Governo contraria Schäuble. PS diz que Europa não precisa de "incendiários"

Finanças negam novo programa de assistência a Portugal e Costa contraria Centeno acerca das previsões de crescimento

Gafe corrigida ou pressão política sob a forma de aparente lapso? A dúvida subsiste. O ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble, afirmou ontem, numa conferência em Berlim, que Portugal estaria a pedir um novo resgate financeiro e que o conseguiria, mas emendou a mão dizendo, citado pela Bloomberg, que isso pode vir a acontecer caso o nosso país não cumpra as regras europeias.

De seguida, calibrou o tiro: "Os portugueses não o querem e não vão precisar [de um segundo programa de assistência económica e financeira] se cumprirem as regras europeias", precisou. "Eles têm de cumprir as regras europeias ou então vão ter dificuldades", observou Schäuble.

As reações, como seria de esperar, não tardaram. E o institucionalismo do Presidente da República e do Ministério das Finanças contrastou com a violência de altos dirigentes socialistas. "O Ministério das Finanças esclarece que não está em consideração qualquer novo plano de ajuda financeira a Portugal, ao contrário do que o governante alemão inicialmente terá dito", explicou, através de um comunicado, o gabinete de Mário Centeno.

"O governo continua e continuará focado no cumprimento das metas estabelecidas para retirar Portugal do procedimento por défices excessivos", pode ler-se ainda no documento.

Para Marcelo Rebelo de Sousa, só há uma explicação para a posição de Schäuble. "Isto em política chama-se pressão política ou especulação política. (...) Já não é a primeira vez. Isto é um filme que já vimos. Já é para aí a terceira, a quarta ou a quinta vez que assistimos a isso. Deve ser encarado relativizando", acrescentou o Chefe do Estado.

Duríssimas foram as palavras de João Galamba. "A última coisa de que precisamos neste momento é de incendiários. Já chega a situação complicada no Reino Unido", atirou o porta-voz do PS, para quem as declarações de Schäuble não têm "correspondência com os factos". Já o presidente socialista, Carlos César, que falou à Lusa, foi sucinto mas contundente: "É por estas e por outras que, infelizmente, há cada vez mais cidadãos europeus que se revelam contra essa arrogância persistente e insensata."

A eurodeputada do BE Marisa Matias considerou que a posição do ministro germânico só se percebe "num quadro de tentar acicatar os mercados, uma vez que a execução orçamental em Portugal está a correr bem". "Há uma enorme obsessão ideológica e uma vontade permanente de colocar pressão e chantagem em relação ao povo português", complementou a ex--candidata presidencial.

As declarações do ministro de Angela Merkel chegaram, de resto, no mesmo dia em que o governo português se juntou à leitura menos otimista sobre a evolução da economia nacional, que há meses estava a ser feita por vários organismos (nacionais e internacionais) e admitiu que o produto interno bruto (PIB) poderá crescer menos do que o que os 1,8% que esperava.

O cenário internacional, em que o episódio mais recente é o brexit, é, segundo o ministro das Finanças, o principal motivo para que na apresentação do Orçamento do Estado para 2017 possa surgir uma revisão em baixa das projeções. Em entrevista ao Público, Mário Centeno abriu a porta a revisões das suas previsões, embora tenha excluído a necessidade de um Orçamento Retificativo. "Os cenários para este ano e a sua revisão têm mais que ver com o facto de o governo ter divulgado cenários para uma economia com uma variável, que tem muito que ver com o brexit e que provavelmente vai ser revista de novo, que é a procura externa", explicou o ministro das Finanças.

O primeiro-ministro é que pensa de maneira diferente. "Não vivemos de previsões, mas de realidades. Os números do INE têm confirmado que a execução orçamental do primeiro trimestre foi melhor do que o previsto", contrapôs António Costa, corrigindo o seu governante.

Mas o fogo cruzado chegou do PSD. A ex-ministra das Finanças e atual vice-presidente dos sociais--democratas, Maria Luís Albuquerque, acusou Centeno de insistir numa "estratégia desculpabilizante", vincando que Centeno repetiu "sistematicamente" ter "margens" orçamentais para fazer face a cenários de instabilidade internacional.

Para João Duque a mudança de opinião de Centeno é "um sinal de inteligência". Já a Costa deixa o aviso: "Insiste que está tudo na mesma, pode pôr-nos numa situação desconfortável."

Já Ricardo Paes Mamede destaca que a revisão das previsões "já era de alguma forma esperada", a "partir do momento em que as economias que são os principais destinos das nossas exportações estão a desacelerar". E a isso junta agora a "desvalorização da libra".

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