Escola "oprime" talento de alunos

O DN lançou a iniciativa Professor do Ano, que visa reconhecer os melhores docentes, com a ajuda das comunidades educativas. Hoje, o 'rapper' Valete lembra o seu percurso de aluno e explica por que razão é que a escola devia ser algo completamente diferente

Que memórias guarda da escola?

Muito poucas. O que me lembro da escola primária é que de vez em quando não fazia os trabalhos de casa e levava umas reguadas. Lembro-me melhor do infantário. Foi lá que aprendi a ler, a escrever, a fazer contas.

Já chegou à primária a saber ler e escrever. Foi um bom aluno?

Fui muito bom aluno até ao 6.º ano, muito condicionado pela educação dos meus pais. Tinha de ter boas notas porque eles andavam sempre em cima de mim. A partir do 7.º, dos 13 anos, há mais liberdade e rebeldia. Foi por essa altura que comecei a definir e a apurar os meus gostos. A escola não se preocupava com os meus gostos.

E deixou de se preocupar com a escola?

A ideia que tenho da escola é que é algo completamente obsoleto e ineficaz. Seis meses depois de ter acabado o 12.º ano já não me lembrava de nada. A única coisa que me marcou foi o professor de Filosofia do 12.º ano, porque era um dissidente que ignorava o programa e falava connosco sobre a atualidade. A escola tem a deficiência grave de ignorar completamente as inclinações e aptidões das crianças. Se há um miúdo que passa a vida a desenhar nas aulas é óbvio que deve ser encaminhado para as artes ou arquitetura. Mas a escola está a borrifar-se para os talentos dos alunos.

E os professores?

Acho que são vítimas. O sistema já existe e eles podem fazer muito pouco além de dar o que o programa estipula. Por isso digo que encontrei naquele professor de Filosofia um dissidente. Até ao 12.º aprendi mais fora da escola, com documentários, com mentores. A escola oprime de forma quase sistemática a curiosidade dos alunos.

E o ensino artístico, o ensino de música, que era obviamente uma área para a qual estava vocacionado?

Achei miserável. Ensinavam-me a tocar flauta, mesmo quando detestava tocar flauta. Não havia outra opção.

Como seria a escola ideal?

Obviamente estas coisas não se fazem do dia para a noite. Mas precisamos de mudar o tipo de jovens que andamos a formar, que não dominam nada, saem completamente impreparados. É preciso perceber quais são as aptidões e interesses e direcioná-los melhor, desde muito cedo. Obviamente um aluno que gosta de aviões não vai ter oito horas de aeronáutica... mas há muitos caminhos para chegar à História e à Matemática.

Os professores são devidamente reconhecidos na sociedade?

Os professores deviam ser muito bem remunerados. É a profissão mais importante, formam seres humanos. Mas com a banalização da escola e o aumento do número de alunos e de professores compreendo que pode ser difícil. Sobretudo porque há excedentes e numa economia de mercado isso faz que a remuneração baixe. Têm de ser eles a fazer a escola e não dois ou três pseudossábios no ministério a fazer a escola. As turmas também deviam ser mais pequenas, 30 alunos é uma catástrofe.

Frequentou sempre a escola pública, até ao 12.º ano, mas é muito crítico.Quando for pai vai optar pela escola pública?

Provavelmente. A escola privada é demasiado elitista. Acredito que há escolas privadas muito boas em Portugal mas não gosto da ideia de ter o meu filho distante da plebe. Quero que ele cresça misturado com a classe baixa. O que vou fazer depois é criar uma escola paralela em casa.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG