"Espero ser restituída à liberdade rapidamente"

Maria Virgínia Passos, 61 anos, foi avó três vezes enquanto esteve presa seis anos na Venezuela por tráfico de droga. Chegou a Lisboa ontem, no dia da visita de Hugo Chávez

A segunda das "Marias de Arraiolos" a ser transferida da cadeia da Venezuela para Portugal, Maria Virgínia Passos, 61 anos, recebeu ontem à tarde a sua primeira visita na cadeia feminina de Tires (Cascais): o seu advogado Carlos Paulo.

Abatida e mais magra, após ter cumprido seis anos de prisão por tráfico de droga numa cadeia a sul de Caracas, Maria Virgínia soltou o seu primeiro desabafo: "Espero ser restituída à liberdade rapidamente." Maria Virgínia chegou às 12.55 ao aeroporto de Lisboa e foi, sob detenção e acompanhada por dois guardas prisionais, conduzida na carrinha celular do aeroporto até ao EP de Tires. Isto no mesmo dia em que o Presidente da Venezuela, Hugo Chávez, foi ao Porto (ver pág.9) e também na exacta data em que se completam seis anos sobre a detenção de Maria, em Caracas (24 de Outubro de 2004).

"Tenho saudades da minha família", contou Maria Virgínia ao advogado, ela que já é avó de três netos que nasceram e cresceram enquanto esteve presa na Venezuela. "Só conheceu um dos netos quando uma das filhas a foi visitar na cadeia a sul de Caracas", contou o advogado Carlos Paulo ao DN. "A minha cliente fartou-se de chorar quando chegou hoje [ontem] à cadeia de Tires. São muitas emoções juntas". Antes de ser libertada anteontem do Instituto Nacional de Orientação Feminina de Los Teques, a sul de Caracas, para viajar para Portugal, Maria Virgínia Passos foi submetida aos exames médicos da praxe. Mas terá de fazer mais exames em Portugal. "Ela queixa-se dos intestinos. Devia ter feito uma colonoscopia na Venezuela mas lá não tinham esses meios".

O desejo de Maria Virgínia Cidade Passos em ser restituída à liberdade e em "retomar uma actividade profissional" poderá vir a ser concretizado em breve. "A minha cliente atingiu o prazo para poder sair em liberdade condicional em Julho de 2008, na Venezuela, quando cumpriu dois terços da pena. O Direito interno português acolhe o mesmo prazo por isso acredito que ela será libertada muito em breve", referiu Carlos Paulo.

A ex-advogada foi condenada pela justiça venezuelana a 9 anos de prisão por tráfico de droga a 15 de Dezembro de 2005, num processo que envolveu as outras duas "Marias de Arraiolos": Antonieta Liz, extraditada em Julho, e Margarida Mendes (a única que continua presa em Caracas).

"A minha cliente já tem 8 anos e 4 meses da pena cumprida", adiantou o advogado, contando com o tempo de prisão preventiva.

Maria Virgínia Cidade Passos está numa cela partilhada no Pavilhão Um do EP de Tires. Chegou à cadeia com malas de marca e bem aprumada. Está longe da vista de Maria Antonieta Liz, a primeira das "Marias" a ser transferida para Portugal, a 11 de Julho deste ano. "Nunca mais se deram bem desde que a Antonieta Liz disse que foi ao engano com as duas amigas no avião fretado da Air Luxor para a Venezuela", contou Carlos Paulo.

O advogado de Maria Virgínia viu mais do que uma coincidência no facto de o Presidente da Venezuela, Hugo Chávez, ter chegado ontem ao Porto no mesmo dia em que a sua cliente regressou a Portugal. "Não tenho dúvidas de que o Presidente Hugo Chávez interveio ao mais alto nível neste processo. Em Maio de 2008, quando o primeiro-ministro José Sócrates visitou a Venezuela, Chavéz até quis dar um indulto à minha cliente mas depois não aconteceu, nem cheguei a perceber porquê", adiantou Carlos Paulo.

Há seis anos que a ex-advogada Maria Virgínia não andava de avião. E da última vez que viajou, num aparelho fretado pela Air Luxor, acabou detida por tráfico de droga em Caracas, Venezuela, depois da descoberta de quase 400 quilos de cocaína no avião onde seguia. Por ironia, a droga tinha por destino o aeródromo de Tires, em Cascais, muito próximo da cadeia feminina onde Maria se encontra agora em reclusão, a aguardar a liberdade condicional. Ontem não pôde ter as visitas das duas filhas ou dos netos na prisão, porque os familiares têm de se inscrever para as visitas.

Maria Virgínia Cidade Passos é oriunda de uma família de posses, donos da principal fábrica de tapetes em Arraiolos. Foi advogada, ficou viúva do marido, um militar, e ainda é afilhada do general Ramalho Eanes, segundo contou o seu advogado. Como é que alguém com este perfil caiu no processo do "cartel de Arraiolos"? O advogado encolhe os ombros...

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