Esforço dos Comandos estava já a ser monitorizado

Exército procura respostas para o problema da exaustão entre os instruendos, com a colaboração da Universidade do Porto.

O nível de esforço exigido na instrução dos comandos estava a ser objeto de estudo, pela Universidade do Porto, no curso que ontem foi temporariamente suspenso após um militar ter morrido e outros terem sido internados por exaustão, disse fonte oficial ao DN.

O porta-voz do Exército, tenente-coronel Vicente Pereira, precisou que o estudo visa estudar e definir "marcadores de esforço" dos instruendos, dada "a dificuldade" em perceber o grau de exaustão de militares que - pela mística associada às forças especiais, pela vontade em pertencer aos Comandos - dificilmente assumem estar em dificuldades ou aceitam desistir.

Na origem do protocolo esteve uma situação semelhante ocorrida em 2015, quando oito militares do curso de comandos foram hospitalizados também por exaustão física - dois dos quais também com problemas hepáticos como o que foi internado esta semana no Hospital Curry Cabral.

Note-se que a "exaustão física" tem sido a causa da morte ou internamento de instruendos desses cursos ao longo dos anos, o que tem suscitado a questão de perceber o porquê dessas repetições quando os inquéritos - de que são exemplo os realizados a acidentes aéreos - também servem para as evitar.

"Temos de continuar a dar cursos que são duros e exigentes, mas não queremos perder soldados", enfatizou o porta-voz, citando o estudo agora iniciado pelos investigadores da Universidade do Porto como exemplo de que o ramo tem vindo a procurar soluções para uma situação recorrente - que, nos bastidores e ao longo do tempo, se diz ter sido uma das causas que levaram o Exército a extinguir os Comandos em 1993.

Sendo certo que "pode acontecer" um militar morrer em cursos exigentes como são os das forças especiais e de operações especiais, "não se admite" que tal aconteça várias vezes pela mesma causa ao longo dos anos, afirmou ao DN um oficial superior das forças especiais na condição de não ser citado.

"O que é que é preciso mudar para não voltar a acontecer?", quando se sabe que "não é a primeira vez nem a segunda" que um militar morre ou é internado por causa do excesso de calor - quando tal não ocorre nos rangers de Lamego, nos paraquedistas ou nos fuzileiros, assinalou a mesma fonte.

Note-se, por comparação, que num desporto de grande exigência física, como é o futebol e onde os atletas são objeto de exames médicos prévios, têm sido registados casos de morte súbita por falhas cardíacas ao longo do tempo e em vários países.

A este propósito, Vicente Pereira garantiu ao DN que o curso que tinha começado sábado na Serra da Carregueira e prosseguia no Campo de Tiro de Alcochete - onde domingo viria a falecer o furriel Hugo Abreu, de 20 anos, por "excesso de calor" - já tinha sido objeto de correções motivadas pela situação que levou ao referido internamento de oito militares em 2015.

Exemplo disso foi "a duplicação" da quantidade de água dada diariamente aos militares do curso, sendo que as elevadas temperaturas desta semana também já tinham levado a reduzir "em uma hora" o tempo de duração diária da instrução.

Presidente no Curry Cabral

Marcelo irá hoje ao Hospital Curry Cabral acompanhado pelo ministro da Defesa e a visita abrange também os dois hospitais onde estão internados os outros militares (das Forças Armadas e Cruz Vermelha).

Negada categoricamente por fonte oficial da Presidência da República ao DN - e também pelo Exército - foi a informação de que Marcelo Rebelo de Sousa tinha intervindo junto dos responsáveis do ramo para suspenderem os cursos de comandos.

Esta decisão, de suspender temporariamente o curso iniciado sábado e os próximos até à conclusão dos inquéritos em curso "foi tomada quarta-feira" e formalizada ontem pelo Exército, assegurou o tenente-coronel Vicente Pereira.

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