"Portugal tem de ser mais ativo para reduzir o consumo de tabaco"

O comissário europeu da Saúde Vytenis Andriukaitis visita Portugal, hoje e amanhã, e diz ao DN que o país não está a fazer o "suficiente" para reduzir o tabaco

Em Portugal, há 47 mortes por dia por doenças pulmonares. O que é que a UE tem feito para evitar este tipo de mortes?

As doenças respiratórias, em Portugal, têm inúmeras causas. A primeira é o tabaco. Portugal foi dos primeiros a transpor a diretiva do tabaco. É um bom exemplo. Também aprovou o protocolo sobre comércio ilícito de tabaco. Mas, se olharmos para os espaços públicos, as pessoas fumam. Precisamos de encorajar Portugal a fazer mais, para proporcionar mais espaços públicos livres de tabaco.

Os restaurantes e bares aderiram em grande número à proibição do fumo. Não é suficiente?

Claro que não é suficiente. Tem de haver mais espaços públicos a aderirem, para travar o uso de tabaco nos espaços públicos. Têm de ser mais ativos, porque Portugal tem um grande número de doenças respiratórias.

Vai estar em Portugal com membros do governo. Vai transmitir-lhes essa mensagem?

É claro como a água que todos são responsáveis por reduzir os elevados fatores de risco. É necessária uma abordagem mais coordenada e mais ampla entre os Estados membros, para prolongar a vida de qualidade. Estamos prontos para encorajar os Estados a perseguir esses objetivos.

De que forma?

Com instrumentos preventivos, impostos e marketing. Reduzindo o acesso ao tabaco e ao álcool. Encorajando as cidades a disponibilizarem infraestruturas para as gerações mais novas, para terem mais atividade física. Estes instrumentos estão na mão dos Estados. Seria útil que estas atividades fossem coordenadas.

O Observatório das Doenças Respiratórias concluiu que as habitações sem qualidade e o risco de pobreza em que vivem dois milhões de portugueses, sem acesso a boa nutrição, é outra causa de doenças pulmonares. Como é que a prevenção pode chegar a estas pessoas?

Isso é similar em todos os Estados. Uma parte da sociedade não tem acesso a habitações, nutrição e a tratamentos de qualidade. Tem de haver mais atenção e programas especiais para esses que precisam. O leite e os vegetais nas escolas são um bom instrumento para apoiar os mais pobres da sociedade.

O Observatório da Diabetes constatou que o número de diabéticos cresce todos os anos. Mais de cinco mil novos casos por ano em Portugal. Mais de 13% da população é diabética. Como é que estes números comparam em termos europeus?

Não me surpreendo com esses números. Portugal sempre teve problemas com a diabetes.

O que está a correr mal para que Portugal tenha estes números?

A diabetes está relacionada com o perfil de nutrição, o consumo de açúcar, o consumo de álcool e a má alimentação.

O que é que as entidades responsáveis podem fazer, uma vez que a diabetes parece imparável?

É preciso olhar com atenção para os fatores de risco. São necessários programas de longo prazo. Dez ou 15 anos. Temos de combater a obesidade na infância - com alimentação saudável nas escolas, nos jardins-de-infância - e também na adolescência. Temos de combater o açúcar, reduzir o acesso a alimentos perigosos e acabar com as vending machines [máquinas de venda de alimentos] nas escolas.

A prevenção está a falhar?

A prevenção não está a funcionar bem em todos os países. Os recursos orçamentais que são necessários para as medidas de prevenção e os gastos para tratar pessoas vemos que são desproporcionais.

Qual é a proporção?

Os custos da prevenção, em média, situam-se entre 1% e 3% dos orçamentos nacionais. Para o tratamento gasta-se 17% ou mais. A prevenção é mais barata e mais eficaz. Mas as sociedades de alguns países não olham como deve ser para a prevenção.

As sociedades?

A prevenção não está na mão dos governos, mas das ONG, das escolas, das famílias e de toda a sociedade, não nos hospitais. Mas a prevenção está na produção e na venda alimentar. Claro que também diz respeito aos ministros da Educação e da Agricultura. Mas é a sociedade que tem de cuidar da prevenção.

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