"Fiz o 5.º e o 6.º ano na Tele-Escola"

O DN lançou a iniciativa Professor do Ano, que visa reconhecer os melhores docentes, com a ajuda das comunidades educativas. O escritor José Luís Peixoto, de 38 anos, recorda os professores que marcaram o seu percurso, os anos da Tele-Escola na sua aldeia natal, no Alentejo, e reflete sobre o valor da educação para o País.

Há pouco tempo partilhou fotografias da sua escola primária, em Galveias, na rede social Instagram. Guarda boas memórias dos primeiros anos de escola?

Tenho memórias muito positivas e que ainda hoje me marcam bastante. Foi nessa altura que se lançaram os pilares para a construção daquilo que sou hoje, do que é a minha experiência, embora continue a aprender. Os primeiros anos moldam o que é mais importante, a estrutura. Acredito que podemos sempre mudar e melhorar, mas na verdade esse início é marcante.

Que professores o marcaram mais?

Na primária tive uma única professora, que é muitíssimo marcante porque foi a pessoa que me ensinou a ler e a escrever e que ensinava todas as áreas, todas as disciplinas. Durante muitos anos definiu a imagem do professor para mim, era alguém que tinha o mundo para desvendar. Ao longo do meu percurso recordo aqueles que mais me aproximaram das letras e do caminho que viria a seguir, aqueles que me despertaram para a leitura, como os meus professores de Literatura Portuguesa dos 10.º e 11.º anos.

Era bom aluno?

Não era um aluno extraordinário. Não me distinguia particularmente e nunca fui dos que tinham melhores notas. Quando percebi que era importante ter boas notas fiz por tê-las, mas não era muito motivado para isso. Nem era particularmente bem comportado, na adolescência, e se os professores me recordavam era provavelmente por causa de algumas extravagâncias.

A seguir à primária, frequentou a Tele-Escola. Como foi essa experiência?

Sim, fiz o 5.º e o 6.º ano na Tele-Escola, como todas as pessoas da minha aldeia faziam. A opção era entre a Tele-Escola e ir para outro lugar. Para mim na altura era muito normal porque as minhas irmãs mais velhas já tinham passado por lá e porque a Tele-Escola estava muito presente: passava na televisão. Quando eu era pequeno se por acaso ficava doente em casa era o que via na televisão. Não era uma coisa fora do comum.

O papel do professor na sociedade mudou muito desde a sua infância?

Sim, mudou bastante em relação à minha infância. Num meio pequeno o professor era efetivamente uma autoridade. Hoje em dia isso perdeu-se e de uma forma que é injusta para a atividade que o professor desenvolve. É um retrocesso, na valorização do que efetivamente tem valor, passo a redundância. Em muitas áreas, enquanto sociedade, temos vindo a perder a noção daquilo que efetivamente tem valor. Por isso a crise é talvez muito mais profunda do que a crise económica. A economia só domina todas as áreas se o permitirmos. Nós é que fazemos tudo depender da economia, quando achamos que nos cumprimos através dela. No fundo, as notas são só papéis. Não devemos confundir o símbolo com o concreto. E os professores, o ensino, a educação não são o simbólico, são o concreto.

O orçamento para a educação sofreu vários cortes nos últimos anos e é uma altura em que se discutem muitas ideias para o setor. Tem alguma opinião sobre isto?

Tenho algumas ideias e vão no sentido de perceber que a educação é o pilar fundamental na construção e um país, é um património. Há uma frase que vi escrita numa parede há pouco tempo, que dizia "se acham que a educação é cara experimentem viver sem educação". Não investir nesta área é o mesmo que não lavar a cara de manhã, é não fazer o essencial.

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