Ex-ministro vai criar perfil do aluno no 12.º, mas avisa: é para manter

Guilherme d'Oliveira Martins lidera grupo criado pelo governo que vai traçar linhas do que devem os jovens aprender na escolaridade obrigatória

Quando acabar o ensino obrigatório um jovem deve ter aprendido que a formação se faz ao longo da vida e deve ter aprendido "a ser um cidadão ativo, ter uma vida empenhada, socialmente consciente, cosmopolita, aberta, respeitadora, centrada nos direitos fundamentais da dignidade humana". Os traços gerais são dados por Guilherme d"Oliveira Martins, administrador da Fundação Gulbenkian e ex-ministro da Educação (entre outras pastas), que vai agora liderar um grupo de trabalho criado pelo governo para traçar o perfil de saída dos alunos no final do 12.º ano.

Mas avisa que deve ser dada estabilidade ao modelo que vai ser proposto. "A primeira preocupação que está subjacente à própria constituição do grupo é a de que estes objetivos, estes perfis têm que ser estáveis. Qualquer mudança na educação tem efeitos a não menos de uma geração, estamos a falar sempre de 20, 23 anos".

Depois de ter estado no primeiro perfil traçado "no final dos anos 1980, no âmbito da Lei de Bases do Sistema do Sistema Educativo", Guilherme d"Oliveira Martins considera que foi também por trazer essa ponte que foi convidado agora. Nessa época, "a fronteira do ensino obrigatório era o 9.º ano", mas de lá para cá mantêm-se algumas preocupações.

A estabilidade das metas é uma delas, mas também o conceito de que a educação deve abrir horizontes. Por exemplo, "as humanidades não são só as literaturas. É a compreensão que a educação, a cultura e a ciência estão intimamente ligadas". Além disso, "temos que motivar os jovens e simultaneamente garantir que eles estejam em formação ao longo da vida. Hoje já não se forma para uma profissão que envolva a vida inteira".

O trabalho para que foi desafiado pelo governo, juntamente com outros 10 especialistas - que vão desde professores do ensino básico, secundário e superior, a investigadores e membros de gabinetes do ME -, tem também como missão "dar um sinal para a sociedade, para as famílias e para os professores, que são os educadores profissionais". As conclusões devem ser conhecidas até 31 de dezembro de 2016, indica o despacho do governo. Até agora houve apenas uma reunião preparatória - o grupo foi constituído em julho - e o segundo encontro está previsto para setembro.

Porém como se estabelece um perfil dos saberes e competências dos jovens que concluem o 12.º ano, quando existem vias diferenciadas? "Temos que perceber que ao garantir uma educação para todos, nós temos que garantir uma educação diversa, exigente e uma educação que crie condições para termos uma cidadania ativa e responsável", defende Guilherme d"Oliveira Martins. Ainda assim este será sempre um perfil comum que não exclui as diferenças. "A igualdade é tratar diferente o que é diferente. Fala-se da cultura. Ora bem, hoje cultura é naturalmente articular a educação, a ciência e a cultura".

E o professor universitário dá três exemplos de como a educação obrigatória dá as ferramentas para três carreiras distintas. Um cientista deve ser formado "de modo a estar disponível, a trabalhar em equipa, a estar informado, atento", enquanto que um artista plástico ou escritor deve ser estimulado a " introduzir toda a sua capacidade criadora naquilo que é o suscitar da relação que se estabelece com a natureza". Já o artesão "naquele ato às vezes repetitivo, vai, no fundo, garantir que a criatividade seja enraizada, seja entendida. E o artesão tanto é o cozinheiro, como o artífice do barro ou da pedra".

As metas que vão ser propostas vão ter também como fio condutor a sua "realizabilidade". "Estamos a trabalhar para o largo prazo, atingiremos o nosso objetivo se daqui a uns anos se disser "aquele grupo apontou no caminho certo"", defende Guilherme d"Oliveira Martins. Por isso, lembra "estamos a trabalhar para as próximas gerações. Não é possível fazer depender a política educativa dos ciclos políticos ou eleitorais". Nesse sentido, este perfil deve ser "abrangente, corresponder a um denominador comum relativamente à sociedade portuguesa hoje, com toda a sua diversidade e complexidade".

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