Ribeiro da Silva: "Produzir para vender a Paris é bom negócio"

Presidente da Endesa Portugal, Nuno Ribeiro da Silva desvaloriza o incidente que levou ao encerramento de um central nuclear no norte de França "podia ter acontecido em qualquer parte"

Presidente do Conselho Estratégico Nacional do Ambiente da Confederação Empresarial de Portugal e membro de várias instituições ligadas aos temas de Energia e Ambiente, além de liderar o braço nacional da Endesa, Nuno Ribeiro da Silva desvaloriza o incidente que levou ao encerramento de um central nuclear no norte de França "podia ter acontecido em qualquer parte". Mas reconhece que o nuclear é um assunto sensível, que "não tranquiliza" as populações e merece preocupação e cuidados acrescidos.

Há sempre grande preocupação manifestada com os riscos da energia nuclear. É normal acontecerem acidentes como o que houve ontem em Flamanville?

O caso de ontem - não tendo eu estado lá e por isso só podendo falar do que tem sido reportado - terá resultado de um problema elétrico, um curto-circuito sem ligação ao circuito primário ou ao processo de decisão da central. Sem querer diminuir a relevância dos factos, poderia ter acontecido ali como numa fábrica ou até num centro comercial. Claro que, por ter acontecido numa instalação com as especificidades que tem uma central nuclear é visto com - e tem - maior relevo.

No final do ano passado, foram fechadas mais de 20 centrais por se considerar que havia riscos...

É um caso diferente, o que levou a esses encerramentos é uma situação que não é mesmo nada normal. A autoridade para a segurança nuclear francesa detetou que havia disfunções nos relatórios oficiais quanto às condições de qualidade dos aços que estão na zona do sistema primário, ou seja, em zona radiada. A agência considerou até ter havido distorção voluntária dos testes de certificação de peças importantes do núcleo do reator, no que respeita ao teor de carbono no aço. Ou seja, as peças do core não estavam dentro das certificações de segurança definidas - o que não é nada aconselhável. E isso ainda levantará problemas.

O acidente de ontem poderá dar mais argumentos a Portugal no caso de Almaraz?

Objetivamente, não há uma relação, mas é óbvio que um incidente num reator serve sempre de catalisador para quem está empenhado na contestação ao nuclear. E quer pela sensibilidade da opinião pública em relação ao nuclear quer pela efetiva sensibilidade inerente a uma instalação deste tipo, [o acidente de ontem] não tranquiliza as populações.

O encerramento das centrais no final do ano acabou por ser vantajoso para Portugal.

Sim, no final do último ano - e é uma situação que se mantém -, houve um aumento do fluxo de exportações do MIBEL (Mercado Ibérico de Eletricidade), fruto da paragem de 22 dos 58 reatores franceses, em outubro. França foi obrigada a recorrerá importação de energia dos países à sua volta, nomeadamente Portugal e Espanha, para suprir as suas necessidades energéticas, sobretudo nestes meses mais frios, em que o consumo cresce.

O que também afetou os preços.

Esta foi uma das razões de a pool no mercado diário de eletricidade ter atingido valores muito altos em dezembro e em janeiro, e estar ainda bastante inflacionada, por vezes acima dos 100 euros por megawatt/hora. Há outros motivos a pressionar os preços, como o frio e a consequente procura mais alta na Península e o facto de ter havido pouca chuva e pouco vento - que pôs os custos de produção cinco vezes acima do que é normal para esta altura - quando deviam rondar os 20 euros. Mas a procura francesa foi determinante: com os preços a atingir 150 euros naquele mercado, produzir para exportar para Paris é um bom negócio para Portugal e Espanha.

Há espaço (ou necessidade) em Portugal para uma central elétrica?

Hoje não passa pela cabeça de nenhuma empresa elétrica em Portugal fazer uma central de raiz - até por razões de natureza económica. Nem sequer há espaço no sistema eletroprodutor para isso.