Maria João Luís: "Ainda bem que não estamos em Hollywood. Aqui há muitas atrizes a ganhar mais"

É o que se chama uma atriz "séria", daquelas que trabalham com os grandes encenadores e que, em Shakespeare ou numa novela, transporta na voz e no olhar uma densidade trágica que se diria instantânea. Como chegou aqui, sem ter estudado teatro? Com muita fricalhada, diz ela

Há muitas coisas nela que para quem a conhece desde os 13 ou os 14 anos parecem não ter mudado: a voz, que foi sempre assim, bonita e bem colocada - e que lhe valeu um providencial e lucrativo contrato com a Telecel (para quem não se lembra, era assim que se chamava antes a rede 91, hoje Vodafone) -, as gargalhadas sonoras, sincopadas, e uma atitude geral de descontração, cool, bem-disposta.

Precisamente, esta entrevista trata-se por tu porque a entrevistadora e a entrevistada conhecem-se vai para 40 anos, desde o liceu de Vila Franca que ambas frequentámos e os cafés de Vila Franca onde ambas passávamos tardes a conversar, escrever, desenhar, esperar (espera-se muito nas terras pequenas). Mesmo se, como fica aqui claro, ela não era muito de esperar, era, é, mais de fazer. E nestes 40 anos ela fez muita coisa, fez-se muita coisa. Atriz, encenadora, mãe, fundadora de uma companhia de teatro - o Teatro da Terra, em Ponte de Sor - e uma das caras mais constantes nos elencos das novelas, continua a fazer teatro-teatro, daquele a sério, e se ela é séria quando está a sério.

Tinha muita coisa para lhe perguntar e talvez a mais importante seja se ela nunca teve medo. Medo do palco, da exposição, de ser vista assim tão claramente, de errar sob tantos olhares, falhar, perder-se. Não tem, diz ela. Talvez o motivo esteja nisto que disse a Isabel Lucas numa entrevista para a Up: "Tu nasces, vives e morres. Mas o que é um facto é que é só isto. Enquanto aqui estamos preenchemos este espaço, se possível criando."

Conhecemo-nos miúdas, em Vila Franca de Xira. E depois perdemo-nos. Para onde foste?

Fui para a António Arroio com 14, 15 anos, para um curso que me encaminhava no sentido das artes visuais e eventualmente da arquitetura. Queria pintar, queria fazer escultura... fazer coisas com as mãos. E sobretudo sair daquele tipo de escola.

E não daquele sítio, daquele meio pequeno?

O sítio... Repara, eu nunca vivi muito dentro da vila, nem em Alhandra nem em Vila Franca. Nunca vivi mesmo no centro. Em Alhandra vivia na estrada de A-dos-Loucos, que é um sítio meio afastado. E eu gostava de viver ali porque gostava muito da minha família, que era muito unida. Tinha ali muitos primos.

Essa vontade que tinhas de seguir artes visuais vinha-te de onde?

Penso que sobretudo de uma espécie de fuga de um tipo de ensino a que não me ajustava, não gostava daquilo. E quando me falaram da António Arroio, das possibilidades daquela escola...

Quem?

Uma amiga com quem me dei sempre muito e com quem hoje continuo a dar-me. E foi uma coisa quase ao mesmo tempo, descobrimos a escola e pensámos que seria a nossa escola, o sítio para onde devíamos ir, e curiosamente lembro-me de que nos encontrámos, a meio caminho entre a minha casa e a dela - eu ia dizer-lhe que ia para a António Arroio e ela vinha dizer-me que ia para a António Arroio.

E como se dá a transição das artes visuais para as do palco?

É muito engraçado. Porque essa minha amiga, a Gabriela Vieira, tem um talento incrível para pintar e desenhar e essas coisas todas. E eu ao fim de um ano percebi que qualquer coisa que eu fizesse não tinha sentido nenhum, nem eu lhe dava sentido nenhum.

Por comparação?

Sim. Ela fazia um risco e aquilo era... Do caraças. E eu fazia um risco e aquilo era um risco. Depois a escola tinha uma data de gente interessantíssima, lindíssima. Conheci ali carradas de gente - o Pedro Vasconcelos, o António José de Almeida, a Fernanda Fragateiro, o André Louro de Almeida, que era o vocalista dos Croix Sainte... Sei lá, carradas de gente. E de repente aquela gente toda era extremamente motivadora e inspiradora. E a minha inspiração ia muito mais para o campo performativo do que para a coisa da pintura. E era convidada muitas vezes para fazer pequeninas performances nas exposições que os fulanos faziam. Muitas vezes havia exposições na escola e eu era convidada para fazer uma performance.

E convidavam-te porquê?

Porque eu dizia poesia, desde sempre disse, sabes? Desde sempre tive essa coisa. Na minha casa, na minha família, cantava-se o fado, dizia-se coisas, estás a ver?

Que faziam os teus pais?

O meu pai era operário, chefe lá dos operários, numa grande fábrica de Lisboa. E a minha mãe era doméstica, nunca teve uma profissão. Era uma mulher até algo deprimida. E tenho um irmão mais velho, com mais 11 anos, que era um tipo muito atento e me ensinava imensa coisa, como os meus primos. Tive acesso a boa música desde cedo, à música que eles ouviam - os Procol Harum, os King Crimsom, os Queen, os Santana. E o que acontece a seguir é que desisti da escola.

Desististe da escola aos 15?

Desisti, porque aquilo já não era nada para mim. Eu já estava a fazer imensas coisas, fazia imensa performance na rua, no Chiado...

E os teus pais, como reagiram a isso?

Os meus pais muito preocupados. Ainda vivia lá em casa nessa altura mas a seguir apaixonei-me perdidamente por uma pessoa bastante mais velha do que eu e com quem fui viver. Com quem tive uma grande paixão e por quem ainda hoje tenho uma admiração enorme. Vivi com ele seis anos.

Estava ligado ao meio artístico?

Não, estava ligado sobretudo à política. Era muito ativo politicamente, numa esquerda muito ativa. Comecei a fazer muito trabalho de voluntariado - não se pode dizer que fosse uma voluntária ferrenha mas ia lá volta e meia e dizia uns poemas nos concertos.

E vivias de quê?

Vivia com ele, trabalhava com ele, também. E entretanto havia ali um lado meu muito freak, de uma liberdade muito grande, que nunca mais vou recuperar. A liberdade de poder estar aqui e amanhã estar noutro sítio. Nós conforme vamos envelhecendo vamos deixando de ter essa possibilidade.

Ou não.

Ou não. Mas geralmente vais acumulando compromissos, e os filhos são o maior dos compromissos. Muito bom, mas que te obriga a pensar duas vezes... Não podes largar tudo. E eu larguei, e durante muito tempo. Largava durante temporadas. Ou seja, eu estava aqui hoje e amanhã podia estar em Hamburgo. Podia ficar um ano em Hamburgo. Aliás, fiquei um ano em Hamburgo.

A fazer o quê?

Fricalhar [ri].

Foste sozinha?

Fui.

Já não estavas com aquela pessoa?

Estava. Mas fui, era possível. Havia essa liberdade, essa possibilidade. Não ficávamos agarrados a nada.

Foste para a cena punk de Hamburgo, portanto.

Fui.

Passaste do freak para o punk sem passar pela casa de partida.

Sim, sim. E sem receber. Porque ia a zero de dinheiro. Andava sempre a zero de dinheiro. Com boleias daqui e dali... Foi um período interessantíssimo, giríssimo. Fui viver numa comunidade punk que morava numa loja ocupada. Fui para lá com alguns amigos alemães que me deram boleia para Hamburgo e com quem curiosamente me cruzei em Vila Franca. Eles disseram: "Queres vir?" E eu: "Boa."

"Vou só ali buscar a mochila." Que idade tinhas?

Uns 17, 18. E nesta comunidade eles faziam muita coisa que tinha a ver com artes performativas. A loja que ocupávamos tinha uma montra e todos os dias havia instalações na montra. As pessoas passavam na rua e iam ver. Mas não estive sempre em Hamburgo. Depois fui para o campo, para um lugar junto ao mar do Norte, a ponta mais norte da Alemanha. Frio como o caraças mas lindo.

E fazias o quê?

Fricalhava. Muito [ri].

E quando voltas, como é?

Começo a dizer poesia em bares para ganhar dinheiro e num dos concertos de solidariedade que se organizam nessa altura - solidariedade com Timor, por exemplo - nos quais colaboravam muitas pessoas ligadas ao teatro e foi assim que conheci a Maria do Céu Guerra, o Vitorino, e tal, e eles começaram a achar graça porque eu dizia lá uns poemas, e dizia aquilo bem...

Que poemas escolhias?

Os surrealistas. Adorava o Cesariny. Olha, vou fazer de Cesariny agora no próximo espetáculo do Teatro do Bairro. Uau, não é? E já gostava muito, nessa altura, dessa gente, do Luiz Pacheco, do Breton, do Sartre.

Toda essa cena era muito esquerda, e se bem me lembro eras muito de esquerda. Ainda és?

Sou e estou cada vez mais. Cada vez mais. Porque, não sei, acho que definitivamente há aqui um avanço de uma guerra provocada por políticas completamente erradas, provocadas ao longo de tempo e tempo e tempo, que te obrigam a tomar uma posição. Estou a falar da Síria, do Daesh, disto tudo. E és obrigada a tomar uma posição: é forçoso que digas "isto tem de parar".

E como é que se para?

Como é que se para? Pois. Mas daquilo é que eu não sou. De quem diz: "Vamos ostracizar." De quem diz: "Vamos parar esta gente" - isso é que não sou.

Em relação a esta última polémica sobre a proibição do burkini em algumas praias francesas como te situas?

Acho que qualquer forma de controlo é errada. Gosto de pensar que é possível aceitar. Em vez de ostracizar, que é sempre a pior maneira de fazer as coisas. Acho que está provado que é. Proibir alguém de fazer uma coisa é o primeiro caminho para a desgraça.

Historicamente esse raciocínio tem nuances. Mas voltemos ao teu percurso. Estreias-te n"A Barraca em 1985. Mas não é essa a primeira vez que sobes a um palco.

Não, já tinha feito teatro amador em Vila Franca, e cheguei a tocar bateria com os Piso Liso, que era uma banda de lá.

E prestavas?

Nada [ri]. Só sabia ritmo, um bocadinho, e pronto. Mas a estreia profissional foi n"A Barraca, e foi muito bom. Foi maravilhoso. Eles acharam-me imensa graça, porque eu não tinha nada a ideia de ser atriz. Fiz aquilo como fazia outras coisas.

Portanto não fizeste aquilo investida da responsabilidade de pensar: é isto.

Não, nada, de todo. Continuava completamente com a cabeça livre, se me quisesse ir embora ia. E já havia ali naquela altura muita gente a querer fazer carreira, que vinha do Conservatório. E de certa maneira penso que acharam graça a isso.

Nunca tiveste aquele momento de subir para o palco e ter medo?

Nunca. O prazer que me dava era tanto que o que eu tinha era uma grande vontade de começar. Sempre.

E esse prazer era o quê?

É como voar. Tem a ver com parares o tempo, no fundo.

Disseste isso numa entrevista à Up: chamaste-lhe "o espaço da não morte".

É como se fosses deus. És tu que controlas, és tu que dominas, és tu que jogas. Com tudo.

Também disseste que é "uma coisa quase espírita". Como se fosses possuída por outra pessoa, ou possuísses?

Ser possuída ou possuir, sim. Mas sempre no controlo. Como se fizesses visitas a variadíssimos sítios. Num ritmo normal não tens essa perceção. Se calhar até as fazes, mas não tens essa perceção. E ali, como o tempo para, tu jogas com a aproximação. É como se fizesses um ralenti na tua relação com os outros. Como se visses tudo ao retardador. Tudo devagar. Podes jogar com aquela emoção, trazê-la para onde quiseres, desdobrá-la, fazer o público senti-la de uma e outra e outra maneira. Tens esse tempo.

Nunca te aconteceu duvidar, enquanto estás ali exposta perante uma plateia que te julga? Nunca duvidaste?

Sim. E então? A questão é não criar uma reação ao erro. Porque o erro existe, o erro está lá. O teatro é a arte do erro, da falha. Podes ter a certeza absoluta de que quando vais para cima de um palco vais falhar. Redondamente. Não vais lá chegar onde tu queres. Às vezes lá chegas uma ou outra vez. Mas o teatro é a arte de jogar com o erro. Poder usá-lo e seguir em frente. O medo é redutor, sempre há de ser. Mas percebi desde cedo que é preciso anulá-lo. E o ator que tem medo falha, porque não vai gozar, não se vai divertir, não vai criar.

Eu não sou o suprassumo da barbatana. Esta coisa que eu faço é uma coisa para mim

Quando pensas em ti pensas "sou atriz"?

Não. Nem sei o que penso. Penso "Sou a Maria João, pá..." [ri]. Sou eu.

E ser eu já é um trabalhão.

Aqui há dias estava a refletir sobre uma coisa. Tu podes ser 30 coisas. Podes ser uma pessoa extremamente inteligente, que tem imenso sucesso, capacidades extraordinárias, mas vais falhar tanto como os outros. Vais errar na mesma medida.

E provavelmente sentir-te de vez em quando um falhanço.

Sim, tal qual como os outros. Há uma unidade humana aqui em que toda a gente fica no mesmo. No mesmo patamar. E eu sou efetivamente tão pequenino, tão bebé.

Essa não é uma das grandes revelações desta idade? Que aquilo que julgavas que acontecia com "os adultos", uma série de certezas e seguranças sobre o lugar que se ocupa no mundo e para onde se vai, é tudo mentira.

É. É tudo mentira. E eu não sou o suprassumo da barbatana. Esta coisa que eu faço é uma coisa para mim, que tem uma dimensão, mas há muita gente que não gosta de teatro, que abomina, e também não vê sequer telenovelas, só gosta de cinema. Acima de tudo, é não procurarmos justificações, no sentido da grandiosidade daquilo que fazemos, para continuarmos. Não preciso disso.

E o que é que justifica continuar?

Eu continuo porque é como respirar. É como andar. Eu represento, sempre. Neste momento, aqui, para comunicar contigo estou a representar. E a viver uma personagem. Porque é assim que somos.

O teu último filme, Jogo de Damas, de Patrícia Sequeira, foi feito com o concurso das atrizes, com a ideia de pôr muito de vocês nas personagens. Como foi essa experiência?

Participámos na construção, tivemos muitas discussões, muitas conversas sobre o que seria, o que se quereria fazer, partindo da nossa própria personalidade. Foi das coisas que mais me motivaram para fazer aquele filme, achei muito interessante, esta coisa de cortar com o papel de artista, ator, e partirmos de nós mesmas, do que somos e do que é a relação umas com as outras para fazer a criação de um objeto artístico.

A tua personagem no entanto é uma mulher que vive só, que esteve a tomar conta da mãe. Nisso não tem a ver contigo, que vives há 25 anos com o mesmo homem, com quem tens três filhos.

Nisso não, mas no resto sim. O resto que é a desconstrução, que eu aprendi na fricalhada: o não dar importância. O não dar valor. Há uma amiga que de repente se descobre que é homossexual - e então? Que tem? O Morgan Freeman dizia há dias uma frase engraçada. Perguntaram-lhe como é que ele acha que será o primeiro passo para acabar com o racismo. E ele disse: você parar de me fazer essa pergunta. Nunca mais me perguntar isso.

Que achas que quer dizer?

Que quanto mais levantarmos a lebre e não deixarmos a sociedade evoluir naturalmente, numa coisa que é feita nas escolas, que é dita...

Mas isso não é o contrário da desconstrução? Não é preciso refletir sobre as coisas, falar sobre elas? Por exemplo em Portugal fala-se pouquíssimo de racismo.

Mas há imenso. Imenso. Imenso.

Nem se fala nem se veem negros em quase lado nenhum. Agora vão aparecendo nas novelas. A propósito, como é depender tanto das novelas para viver?

É perverso. Mas é efetivamente o lugar onde estamos. E já começou há muito e não há maneira de acabar. E ainda bem que existem as novelas, porque permitem que as pessoas tenham alguma qualidade de vida, possam ter famílias, possam ter uma vida.

E fazer outras que não dão dinheiro.

Eu gosto de fazer telenovelas, atenção. Gosto muito daquele ritmo, daquela malta, do ambiente que se cria. E gosto do sítio onde estou, na SP Televisão, com a Patrícia [Sequeira], com aquela malta que acompanho há anos... Aliás no outro dia sucedeu uma coisa muito estúpida. Estava sentada e vejo uma realizadora a aparecer e olhei para ela e disse: "Eu realmente estou a ficar velha. Porque eu vi-te a começar como anotadora. E eu já vi este filme com a Patrícia Sequeira. Também a vi no dia em que ela começou a realizar. E já a tinha apanhado a anotar. A gente vai começando a ver... E caíram-me as lágrimas a quatro. Fogo. Isto é que é realmente os sinais. Sabes aquelas coisas? Podes falar-me da idade e não me comovo. Mas de repente ali...

Há algum tempo em Hollywood que há uma guerra por causa dos salários das atrizes, muito mais baixos do que os dos atores, e por causa dos bons papéis que a partir de uma certa altura da vida delas começam a rarear. Meryl Streep fala disso, por exemplo. Sentes isso cá?

Ainda bem que não estamos em Hollywood, é o que tenho para te dizer. Os salários... Há muitas atrizes a ganharem muito mais do que os homens. Aliás, acho que deve ser ao contrário: aqui nós ganhamos mais do que eles. Mas há muita malta boa nova. Homens maravilhosos...

Internacionalmente houve uma evolução que faz muita gente dizer que o bom cinema hoje está nas séries. Na produção nacional ainda não se sente isso, pois não?

Começa-se a sentir. Está a começar a haver umas séries muito engraçadas. A RTP vai começar a exibir umas em relação às quais tenho muita curiosidade. Uma que se chama Dentro, com a Carla Galvão, que é uma atriz que eu amo, que acho extraordinária. Acho que estão agora a apostar em séries... Portanto estou com muita expectativa. Mas, voltando às telenovelas, é muito bom que haja mas se eu quiser fazer outras coisas é muito chato porque isso obriga--nos a trabalhar desalmadamente, horas e horas e horas. E eu tenho uma grande energia, consigo fazer isso com alguma facilidade. Mas há malta que não a tem. Agora estou a fazer uma novela, vou fazer o tal espetáculo sobre Cesariny do Teatro do Bairro, vou acompanhar uma encenação em Ponte de Sor, no Teatro da Terra, com os refugiados. É acerca dos refugiados, uma coisa que se vai chamar A Ilha, um projeto para o qual estamos em conversas com jovens sírios, e pessoas que já cá estiveram e estão lá e nos estão a dar testemunhos interessantes.

Vais fazer um texto a partir dessa pesquisa?

É uma coletânea de textos, um deles de Beckett. E são todos sobre cegos. Todo o texto são pessoas cegas. Os atores são cegos. E estão numa ilha onde chovem coletes salva-vidas. E quem faz esses coletes cair é uma criança que pedala numa bicicleta, numa engrenagem, e que deixa cair aqueles coletes. Completamente alheada, ela não sabe o que faz e que está a provocar a guerra. E aquelas coisas vão caindo enquanto os cegos procuram o caminho e não o encontram.

Muito metafórico.

Mas é mesmo para ser, francamente metafórico. É mesmo para que seja muito clara, a mensagem, para que não haja dúvidas. E para o ano vou trabalhar os neorrealistas todos em Alhandra, em abril--maio-junho, com o Museu do Neorrealismo. Os Esteiros, de Soeiro Pereira Gomes, e o Finisterra do Carlos Oliveira.

Não paras, basicamente. E no meio disso tudo és jardineira. Que é uma coisa que dizes muitas vezes que podia ser a tua ocupação de tempo inteiro. O que é que jardinas?

Tenho umas flores, umas roseiras. Umas árvores de fruto, umas sebes.

Costumas falar da tua ligação com a terra, da incapacidade de viver na cidade. Porquê?

A terra sempre me chamou muito. Sempre tive essa coisa do chão, da terra. Tinha primas que não eram nada assim. Eu era talvez a única que gostava de mexer, de ir com as minhas tias para as fazendas, de ver os bichos a nascer. Aliás ando sempre acompanhada de bichos desde sempre. Cães, gatos, galinhas, patos, tudo o que se pode ter. E quando não tenho aparecem-me à porta. Agora tenho uma gata pequenina que me apareceu à janela. Está lá dentro de casa toda contente. Até periquitos me apareceram. Ia andar, a fazer uma caminhada, e tinha seis periquitos numa vala. Estava tanto calor que não eram capazes de se mexer. Alguém os mandou para ali, deitaram-nos fora. E lá foram os periquitos para minha casa.

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