"Explodi de alegria... mas não foi o Euromilhões"

Acertou em cheio na Lotaria do Natal em 2008. 300 mil euros que usou para pagar os artigos da ourivesaria, assaltada um ano depois.

Primeiro prémio! Zero! Três! Sete! Seis! Quatro! Três mil, setecentos e sessenta e quatro. Seis milhões de euros. Cantam os pregoeiros a Lotaria do Natal de 2008. Minutos depois, Rui Ferreira, da Casa Campião de Coimbra, entra pela ourivesaria de José da Costa e anuncia: "Fomos nós que vendemos a Sorte Grande e você tem o número sorteado!"

"Foi este amigo que me deu a novidade", conta, dois anos depois, José da Costa. Não é que Rui Ferreira tenha memória de elefante, o que acontece é que o 3764 é o número com que o "feliz contemplado" joga desde sempre. José é proprietário da Ourivesaria Costa, na principal artéria comercial de Coimbra, a Rua Ferreira Borges, onde a 50 metros fica a Casa Campião, e a cem a Casa da Sorte. "São meus amigos e eu compro uma cautela a cada um, números certos. Compro apenas uma fracção durante todo o ano, mas no Natal compro a dobrar", conta. Só que há dois anos tinha decidido reduzir os gastos. "A crise estava a chegar e eu disse ao meu colaborador para trazer apenas uma fracção de cada número. Durante a noite comecei a pensar: 'Compro sempre duas e este ano só comprei uma, se ganhar fico triste.' E, no dia seguinte, pedi-lhe para comprar duas."

E acertou, mesmo no número, ganhou 150 mil euros por cada fracção. "Explodi" de alegria, mas "não foi nenhum Euromilhões", lembra.

"Fazem-se uns jantares, bebem-se uns copos, dá-se umas lembranças à mulher, aos filhos e netos, pagam-se dívidas. E a vida continua." A única extravagância que fez foi substituir o Renault 25 de 15 anos por um Peugeot 407.

"Conheço mais duas ou três pessoas que ganharam, mas em geral as pessoas não nos dizem", conta Rui Ferreira, em cuja loja se venderam dez fracções do número sorteado. Vinte e seis anos naquele balcão, alguma das vezes contemplados com uma "pequena lembrança" do vencedor, o que acontece cada vez menos.

José da Costa não teve problema em dizer que ganhou a lotaria, mas admite que, se fosse hoje, talvez não o fizesse. É que, depois da euforia, veio a tristeza. Este ano, dia 31 de Janeiro, quando foi para abrir a ourivesaria, viu que tinha sido assaltado. "Foi uma desgraça, que me aconteceu a mim e a dezenas de colegas. Entram durante o fim-de-semana, quando não está ninguém, e levam tudo. Levaram o outro e jóias", desabafa, mostrando as prateleiras que, agora, expõe essencialmente pratas.

Não tinha seguro e garante que se o tivesse pouco o ajudaria, acreditando que "as seguradoras se servem de todos os pormenores para não indemnizar". É, sobretudo, sobre esta onda de assaltos que quer falar: "A polícia não consegue prendê-los e o ouro é levado para o estrangeiro."

Explica que os dois momentos não têm comparação. "A lotaria não alterou nada na minha vida. Tinha uma vida razoável, era extrovertido e brincalhão. Vivia com gosto. O assalto foi uma tristeza. Compro pouco ouro e não tenho mercadoria para o cliente escolher. Não sei o que me reserva o futuro, vou esperar para ver se vou para a frente", confessa. Mas reconhece que seria bem pior se não tivesse recebido a taluda. "A mim, roubaram o que era meu. Se não tivesse ganho, levantava-se o problema das dívidas e a catástrofe era maior."

José da Costa tem 79 anos, continua a trabalhar na ourivesaria, de onde deixou de tirar o seu ordenado após o roubo. Começou como marçano, aos 11 anos. "Não era proibido, acabei a 4.ª classe e os meus pais puseram-me a trabalhar de dia e no curso comercial à noite. Cheguei a empregado principal, passei a insignificante sócio até que fiquei a sócio principal." Os dois filhos têm uma quota simbólica, licenciaram-se em letras como um dos cinco netos.

O número que compra na Casa da Sorte é o 13 313, que lhe deu um terceiro prémio , cem contos pela compra de uma fracção. E, claro, tem tido terminações. "Sempre gostei de jogar, desde rapaz, dentro das minhas possibilidades. Partindo deste princípio acho que não fica mal a ninguém!"

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