Governo diz que "não quer transportar passageiros" para Madrid, apenas mercadorias

O secretário de Estado dos Transportes, Sérgio Monteiro, afirmou hoje que a linha ferroviária que vai ligar Lisboa a Madrid vai transportar apenas mercadorias, uma vez que "o Governo não quer transportar passageiros".

"O Governo quer transportar mercadorias, o Governo não quer transportar passageiros", reiterou Sérgio Monteiro, em conferência de imprensa, em Lisboa.

O governante esclareceu que o projeto vai ser construído "em bitola europeia", mas salvaguardou que é necessário que a linha esteja também "preparada para usar material circulante, quer de bitola europeia, quer de bitola ibérica", garantindo "interoperabilidade em toda a rede".

"No próximo quadro comunitário europeu, a Linha de Transportes de Mercadorias (LTM) vai ser em bitola europeia e será em bitola mista [europeia e ibérica] onde precisarmos de utilizar as duas bitolas", explicou.

A velocidade máxima será de "até 220 a 250 quilómetros por hora", o que Sérgio Monteiro disse ser "absolutamente compatível com o transporte de mercadorias". O tempo da viagem entre Lisboa e Madrid será de "quatro a quatro horas e meia".

O governante não se quis comprometer com prazos, argumentando que o processo "ainda está em discussão entre o Estado e a União Europeia" e que, "no dia em que terminarem as negociações", os seus resultados serão anunciados.

Questionado sobre o apoio de Bruxelas a este projeto, Sérgio Monteiro garantiu que "Portugal não perderá os apoios europeus" e evocou uma carta, com data de 16 de maio de 2012, da Comissão Europeia, com "a sua recomendação ao Governo" e com "a visão técnica" da instituição.

"Nesta carta, a Comissão Europeia diz que os projetos anteriores tinham um custo que não tinha retorno económico evidente (...) e adaptou os projetos a nível europeu para o que Portugal já pretendia fazer. Daí que tenhamos o apoio de Bruxelas", disse o secretário de Estado dos Transportes.

Em relação à taxa de financiamento europeu de 85% com que Bruxelas se terá comprometido, o governante afirmou que "85% é a percentagem de comparticipação dos fundos que são elegíveis".

O governante foi ainda interrogado sobre a transferência de 600 milhões de euros de um empréstimo do sindicato bancário para a Parpública, uma empresa pública cuja extinção ou consolidação na administração central do Estado está já prevista.

"É - sem dúvida nenhuma - um dinheiro para tapar um 'buraco'. Ele não foi é criado por este Governo", começou por dizer Sérgio Monteiro.

O secretário de Estado acrescentou que "este empréstimo serviu para pagar um outro que foi contratado pelo Governo anterior e para o qual a Parpública não tinha outros fundos disponíveis que não estes".

"A decisão do Governo foi: ou aproveitamos este pacote financeiro que estava para o projeto anterior e que ia ser abandonado, ou a Parpública tem de ir buscar dinheiro mais caro ao mercado e, desta forma, não estaríamos a contribuir para a salvaguarda do interesse nacional", justificou.

Na terça-feira, o Ministério da Economia e Emprego esclareceu que não está previsto retomar o projeto de alta velocidade até 2015, depois de as Finanças terem anunciado que salvaguardaram financiamento de ligação entre Lisboa e Madrid.

Exclusivos

Premium

Viriato Soromenho Marques

Madrid ou a vergonha de Prometeu

O que está a acontecer na COP 25 de Madrid é muito mais do que parece. Metaforicamente falando, poderíamos dizer que nas últimas quatro décadas confirmámos o que apenas uma elite de argutos observadores, com olhos de águia, havia percebido antes: não precisamos de temer o que vem do espaço. Nenhum asteroide constitui ameaça provável à existência da Terra. Na verdade, a única ameaça existencial à vida (ainda) exuberante no único planeta habitado conhecido do universo somos nós, a espécie humana. A COP 25 reproduz também outra figura da nossa iconografia ocidental. Pela 25.ª vez, Sísifo, desta vez corporizado pela imensa maquinaria da diplomacia ambiental, transportará a sua pedra penitencial até ao alto de mais uma cimeira, para a deixar rolar de novo, numa repetição ritual e aparentemente inútil.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Agendas

Disse Pessoa que "o poeta é um fingidor", mas, curiosamente, é a palavra "ficção", geralmente associada à narrativa em prosa, que tem origem no verbo latino fingire. E, em ficção, quanto mais verdadeiro parecer o faz-de-conta melhor, mesmo que a história esteja longe de ser real. Exímios nisto, alguns escritores conseguem transformar o fingido em algo tão vivo que chegamos a apaixonar-nos por personagens que, para nosso bem, não podem saltar do papel. Falo dos criminosos, vilões e malandros que, regra geral, animam a literatura e os leitores. De facto, haveria Crime e Castigo se o estudante não matasse a onzeneira? Com uma Bovary fiel ao marido, ainda nos lembraríamos de Flaubert? Nabokov ter-se-ia tornado célebre se Humbert Humbert não andasse a babar-se por uma menor? E poderia Stanley Kowalski ser amoroso com Blanche DuBois sem o público abandonar a peça antes do intervalo e a bocejar? Enfim, tratando-se de ficção, é um gozo encontrar um desses bonitões que levam a rapariga para a cama sem a mais pequena intenção de se envolverem com ela, ou até figuras capazes de ferir de morte com o refinamento do seu silêncio, como a mãe da protagonista de Uma Barragem contra o Pacífico quando recebe a visita do pretendente da filha: vê-o chegar com um embrulho descomunal, mas não só o pousa toda a santa tarde numa mesa sem o abrir, como nem sequer se digna perguntar o que é...