Esquerda em velocidade de cruzeiro, direita à procura do norte

Há um ano PSD/CDS ganharam as eleições, mas perderam o governo pouco depois. Costa uniu a esquerda, a direita acabou dividida

O aviso, solene, pertence, no artigo de opinião à esquerda, a um dos dirigentes do PS mais próximos de António Costa: o entendimento entre as esquerdas que apoia o governo do PS tem funcionado genericamente bem; mas a prazo poderá tornar-se "insustentável" se o BE e o PCP insistirem em "empurrar" o PS para "o confronto com as instituições europeias".

Há um ano, na noite de 4 de outubro de 2015, a divulgação dos resultados eleitorais fez pela primeira vez António Costa - o grande derrotado desse dia - assumir a possibilidade de formar governo apoiado naquilo que se tornaria num histórico entendimento à esquerda, envolvendo o PS (a governar) com o BE e o PCP (a apoiarem no Parlamento). Já há muito tempo que o líder socialista teorizava sobre a necessidade de acabar com a teoria do "arco da governabilidade" (a teoria que dizia que só o PS, o PSD e o CDS poderiam governar). Mas nunca como nessa noite se tinha vislumbrado de forma tão notória a tradução concreta que tal ideia poderia ter: um governo de esquerda.

A geometria eleitoral permitia-lhe o sonho: a coligação PSD+CDS vencera as eleições (36,8%). Mas os resultados somados de PS (32,3%), BE (10,2%) e CDU (8,25%) dava--lhes maioria no Parlamento (122 deputados, sete acima da fasquia).

E a Europa? Era a Europa - e continua a ser - a grande divisão dentro desta maioria. Os socialistas sempre foram europeístas, os comunistas antieuropeístas e os bloquistas transitaram da primeira posição para a segunda. A forma de contornar o obstáculo foi a única possível: entenderam em não se entender, ficando cada um na sua. O PS aceita para governar os limites impostos pela UE, embora tentando adaptar-lhes aquilo a que chama uma "leitura inteligente"; o PCP e o BE recusam - mas não traduzindo essa recusa em votos no Parlamento quando se trata de deliberar sobre documentos centrais para a governação, como os orçamentos do Estado.

Para o de 2017 nada antecipa dificuldades de aprovação entre os três partidos da esquerda, mesmo estando os objetivos na despesa pública subordinados às imposições do Tratado Orçamental. Até agora o percurso foi-se fazendo sem grandes tropeções - apesar de notoriamente o crescimento económico estar abaixo das iniciais previsões otimistas do PS. Nas sondagens, o PS aparece agora como o partido mais forte, reforçando a maioria de esquerda, e tudo aponta - embora ainda falte um ano - para que as eleições autárquicas não ofereçam dificuldades de maior.

A engenharia de Costa ditou o fim da coligação de direita. Pareceu mais vontade do CDS em separar-se do PSD do que o contrário. Paulo Portas foi o primeiro a perceber que a "geringonça" estava para durar e bateu em retirada da liderança do CDS. Assunção Cristas assumiu o partido e tem tentado distanciar-se tanto do anterior parceiro de coligação como da presidência do antecessor. A candidatura à Câmara de Lisboa é sinal disso mesmo.

O PSD, que costuma ser implacável para os líderes que falham, não o foi para Passos Coelho. A vitória nas legislativas de 2015 ainda falou mais alto no último congresso do partido em Espinho. Passos saiu de lá reforçado, apesar de ter sido alvo de fortes críticas por ter recusado apresentar propostas durante a discussão do Orçamento do Estado para 2016. Este ano, daqui a uns dias, bisa essa decisão. Não deverá apresentar uma única proposta para um Orçamento que diz assentar numa estratégia económica errada.

Passos, que tem percorrido o país durante todo este ano, mantém firme a ideia de que o seu projeto para o país era o certo, aquele que poderia levar ao desenvolvimento económico e ao progresso social. Dizem que lhe falta a palavra de esperança que os portugueses gostam de ouvir e, talvez por isso, nas sondagens começa a acusar o desgaste da governação mais benévola de Costa.

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