"Fui sempre um péssimo aluno"

O DN lançou um projeto para dar a conhecer os bons exemplos desde o 1.º ciclo até ao secundário. A JP Inspiring Knowledge é o 'main sponsor'. Até descobrir a Geologia detestava a escola. Foi o professor de Ciências do 5.º ano do liceu que deixou a semente de uma paixão que o levou a regressar à universidade com 27 anos. Aos 81, depois de uma longa e rica carreira académica, Galopim de Carvalho recorda os tempos de aluno e fala sobre a importância dos professores para o País.

O que recorda com mais saudades dos seus tempos de estudante?

Recordo o professor de Ciências Naturais que foi o responsável pelo caminho que a minha vida tomou. Chamava-se Cassiano Vilhena e era professor no liceu Gil Vicente, em Lisboa, mas esteve um ano colocado em Évora. Ensinava com um grande entusiasmo, que não era habitual para a época. Foi uma inspiração na minha vida como professor. Mas basta pensar que nessa altura era adolescente para ter saudades.

Ensinou Geologia durante muitos anos. Como era como professor?

A principal característica da minha vida como professor era a afetividade. Fui sempre amigo dos meus alunos e esse convívio e proximidade ajudou muitos a superar as dificuldades ou o alheamento que sentiam em relação à disciplina. Tinha sempre as minhas aulas cheias. Na minha altura, ir às aulas não era muito comum, era visto como uma chatice. Havia a execrável sebenta e bastava empinar aquilo para passar nos exames. Nunca tive sebenta. Os meus dois filhos foram meus alunos e sempre me disseram que as minhas exposições os deixava convencidos de que já sabiam a matéria. No fundo, o que eu fazia era abrir uma porta, apelar ao raciocínio, à dedução. Não podia ser de outra maneira e a matéria assim ensinada era mais facilmente interiorizada. É verdade que a Geologia presta-se a isso.

Mas só regressa à Geologia mais tarde.

Depois do liceu fui estudar Biologia, por vontade do meu pai, e fracassei. O meu percurso é complicado. Já depois dos 27 anos, depois de ir à tropa, de trabalhar, de ter casado, é que fui estudar Geologia. E pela primeira vez gostei de estudar.

Antes não gostava? Que tipo de aluno era?

Fui sempre um péssimo aluno. Nunca gostei da escola. Nos últimos meses tentava compensar e passava sempre no limite. Fui sempre para a escola como quem vai para o cadafalso. O domingo à noite era sempre um castigo porque sabia que na segunda- -feira tinha de me levantar e ir para escola e que não tinha feito os trabalhos. Mas tive sempre muita curiosidade pelo mundo.

Muita da sua aprendizagem foi feita fora da escola?

Em criança convivi com todos os ofícios da minha terra e isso foi muito importante para mim. Tinha um tio que era sapateiro e ia muito para o pé dele. Também havia uma carpintaria na minha rua e passava muito tempo com o mestre carpinteiro. Mesmo depois de adulto sempre tive ferramentas e sempre fiz o que era preciso. Também me lembro perfeitamente de ir para a mercearia, pesar o açúcar e de brincar em cima dos fardos de bacalhau e dos sacos de farinha e de feijão. Tive uma infância e uma adolescência muito ricas, que me temperaram, e criaram uma maneira de estar na vida distante daquilo que é o estereótipo do académico, fechado na sua torre de marfim.

Qual é o papel dos professores?

Acho que o professor tem um papel fundamental, logo a partir da infância. Tem a função inestimável de inculcar nos alunos o gosto pelo saber. São os grandes construtores de uma geração. É pena que sejam tão maltratados em Portugal. Para já são mal pagos, depois são obrigados a fazer uma série de tarefas administrativas, estão sobrecarregados com burocracias e o essencial fica por fazer. Há anos que estão a ser vilipendiados e estava com muita esperança no atual ministro, mas acho que ele está a ser cilindrado pelas dificuldades.

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