Escolas públicas já notam aumento na procura pelos pais

Presidente de associação de diretores diz que famílias estão "fartas" da guerra dos contratos de associação e querem ir de férias com a situação dos filhos resolvida

Os pais dos alunos que até agora frequentaram colégios com contrato de associação, entretanto alvo de cortes, já estão ativamente a procurar alternativas nas escolas públicas. Quem o diz é Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP). Já a associação que representa o setor privado afirma que "a maioria" dos colégios que perderam os apoios para turmas de 5.º, 7.º e 10.º anos de escolaridade estão "a receber matrículas" para esses anos de início de ciclo em níveis "superiores" aos que o Ministério aprovou.

Filinto Lima, diretor do agrupamento de escolas doutor Costa Matos, em Gaia, explicou ao DN que na área do agrupamento que dirige não existem muitos conflitos entre a rede pública e a privada com contrato de associação. Mas acrescentou que as informações que tem recebido dos locais onde ela existe apontam para a conclusão de que os pais estão a assumir a mudança para a rede pública.

Dando o exemplo de Famalicão, que considerou "poder refletir um pouco o que se passa no país", o presidente da ANDAEP disse que a convicção dos diretores das escolas públicas é que "os pais vão inscrever os alunos" naqueles estabelecimentos.

"Pais estão fartos desta guerra"

"Uma colega disse-me que chamou os pais dos [alunos dos ]privados à escola dela e os pais compareceram. Explicou-lhes o que estaria para acontecer, mostrou-lhes as instalações e eles gostaram do que viram", contou.

"O comentário que ouviu foi que os pais não queriam mais esta instabilidade, que queriam ir de férias com isto resolvido e que estão fartos desta guerra".

Noutro agrupamento da mesma cidade, acrescentou, "outro colega reparou que os pais, a partir do primeiro momento em que se falava de estas turmas não serem subsidiadas, começaram a ir à escola, à secretaria, pedir informações".

Em ambas as situações, admitiu, "só no final do período de matrículas se saberá, preto no branco", se o corte dos apoios estatais aos contratos de associação está a beneficiar estas escolas. Na maioria dos casos, nomeadamente no que respeita às turmas do 5.º e 7.º ano, essa informação poderá chegar "entre esta semana e a próxima". Já em relação aos alunos que passam no 9.º ano para o 10. ano, "só em julho, depois dos exames nacionais".

A situação não será a mesma em todos os concelhos onde a oferta dos contratos foi reduzida. Santa Maria da Feira (ver caixa) é um exemplo de uma área onde a medida do Ministério foi mal recebida. E a perspetiva dos colégios também é bastante diferente da dos diretores das escolas públicas.

Em declarações ao DN, Rodrigo Queirós e Melo, diretor executivo da Associação de Estabelecimentos do Ensino Particular e Cooperativo (AEEP) garantiu ao DN não existir "a mínima dúvida" de que os pais continuam a apostar nos colégios e a acreditar na posição destes, que defendem que os contratos assinados no ano passado são válidos por três anos letivos e incluem os inícios de ciclo.

"Diria que a grande maioria dos colégios está a receber matrículas para os inícios de ciclo. Estamos a receber alunos para um número superior [ao que foi aprovado pelo Ministério]", afirmou. E isso acontece tanto nas escolas que foram abrangidas no concurso extraordinário [aberto pelo Ministério] como pelas que ficaram de fora".

De resto, acrescentou, a convicção dos colégios é que têm mesmo de abrir todas as turmas a que consideram ter direito. Até para se defenderem: "Não estamos disponíveis para que, daqui a um ou dois meses, venham dizer que os colégios não estavam a cumprir os contratos porque não estavam a matricular alunos".

Trocas de acusações

Rodrigo Queirós e Melo admitiu que "há colégios que estão com alguma dificuldade em fazer todas as turmas", atribuindo esse facto a pressões das escolas públicas: "Há uma guerra aberta das escolas, a criarem todo o tipo de dificuldades administrativas aos pais, para não irem para os colégios", acusou.

Já Filinto Lima defendeu ao DN que são os colégios que estão "a confundir os pais, que deviam acarinhar e pelo menos aconselhar corretamente", admitindo que estes poderão vir a ter dificuldades nas matrículas dos filhos.

Exclusivos