"Todos os países gostariam de ter um secretário-geral das Nações Unidas"

Para o antigo chefe do Estado é tempo de esquecer as manobras de bastidores e celebrar a eleição que, espera, seja por aclamação, de António Guterres no cargo de secretário-geral da ONU

Ficou surpreendido com este resultado inequívoco de Guterres?

Não, fui daqueles que sempre acreditaram até ao fim que, tendo-se iniciado uma candidatura aberta, sujeita a uma forma de participação generalizada e visível perante a opinião pública, e tendo António Guterres ganho todas as votações, essa realidade poderia ter uma influência decisiva, como julgo que acabou por vir a ter. Portanto, até ao fim, sempre me referi com otimismo, mesmo que preocupado com as manobras de última hora.

Poderiam pôr tudo em causa?

Nunca se sabe como é que essas manobras terminam, mas a forma como Guterres se apresentou, deu às provas e brilhou é uma vitória. Obviamente, também para a nossa diplomacia, porque o processo requereu um enorme esforço diplomático. Parabéns ao ministro dos Negócios Estrangeiros, a todos os diplomatas e ao embaixador junto da missão portuguesa nas Nações Unidas. E para Portugal, claro.

Qual é o significado para o país?

Representa a consagração das nossas grandes qualidades a nível internacional. É preciso não esquecer que já estivemos várias vezes no Conselho de Segurança e temos pessoas em altos cargos das Nações Unidas, tal como demonstrámos ao longo de anos a nossa aceitação e a capacidade de fazer compromissos e pontes, falar com todos e não sermos tendenciosos. Consequentemente, é a consagração das qualidades inatas que Portugal tem e que deve aproveitar.

Como é o caso deste cargo?

O cargo de secretário-geral das Nações Unidas é o mais importante nas organizações internacionais. É com certeza um momento de felicidade para Guterres, e justo.

Também é importante para a nossa posição na União Europeia?

É sempre importante porque as pessoas não imaginam o valor destas situações. É melhor ser A do que B, e quando A é um português com a capacidade revelada como a de Guterres, isso torna-se muito importante para a nossa posição. Veremos o que resultará.

Pode-se dizer que esta eleição foi uma vitória da democracia, tendo em conta as lutas de bastidores de última hora?

Isso dos bastidores verifica-se sempre. Os proponentes e os que trabalharam nessa candidatura [de Kristalina Georgieva] é que não devem estar particularmente felizes. Não sei quem foi, nem o quero dizer, pois todos estamos a pensar em vários nomes e não vale a pena acirrar a situação agora. É antes o momento de pugnar para que haja força, nomeadamente entre os membros do Conselho de Segurança para se chegar aos acordos mínimos e indispensáveis, de modo a atacar a sério alguns problemas gravíssimos com que a sociedade internacional se defronta, e que não são fáceis. Os cinco países com poder de veto no Conselho são muitas vezes bloqueadores e Guterres terá de se defrontar com esses cinco, além dos 15 no total.

Aponta alguma medida urgente?

Como dizia ontem Kofi Annan, é preciso uma reforma do Conselho de Segurança, de que ninguém quer abrir a mão, para ser mais representativo da sociedade internacional tal como ela é. De qualquer maneira, ainda é cedo para se falar disso, este é um momento de nos congratularmos com um português no cargo e por ser uma candidatura de unidade nacional - se assim se pode dizer. O que é raro acontecer no nosso país, tornando mais importante que Guterres tenha sentido esse apoio e que tenhamos todos trabalhado da forma possível para que acontecesse.

Da unanimidade entre China, EUA, França, Reino Unido e Rússia resultará a cobrança de alguma fidelidade de Guterres ou agilizará antes as reformas necessárias?

Tudo depende dos compromissos, mas o importante é o sangue novo que se injeta e a atitude reformista. Dificuldades existem, mas é importante que tenham convergido na escolha, aparentemente unânime, como referiu o embaixador russo que preside ao Conselho de Segurança, bem como esperar-se um voto por aclamação. O que é um sinal de triunfo que deve deixar Guterres muito feliz, como estamos todos em Portugal.

A questão dos refugiados será primordial para o novo cargo?

Tem uma experiência única de dez anos, que pode ter contado numa crise que se agrava a cada minuto.

Os portugueses nem sempre apoiam estes lugares internacionais. Vão estar com Guterres?

É ele próprio o primeiro obreiro do seu triunfo, o que dá garantias de se empenhar desapaixonadamente e com a capacidade de compromisso que lhe é conhecida. O que é muito positivo e devemos estar orgulhosos daquilo que conseguiu. Uma eleição destas não acontece todos os dias e todos os países gostariam de ter um secretário-geral das Nações Unidas, disso não tenho dúvida. A política externa nem sempre é vista com atenção por parte de muitos portugueses, mas a verdade é que num pequeno país com as dificuldades que se lhe conhecem é muito importante o facto de impor uma personalidade com a capacidade de António Guterres na sociedade internacional.

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