Está lá? Daqui é o Presidente

E se Marcelo Rebelo de Sousa for presidente?

As mantinhas para os joelhos foram deitadas ao lixo, as salamandras mandadas para o ferro velho e foi retomado o contrato com a banca de jornais mais próxima. Depois de uns dias em que uma brigada de limpeza esfregou cada canto do palácio, em que cortinas e reposteiros foram atirados para as caves e se se mantiveram as janelas abertas para que o ar, pesado de dez anos, voltasse a circular, Marcelo Rebelo de Sousa convidou os cidadãos para uma visita aos jardins e a algumas salas do Palácio de Belém. Uma festa.

O Presidente da República não foi propriamente para a grelha nem andou a fazer brindes, mas cirandou de grupo em grupo a contar e ouvir histórias, a anotar pedidos e a garantir que o chefe da Casa Civil tinha memória de elefante e não o ia deixar esquecer-se de nadinha.

Não houve discurso nem declarações oficiais, mas no dia seguinte, sabe-se lá por que artes mágicas, apareceram umas frases muito bem desenhadas nos jornais e nas redes sociais, frases em que alguns convivas incógnitos diziam que tinha sido a festa do povo. "A festa da vitória do povo."

A verdade é que a já distante noite eleitoral tinha sido diferente das habituais - e não por Marcelo, hipocondríaco incorrigível, ter sacado dum frasco de álcool e desinfetado os microfones antes de começar o discurso de vitória. Nenhum dirigente partidário apareceu a reclamar a sua quota parte e todos os comentadores foram unânimes em afirmar que nunca um Presidente tinha sido eleito duma forma tão independente e tão afastada dos partidos. "Uma legitimidade e uma força para falar em nome dos cidadãos nunca vista numa eleição para primeiro mandato", alguém afirmou.

As idas aos pastéis de Belém para um café em chávena escaldada já faziam parte das crónicas mundanas. Claro que havia quem não gostasse. Uns porque não casava bem com a gravitas exigível a um Presidente da República. Outros, por causa das fugas de informação (há quem lhes chame isso) que surgiam nesses pequenos passeios quase sem segurança. O episódio mais recente numa destas idas ao café, e que deu origem a estas críticas, deu-se quando Marcelo pegou no telemóvel e ligou a Cristiano Ronaldo aconselhando-o a descansar mais, a viajar menos, porque o Euro estava próximo. Ou quando pediu explicações a um general do exército por causa de um acidente nuns exercícios militares. Ora, já se sabe que o Presidente não fala baixinho e que as mesas no estabelecimento não estão muito afastadas, daí até à polémica bastou um gole de café. Mal o Presidente saíra da porta, de volta ao Palácio de São Bento, já o Facebook crepitava de comentários.

A propósito destes novos hábitos, alguém lembrou que já lá iam os tempos em que assessores da Presidência se encontravam secretamente com jornalistas em pastelarias com intuitos menos próprios. Agora era o Presidente que ia tomar café e à vista de todos. Novos tempos.

O mandato não teve um início, digamos assim, suave. Passos Coelho não ficou nada satisfeito quando Marcelo, durante uma iniciativa presidencial sobre Justiça, falou sobre o necessário respeito pelo princípio da não inversão do ónus da prova, percebendo que era uma mensagem para mais uma iniciativa do PSD sobre o enriquecimento ilícito. E o primeiro-ministro não escondeu a sua irritação quando o Presidente perguntou a um catraio, numa ida a uma escola, se ele sabia se ia ter exames ou não nesse ano.

Problemas realmente sérios deram-se em meados de maio. O sistema financeiro nacional ameaçava colapsar. Um novo resgate para a banca estava a ser negociado. Os principais partidos não se entendiam e os decisores europeus exigiam o acordo não só dos partidos do governo mas também o compromisso do PSD.

Marcelo não conseguia dormir as suas quatro horas: a crise era grave e a dezena de telemóveis e telefones fixos espalhados pela cama perturbavam o ambiente.

Mario Draghi e Jean-Claude Juncker também andavam meio abananados. Era a primeira vez que recebiam telefonemas dum Presidente da República às quatro da madrugada. Melhor: era a primeira vez que o telefone tocava a essa hora e que do outro lado chovia um discurso torrencial que não permitia resposta: "Sr. Draghi, isto aqui vai correr bem. Não se preocupe. Não se preocupe, isto... sabe como é, nenhum pode dar parte de fraco. O meu amigo sabe como é, claro que sabe, claro que sabe. Só mais uns dias. Ligo-lhe já. Até já. Até já."

Entretanto, na frente interna: "Sr. primeiro-ministro, vou falar com o Passos Coelho. Ele vai perceber. Mas, ouça, o senhor não é só o primeiro-ministro, é um dos mais brilhantes políticos que Portugal já teve. Não podemos fazer finca-pé. Temos de nos ajudar. E se... Não desligue, por favor." O chefe da Casa Civil estendia-lhe o outro telefone. "Se não é um dos mais brilhantes portugueses! Como vai o meu querido amigo? Ouça, isto é mesmo muito importante. Só o meu amigo com o seu sentido de Estado, com o seu amor por Portugal nos pode tirar deste imbróglio. Pedro, você é um dos mais brilhantes políticos portugueses de todos os tempos. Você vai ficar para a história se ajudar nisto. Não ponha dúvidas. Isto vai fazer de si o próximo presidente da República. Sim, sim, eu só aguento um mandato. Mas vamos arrumar isto, OK? Posso combinar um encontro com o António Costa para amanhã? Vocês entendem-se, eu já falei com ele, isto está bem encaminhado. Não desligue."

"Sr. primeiro-ministro, acho que isto vai, vai mesmo. O homem, cheira-me, está convencido. Amanhã ? Eu nem preciso estar presente, claro está."

Manchete do Diário de Notícias dois dias depois: "Fumo branco entre governo e oposição. Presidência da República elogia entendimento entre líderes."

Já falta pouco para o Orçamento de 2017.

O DN desafiou cinco personalidades para, partindo das declarações públicas dos cinco principais candidatos a Belém, antever como seriam os primeiros seis meses de mandato de cada um deles caso fossem eleitos. Hoje terminamos com Pedro Marques Lopes e a sua visão de Marcelo na Presidência.

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