 110 pessoas.

A Altice já tem 12 'call centers' em Portugal.

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