Esperar pelo fim da vida com a ajuda dos "anjos"

Feliciana veio de São Tomé para ser tratada a um cancro em fase terminal, Joaquim está há seis anos acamado, depois de dois AVC, e ambos estão aos cuidados dos "anjos" de uma equipa de cuidados paliativos.

O presidente da Associação Portuguesa dos Cuidados Paliativos define-os como "uma filosofia do cuidar e uma área do saber", destinados às pessoas com uma esperança de vida reduzida, por causa de doenças, crónicas ou progressivas, que os vão conduzindo até à morte.

Tal como Luís Capelas explicou à Lusa, "o grande objetivo" é prevenir e aliviar o sofrimento que estes doentes sentem porque o alívio da dor fará com que tenham melhor qualidade de vida até ao momento final.

Cuidados que Feliciana está a ter depois de, no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, terem confirmado que esta santomense, de 54 anos, tem um cancro da mama, em fase terminal, que entretanto metastisou para os pulmões.

Feliciana não tem família em Portugal e está aos cuidados das Irmãs Missionárias de São Carlos Borromeo Scalabrinianas, no Seixal, que a acolheram ao abrigo de um protocolo com o Ministério da Saúde.

" Lusa, uma das irmãs explicou que procuraram o apoio das equipas da Unidade de Cuidados da Comunidade (UCC) do Seixal, que dá apoio ao nível dos cuidados paliativos, porque sozinhas não seriam capazes de dar a Feliciana toda a atenção de que ela precisa.

"As enfermeiras dão apoio moral, dão apoio espiritual, elas ajudam através do diálogo. Não é só simplesmente o curativo que fazem", disse a irmã Maria Eli Morandi.

Feliciana tem todos os dias a visita da enfermeira Ana Alberto. Durante o tempo que partilham, a enfermeira trata a ferida física, mas procura, ao mesmo tempo, que a sua ajuda vá mais além, já que Feliciana está deprimida e tem uma "estabilidade emocional muito frágil".

"Venho cá para escutar, para ouvir, para que ela consiga, de alguma forma, libertar os seus sentimentos. Venho avaliar também a possibilidade de um psicólogo e vimos para fazer tudo o que é necessário, desde o levante, ao conforto, a própria higiene da senhora - é muito mais do que apenas fazer-lhe os tratamentos", explicou a enfermeira.

Depois de Feliciana, Ana Alberto visita Joaquim Gomes da Costa, em Fernão Ferro. Joaquim tem 78 anos e está acamado há seis anos, depois de ter sofrido dois Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC). Recebe o apoio da Unidade de Cuidados da Comunidade do Seixal, desde há dois anos.

"Neste momento, vimos cá numa situação de vigilância, porque a família cuidadora está completamente capacitada em todos os auto cuidados a prestar ao utente", disse a enfermeira Ana Alberto.

A mulher de Joaquim é quem o acompanha, 24 por 24 horas, num dia a dia "muito limitado", que se faz entre os cuidados permanentes ao marido e as normais tarefas domésticas. Deixou de trabalhar, nunca mais foi ao cinema, à praia ou jantar fora com os amigos.

Noémia Costa não tem dúvidas em afirmar que a sua vida seria muito mais difícil se não tivesse o apoio da UCC: "São uma ajuda extraordinária. Elas são anjos que têm estado aqui. Se há no céu, elas estão aqui".

Quem presta cuidados paliativos sabe que as pessoas, que estão a cuidar, vão morrer e isso obriga a que, ao mesmo tempo que ajudam as famílias no luto, consigam também fazer o seu próprio luto.

De acordo com a coordenadora da UCC do Seixal, este é um trabalho bastante pesado, em que nem sempre se consegue estar imune ao sofrimento, já que, para prestar bons cuidados, é obrigatório conseguir-se estabelecer relações com os pacientes.

Maria Júlia Matos explicou que o ato de cuidar resulta da interação que conseguem estabelecer com o paciente e a família e que o luto entre os enfermeiros é feito através das reuniões de equipa.

"A equipa verbaliza as suas preocupações e as suas ansiedades, os seus receios e, entretanto, isto também serve um pouco para dar uma nova força à equipa", explicou a responsável.

Luís Capelas defendeu, por seu lado, que é inevitável que os enfermeiros sofram as perdas dos seus pacientes, porque esse sofrimento mostra que foi estabelecida uma relação afetiva com a família, já que só através dessa ligação "muito próxima" é possível avaliar as necessidades dos pacientes.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG