Exame de matemática mais exigente cria preocupação nos politécnicos

Provas. Associação e Sociedade Portuguesa de Matemática consideram testes adequados mas com grau de exigência superior aos de 2015. Institutos dizem que isso costuma equivaler a quebra no número de candidatos nos concursos

Depois da subida das médias no ano passado - em que a classificação dos alunos internos chegou aos 12 valores - as primeiras impressões sobre o Exame Nacional de Matemática A do secundário, tanto as dos especialistas da área como dos alunos ouvidos pelo DN (ver página ao lado) apontam para um grau de exigência superior ao de 2015. Uma notícia que deixa apreensivos os institutos superiores politécnicos, habituados a verem cair as candidaturas - a disciplina é uma prova de ingresso fundamental em vários cursos - sempre que isso sucede.

Tanto a Associação de Professores de Matemática (APM) como a Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM), ouvidas pelo DN, consideram a prova deste ano "adequada" em relação aos programas e até relativamente "acessível" nos conteúdos abordados. O problema está na comparação com os testes do ano passado, que inverteram uma tendência de descida das médias à disciplina que já durava há algum tempo.

"Parece-nos que a prova tem a extensão adequada e está muito bem estruturada", disse ao DN Fernando Pestana da Costa, presidente da SPM. "Tem perguntas com vários graus de dificuldade. Há claramente algumas perguntas que permitem distinguir os alunos melhores dos outros", acrescenta, dando os exemplos da "última questão, a 6.2, que não precisa praticamente de contas nenhumas para ser resolvida mas obriga a que a pessoa saiba pensar sobre estes assuntos" e da questão 4.1. "É uma daquelas perguntas em que o aluno olha e sabe o que fazer. Mas exige fazer um certo número de cálculo".

Em comparação com os exames de 2015, o responsável da SPM não tem dúvidas em considerar que esta foi "mais complicada". Não por ter sido excessivamente exigente mas porque a anterior "foi ligeiramente mais simples do que as dos outros anos". E a consequência natural deverá ser uma descida das médias. "Este ano não é de esperar que se vá ao nível das notas do ano passado, mas vamos esperar para ver", ressalva.

Para Jaime Carvalho e Silva, da direção da APM, que teve a seu cargo a coordenação da análise aos testes de ontem, a prova de Matemática A "não era difícil" e em geral "bem construída". Mas exigia"um volume de trabalho pouco compatível com o tempo disponível. Exigia mais do que no ano anterior", acrescenta.

"Talvez por ser um pouco extensa em demasiado", resume. "Não em número de questões mas no trabalho que exige", explica. "Há cálculos que duram uma página inteira", concluiu.

"Variabilidade" preocupa

Sinais que deixam em alerta os responsáveis dos institutos politécnicos, habituados a ver refletido no número de candidatos o grau de dificuldade dos exames. Em particular a prova de Matemática A, que serve de prova de ingresso para vários cursos, sendo que a classificação mínima aceite são 9,5 valores.

"Neste momento, a entrada no ensino superior através do concurso nacional de acesso está proporcionalmente ligada à dificuldade existente ou não nos exames nacionais", assume ao DN Sobrinho Teixeira, do antigo presidente do Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos (CCISP) e líder do Politécnico de Bragança.

Variações nos resultados, assume - sobretudo quando são para baixo - , tendem a traduzir-se em más notícias para o setor: "Uma das coisas que mais têm incomodado as instituições é que, por mais esforço de quem prepara a prova, há uma grande variabilidade nas notas, que não tem qualquer justificação a não ser o grau de dificuldade da prova ser diferente", lamenta. "Ninguém acredita que os alunos de um ano sejam mais inteligentes do que os do outro. E isto cria injustiças".

A confirmar-se a descida de resultados "numa das provas mais importantes, a par de Português, isso vai reduzir o número de candidatos", prevê. "Desde logo na Engenharia, onde há uma dupla conjugação com a Física e Química, e na área da Economia".

Em causa estão principalmente os alunos que não atingem os mínimos. Mas Sobrinho Teixeira defende que um ano com médias inferiores também cria "injustiças" no acesso a cursos que exigem classificações de topo, como a Medicina: "Provas mais difíceis num ano facilitam a entrada de alunos de anos anteriores, porque as notas [dos exames] são válidas [como provas de ingresso] durante dois anos". O Instituto de Avaliação Educacional (IAVE), responsável pelas provas, disse ao DN ser "prematuro" analisar o teste de ontem.

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