Exército estuda reforço do treino na defesa e apoio das populações

General Rovisco Duarte, Chefe do Estado-Maior do Exército, criou grupo de trabalho para avaliar a necessidade de adequar o treino operacional ao existente a nível da NATO

O Exército privilegiou, nas últimas décadas, o treino de unidades operacionais para missões militares no estrangeiro. Agora, após o furto de Tancos e os incêndios trágicos de 2017, reconhece ser necessário "recuperar algum do conhecimento e do treino" nas áreas da dissuasão e defesa do território nacional, proteção das populações e apoio militar de emergência, assume o comandante operacional do ramo.

O tenente-general Guerra Pereira, ouvido pelo DN na sequência da criação do grupo de trabalho para rever o treino operacional do Exército, afirma que na base desta decisão do Chefe do Estado-Maior do ramo, general Rovisco Duarte, está uma responsabilidade inscrita no Conceito Estratégico Militar (CEM) a que pouco se liga.

"Temos de ter capacidade de dissuasão defensiva e de permanentemente apoiar, em termos de território nacional, tudo o que tem a ver com a segurança, a proteção das populações e o apoio militar de emergência", assume Guerra Pereira, que assumiu o cargo de comandante das Forças Terrestres no final de dezembro e depois de estar quase um ano como segundo comandante do quartel-general da NATO em Valência, Espanha.

O primeiro nível de ambição definido no CEM (2014) para o Exército implica ter "capacidade para projetar e sustentar, em simultâneo, até três unidades de combate [de escalão batalhão], apoio de combate ou apoio de serviços" em três teatros de operações e, ainda, poder "comandar uma única operação" com uma brigada "em qualquer situação e grau de intensidade" - o que não passa só por treino e formação mas também exige sistemas de armas e equipamentos para esse fim.

Tem sido precisamente esta responsabilidade, acompanhada pelo fim do serviço militar obrigatório e por uma redução significativa de efetivos na última dúzia de anos, que levou a que o treino operacional do Exército tenha, nos últimos anos, sido "sempre muito dedicado às operações", observa Guerra Pereira.

Este general admite depois que o seu conhecimento direto dos processos de revisão e reestruturação interna em curso na NATO, face ao ressurgir da ameaça convencional que é a Rússia e à necessidade de responder às múltiplas ameaças "a 360 graus" e já não só do leste ou do sul, servirão de guia para o trabalho.

A decisão de criar o grupo de trabalho para avaliar a "eventual necessidade de reformular" toda a área do treino operacional foi publicada há cerca de uma semana pelo CEME. Essa equipa vai ser presidida pelo major-general Raul Cunha (na reserva), um operacional das forças especiais com especialização dos paraquedistas, comandos e operações especiais (rangers de Lamego).

Raul Cunha explica ao DN que o trabalho "vai requerer muita pesquisa para ver o que está a ser feito noutros países" da NATO e "para aproveitar" as melhores práticas. Há a consciência que "há bem pouco tempo estávamos à frente" desses aliados, que o "constataram e deram um salto qualitativo".

Por isso, adianta o antigo comandante da Brigada de Reação Rápida do Exército e juiz militar no Tribunal da Relação do Porto desde 2014, "agora é uma questão de procurar evoluir" com o que se faz lá fora. Questionado sobre se a presença, quase contínua desde 1996, em missões militares da NATO permite fazer alguma comparação com o que fazem outros Exércitos, Raul Cunha considera que "não é assim tão fácil, tão linear, aferir" o nível de treino das Forças Nacionais Destacadas com as dos aliados.

O CEME, no seu despacho, definiu que o grupo de trabalho terá em conta "os mais recentes conceitos operacionais implementados", ao nível da NATO, para ver se há "necessidade de eventual adequação" do treino ministrado no Exército "aos requisitos operacionais e de exigências" constantes de dois documentos da Aliança (sobre avaliar a prontidão de combate das forças e quartéis-generais terrestres).

Contudo, tanto Guerra Pereira como Raul Cunha afastam a ideia de que o treino e formação dos comandos - mais uma vez posta em causa com a morte de dois recrutas no curso de Comandos em setembro de 2016 - tenha justificado a iniciativa. O major-general na reserva enfatiza mesmo que pelo menos "parte da instrução dos Comandos é muito boa e produz bons combatentes", como se tem vindo a provar nas operações realizadas ao serviço da ONU na República Centro Africana (como força de reação rápida do comandante da missão).

Para Guerra Pereira, há outros aspetos importantes: "Se queremos influenciar algo este ano", no planeamento do treino anual e na revisão das capacidades a adquirir através da Lei de Programação Militar, "temos de ter" informação "a curto prazo" - e há três: dia 31 deste mês, para elaborar um plano de trabalho; 16 de fevereiro, para entregar um estudo prévio; até 13 de abril deste ano, para entregar a proposta final

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