"O nosso problema não é que os nossos jovens saiam, é que não venham outros"

Única reitora no ensino superior público português, Ana Costa Freitas conquistou a direção da Universidade de Évora à segunda eleição, depois de passar por Bruxelas, como conselheira de Durão Barroso, onde aprendeu como funcionam os lóbis. Quer ver o Alentejo com mais trabalho qualificado

Energia a fundo, Ana Costa Freitas não para. Com dificuldade, lá deixa de atender o telemóvel durante a entrevista. E quando se prepara para as fotos é abordada várias vezes por quem quer soluções para os seus problemas. Uma abordagem fácil e sem cerimónias.

É agrónoma e investigadora na área alimentar, estamos mais seguros em relação ao que comemos?

Sim. Temos mais conhecimento, portanto estamos mais seguros. O uso de herbicidas, pesticidas, é um exemplo, as pessoas precisavam de matar as ervas que danificavam as culturas, depois, com o avanço do conhecimento, concluímos que não faz só bem, também faz mal. O avanço do conhecimento não para.

Também se fabricam produtos sobre os quais desconhecemos as consequências.

Mas há um maior controlo. As alterações climáticas são uma realidade e são fruto da nossa atividade. Ninguém se lembra de desligar o frigorífico porque pode fazer mal, não é? Mas o sabermos que está a acontecer, permite-nos controlar.

O que é que os consumidores precisam de saber sobre o azeite e o vinho, os quais analisa?

Não estudo o azeite e o vinho em termos de segurança alimentar, propriamente, mas ao nível da qualidade. Saber como é que as diferentes castas de azeite ou de vinho têm influência no aroma, no paladar, etc. É caracterizá-lo, não é propriamente saber o que é que têm que possa fazer mal. Conheço o azeite e o vinho na sua composição química, e a composição química que é feita por cromatografia. Gosto imenso de estudar.

Vários tipos de matérias ou está focada na sua área de estudo?

Na minha área de estudo, mas, por exemplo, gosto muito de estudar sobre o ensino superior. Estive três anos e meio em Bruxelas e gostei muito de ver como é que funcionava a a Comissão Europeia.

Chegou a perceber?

Não, não, é um organismo imenso. Mas se me perguntar se percebo como é que funciona uma repartição de finanças também não percebo, porque há uma burocracia por trás, e quem diz uma repartição diz outro organismo. A Comissão tem um controlo imenso, e, portanto, muitos mecanismos montados. Da área que me interessava, que era a da investigação científica e da educação (Direção-Geral da Educação e Direção-Geral da Investigação), percebi mais ou menos: os programas, como funcionavam, agora dizer que conheço a Comissão não posso dizer.

São muitos lóbis, também?

Bruxelas funciona por lóbis, é permitido. Há lobistas mesmo, o que em Portugal não temos.

O lóbi português conta?

Não é não contar, não o fazemos tanto. Lembro-me de falar com o diretor-geral de Educação, que foi quem montou o programa Erasmus, um espanhol, e ele disse uma coisa muito engraçada: "Os portugueses e os espanhóis não fazem tanto lóbi; os ingleses são impressionantes, quase que eu sonho com uma coisa e, no dia seguinte, tenho um inglês a dizer-me como é que a devo pôr em prática."

Faltam lóbis em Portugal?

Sim, deveríamos ser mais ativos, mas acho que estamos a começar. Por exemplo, o Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas tem um gabinete em Bruxelas com o conselho das universidades espanholas, cujo objetivo é dar a conhecer a nossa posição. Estamos na revisão do Horizonte 2020 e a preparar o novo programa-quadro e, portanto, é preciso estar em Bruxelas, conhecer, ir, visitar.

É por isso que a Universidade de Évora está a apostar na ligação à Universidade da Extremadura?

Não, não é só por isso, é também uma questão de proximidade. Entendo que toda a formação que dermos aos nossos alunos e toda a investigação será melhor se estivermos em rede, redes internacionais. Quanto mais nos conseguirmos relacionar com universidades estrangeiras e quanto mais os nossos alunos puderem visitar outras realidades, mais preparados ficam.

Para trabalhar em Portugal ou no estrangeiro?

Sim. É obrigação do Estado dar o máximo de educação e de formação, mas duvido que Portugal, e os países mais pequenos, sejam capazes de ter empregos qualificados para tantas pessoas, muitos precisarão de ir para fora. O nosso problema não é que os nossos jovens saiam, é que não venham outros. Temos de garantir que há este intercâmbio constante e os nossos alunos devem estar preparados para arranjar o emprego que quiserem e onde quiserem.

Temos empregos para atrair jovens estrangeiros qualificados?

O nosso país tem de ter mais emprego qualificado, temos pouco. Estou muito empenhada nisso aqui no Alentejo. As pessoas não se fixam num local porque gostam da terrinha, isso é um disparate, fixam-se se tiverem um emprego.

E boas condições de trabalho.

E boas condições de trabalho, para os que cá estão ou outros. A ligação à Extremadura tem que ver com isto, com tornarmo-nos mais fortes, estabelecermos redes, prepararmo-nos melhor e darmos mais possibilidades aos nossos estudantes. Temos uma fronteira porque somos países diferentes, mas entre Elvas e Badajoz não há muitas diferenças.

Mas eles têm mais poder económico, melhores salários.

Penso que isso não acontecerá tanto em relação à Extremadura espanhola, que é a região de Espanha com menos rendimento per capita, mas não faço ideia dos ordenados a nível do ensino.

Sente estar em igualdade de circunstâncias com os espanhóis?

Completamente, aliás, temos um docente que é espanhol, que é quem faz esta ligação. Conheço o reitor da Extremadura há muito tempo, foi vice-reitor quando eu era vice-reitora, agora é o presidente do conselho de reitores, e temos uma boa relação. Temos cursos em Évora em que os alunos deles podem fazer cá um semestre, e damos equivalências, e o mesmo acontece com os nossos alunos na Extremadura. É a dupla titulação: têm o grau português e o grau espanhol.

Defende mais qualificação, o que significa melhores salários. Os empresários portugueses compreendem isso?

Pois, não sei. Mais qualificação implica mais salário, teoricamente, Agora, para a pessoa em si, é sempre bom ter mais qualificação, o conhecimento é sempre bom. A questão do salário tem que ver com a economia e com o empreendedorismo. Se uma pessoa não conseguir o emprego correspondente ao grau académico, poderá ser frustrante, é um facto. Mas tem uma bagagem diferente e, portanto, tem possibilidade de fazer-se à vida com mais ferramentas. Agora, o país mantém-se em crise. Independentemente disso, todos devemos lutar por mais emprego qualificado. No Alentejo, por exemplo, não me interessa só haver mais emprego, o que me interessa é mais emprego qualificado, para a região se desenvolver. Alguns empresários dizem: "Precisávamos de licenciados e não estamos a conseguir, criávamos cento e tal empregos." Não conseguem porque os salários são baixos; quer dizer que os nossos licenciados sabem o que valem, não ficam por um salário qualquer. Isso faz parte de terem a formação, o conhecimento de si próprios e de estarem mais fortes.

Qual é o grau de colocação dos licenciadas em Évora?

Depende das áreas, é muito difícil sabermos exatamente o grau de colocação, embora de há uns anos para cá só abrimos vagas de acordo com as inscrições nos centros de emprego. Mas não sabemos exatamente qual é o percurso dos nossos alunos após saírem da universidade. A inscrição no centro de emprego tem muitas variáveis, as estratégias das pessoas não são as mesmas. E é o único indicador e é bom para ter uma noção, mas não é completamente certo. Queremos começar a seguir mais os alunos.

Qual é a percentagem dos que são de fora do distrito?

É uma percentagem muito elevada, mas confesso que acho mais importantes outros indicadores.

Elevada, quanto?

Talvez 60%. Mas mais importante do que saber quantos são de fora, é saber quantos nos escolhem em primeira e segunda opções. Se vêm de fora porque não conseguiram entrar noutra universidade e escolhem Évora na quinta opção, é muito bom, mas não é isso que me interessa. E temos cursos, por exemplo, Medicina Veterinária, em que entram quase todos na primeira opção. Engenharia Mecatrónica tem poucos alunos mas entram em primeira opção e esse tem quase 100% de empregabilidade. Os que vêm de fora são importantes em termos de pagamento de propinas, de preencher vagas, etc., mas não é o mais importante.

Contribuem para o financiamento da universidade, trazem outra dinâmica à cidade.

Evidentemente que é importante, por tudo, para a sustentabilidade da universidade. E muitos alunos vêm para cá sem ser em primeira ou segunda opções e, depois, gostam imenso. A cidade é muito acolhedora, estudar em Évora é mais fácil do que nas grandes cidades. E o ambiente da universidade é mais fácil, os alunos falam comigo com muita facilidade.

Quantos alunos têm?

Aproximadamente 6500. Depois temos uma característica muito boa: a percentagem de alunos de doutoramento em relação aos alunos de licenciatura, que é igual à das grandes cidades. Lisboa tem à volta de 10% e nós também.

As propinas são mais elevadas.

Paga-se mais, mas a questão não é essa. Os doutoramentos dão a noção de que somos procurados a nível da investigação. Os alunos só vêm fazer doutoramento com quem consideram e porque conhecem a investigação. E muitos vêm com bolsas que só são ganhas se os projetos forem bons. Há duas dinâmicas: estarmos preocupados em ter alunos para pagarem propinas ou em ter alunos porque somos reconhecidamente uma boa instituição, o meu objetivo é sermos reconhecidamente uma boa instituição. As propinas são importantes, mas quero crescer por ter muita qualidade.

Porque é que aceitou o convite de Durão Barroso para Bruxelas?

Concorri à reitoria da universidade em 2010 e não ganhei. E achei que me faltava perceber a dimensão europeia da investigação e da educação. Tinha tido alguns projetos, muitas publicações, mas não, propriamente, projetos europeus. Estive nos Estados Unidos, por duas vezes, mas nunca num país europeu. E gostei imenso de Bruxelas. Trabalhei coma chief scientific adviser de Durão Barroso, que era a professora Anne Glover, e ligada às universidades: à modernização e à investigação. E a Bélgica é o coração da Europa, não tem nada que ver com morar em Portugal. Estamos numa pontinha, de cada vez que queremos ir a qualquer sítio, temos de atravessar Espanha, pelo menos ali não, é muito diferente. Foi um trabalho muito burocrático, não tem nada que ver com a investigação, mas tive contactos com pessoas da investigação e, portanto, foi uma boa preparação para a reitoria. E eu até tinha intenção de me candidatar novamente.

Mas, provavelmente, tem mais poder aqui, numa universidade.

Sim, poder não tinha, foi importante em termos de formação pessoal. Foi interessante ver como funcionavam as pessoas que têm o poder, falar com elas, com os diretores-gerais, com os comissários, etc. Como é que são tomadas as decisões, o trabalho que leva até se chegar a uma decisão.

Foi muito crítica da atuação de Nuno Crato como ministro da Educação, porque é que aceitou entrar nas listas da coligação?

Era um ministro imensamente simpático, mas não exerceu a pasta do ensino superior. Tinha um secretário de Estado para o Ensino Superior e outro para a Ciência, o que não deveria acontecer. E depois há uma coisa que os nossos políticos fazem muito - toda a gente faz - que é mudar tudo quando chegam. Nada se muda em quatro anos e, portanto, romper com tudo significa que estamos sempre a começar do zero, o que não faz sentido. E foi o que aconteceu, por exemplo, com a avaliação dos centros. O atual ministro está a tentar inverter isso, ignorando a rutura destes quatro anos. Mantém a estratégia seguida por Mariano Gago.

Com qual concorda mais?

Concordo e os números dizem que só se pode concordar mais. Não tínhamos estrutura científica em Portugal até à criação de centros científicos; não tínhamos a preocupação de formar as pessoas para a ciência, como agora, há inúmeros centros de Ciência Viva. Não tínhamos uma carreira académica até ao Estatuto da Carreira Docente, com Bolonha tivemos o Regime Jurídico das Instituições de Ensino Superior, etc. Houve várias alterações que até podemos criticar e que precisam de ser melhoradas - nada é perfeito no princípio -, mas havia uma estratégia. E foi essa estratégia que colocou Portugal no mundo.

Aplica esse princípio na universidade?

Sim. Em relação à reitoria anterior ou às reitorias anteriores, não me interessa o que é que fizeram de mal, porque isso eu não vou repetir. O que interessa é o que fizeram de bom e construir a partir daí. Porque se a pessoa toma a decisão de que estava tudo mal, então vou começar do zero outra vez? Os mandatos de reitor também são de quatro em quatro anos, temos de ter um fio condutor.

No entanto, em termos políticos, está mais próxima do PSD.

Fiz parte das listas como independente. A minha decisão tem que ver com o facto de achar que Portugal tem um problema grave. Portanto, espero que este governo, muito sinceramente, consiga levar-nos a bom porto. Temos é de resolver o problema económico.

Como?

Não percebo nada de economia, só de economia doméstica. Aquela sensação de que quando devemos temos de pagar é aquilo que faço em minha casa. Agora, se for verdade que conseguimos o crescimento económico de que precisamos e eliminar o défice com as políticas que estamos a seguir, encantada da vida, porque nós estamos a viver melhor, é um facto.

Sente-se isso em relação aos alunos, em relação ao pagamento das propinas, por exemplo?

Isso não se sente nada, ainda. Não há diferença nenhuma. Mas os funcionários públicos estão a viver melhor, foram muito martirizados. Os alunos, não sei. Fizemos um inquérito sobre o abandono escolar e, na realidade, a parte económica não é a principal razão. Os alunos têm as bolsas dos serviços da ação social do Estado e distribuímos mais cem bolsas. Mas, em termos políticos, achei que no final da legislatura anterior começávamos a ver uma luz ao fundo do túnel. E foi isso que me fez aceitar o convite. Convite esse que não implicava a saída da universidade. Sabia em que posição estava na lista.

Não pôs a hipótese de ir para o Parlamento?

Não, de todo. A reitoria é um projeto apaixonante, o resolver problemas e o ter uma visão sobre o que é que se quer para a universidade e também para o Alentejo, de uma forma geral, em ligação com os institutos politécnicos e as indústrias daqui. Elegemos algumas áreas como fundamentais, como o património, a agricultura, a energia, porque são aquelas em que temos de apostar. E há uma mudança enorme no Alentejo e que temos de acompanhar, essa mudança tem que ver com maior nível de educação. Na agricultura, já não temos nem lavradores nem agricultores, temos gestores agrícolas. A indústria está a fixar-se aqui, não só porque temos melhores condições mas também porque há pessoas a serem formadas. Depois, há uma revolução enorme, que foi o Alqueva.

Chegou a ser indicada como a ministra da Educação da coligação.

Nunca fui contactada nesse sentido.

Acha que faria melhor do que Nuno Crato?

Nunca pensei nisso, mas não gostaria de estar à frente do Ministério da Educação, sinceramente. Quem vai para a gestão de uma universidade, pelo menos, conhece a realidade, não é? A nível do Ministério da Educação não faço ideia. Nem sei bem o que é que fez Nuno Crato em termos da Educação, propriamente dita. De uma coisa eu tenho a certeza: não há ninguém que vá para lá fazer mal conscientemente. Pode haver alguns casos muito particulares, mas, de uma forma geral, não acredito. Uma vez, em Bruxelas, num debate entre Durão Barroso e Shimon Peres, ouvi Shimon Peres dizer que quem governa o mundo são as multinacionais e que os governos são as mulheres-a-dias das multinacionais. Há uma dimensão acima de nós, acima dos governos, que não tem que ver só com a Comissão Europeia nem com a Europa, tem que ver com o mundo como ele é, com os mercados, que não sabemos quem são, são coisas sem rosto e que falam sobre todas as coisas.

Acabou por ser eleita reitora à segunda vez. É persistente?

Quando acredito numa coisa, sim. Era um desafio, eu tinha ideias, achava que poderia melhorar a universidade e fui construindo um programa que achei interessante e que podia ser desafiante.

O que é que mudou da primeira candidatura para a segunda. Aprendeu a fazer lóbi?

Não. Nós somos eleitos pelo Conselho Geral, que tem 25 pessoas. E fiz uma lista para o Conselho Geral, coisa que não tinha feito da primeira vez. Apresentei o programa, discuti-o e arranjei apoiantes, o que não tinha feito, achava conscientemente que bastava apresentar um programa e que as pessoas o iam ler, que votavam no que achavam melhor.

Tem de se mexer uns cordelinhos para garantir a votação.

Sim. E duvido de que as pessoas, tanto a nível nacional como internacional, leiam os programas de governo e os programas dos partidos antes de votar. Na universidade é um bocado a mesma coisa.

Perdeu a ingenuidade.

Perdi a ingenuidade? A gente vai perdendo uma data de coisas ao longo da vida, a ingenuidade, provavelmente, é uma delas.

Já houve paridade na equipa reitoral, agora são quatro homens e três mulheres, o que é que aconteceu?

Tinha uma vice-reitora que foi para administradora do Hospital de Évora e foi substituída por um vice--reitor. Mas não foi intenção a paridade, aconteceu por acaso.

Como é ser reitora num mundo de homens? Faz diferença?

Sei o que é que é ser reitora, não sei o que é ser reitor, se um reitor se sente diferente do que eu sinto.

Alguma vez se sentiu discriminada?

Não, de todo. Vamos lá ver. Se chegássemos ao limite em que os reitores tivessem esses problemas com colegas que são reitoras, era um bocadinho estranho, há um nível de formação académica. Mas não acho que esteja totalmente fora da cabeça da maioria das pessoas, acham curioso eu ser reitora, homens e mulheres. Há sempre menos mulheres em cargos dirigentes, o que está mais do que estudado. Por exemplo, na vida académica, é fácil chegar a professora, fazer o doutoramento, ser professora auxiliar, professora associada, etc. Chegar a professora catedrática é mais difícil e aos cargos dirigentes é ainda uma percentagem menor. Saber se é porque as mulheres, depois, não querem ou não conseguem, já não é tão claro.

Consegue perceber porque é que não há mais reitoras?

Não, quer dizer, há uma maior percentagem de homens nos lugares de topo das universidades e, portanto, a possibilidade de eles se apresentarem é maior. O que é curioso porque o número de mulheres a entrar na universidade é maior, licenciam-se mais. As mulheres têm a vida familiar, os filhos, usam mais a licença de maternidade do que os homens, portanto, pode ser por isso, torna-se mais difícil estar em lugares de gestão.

Há uma gestão no feminino?

Acho que há uma diferença grande. Não quero ser injusta com os homens, mas há uma parte de sensibilidade feminina que também é transmitida para a gestão. Preocupo-me muito que as pessoas estejam bem, com o bem-estar das pessoas. Claro que os homens também se preocupam, mas talvez seja um bocadinho mais soft.

Quais são os principais problemas na gestão da universidade?

Como em qualquer gestão, há vários problemas, mas as pessoas são o principal. Todos temos uma maneira de pensar diferente, é preciso estabelecer consensos. Não há nada que se possa fazer por imposição, só se consegue envolvendo as pessoas no processo de decisão. É muito importante. Não se diz "tem de ser assim". Estamos a tratar com pessoas e que só se envolvem realmente em coisas em que acreditam. O mais importante é que acreditem no projeto e isso só se consegue se estivermos em diálogo, a explicar e a dizer os nossos pontos de vista. E quando eu digo as pessoas, são as daqui e fora daqui, com todos com quem falamos.

Alguma coisa a surpreendeu?

Não. O que temos é um controlo muitíssimo apertado por parte do Estado, somos uma instituição pública. Fazemos reportes mensais, o que deve ser igual a outros organismos públicos. Mas nós somos autónomos, temos um orçamento próprio e que gerimos de uma forma muito criteriosa, porque os orçamentos das universidades não são aumentados desde não sei há quantos anos.

O que fazem para obter receitas?

Recorremos a várias soluções, por exemplo, o pagamento de entrada para as visitas à universidade [três euros]. Houve uma altura em que cobrávamos durante as férias, agora isso acontece durante o ano inteiro. No mês passado tivemos mais visitantes do que o Museu de Évora, 3000 . É uma boa receita e vamos ter de explorar ainda mais, é bom e que faz todo o sentido. A universidade é muito bonita, também temos concertos no claustro, e há muita curiosidade. Foi o primeiro edifício em Portugal construído para uma universidade, em 1559.

É a tal gestão doméstica?

Não é só a gestão doméstica. É entender que não se pode dar tudo, porque é que havemos de dar isto, assim, de mão beijada, quando os museus se pagam, a catedral, etc.? E, curiosamente, as pessoas passaram a vir mais desde que se paga.

"Évora é mais calma do que Lisboa, às vezes, um bocado calma de mais"

Nasceu e cresceu em Lisboa, como é que foi passar da grande cidade para a pequena cidade?

Já tinha vivido em Évora. Sou agrónoma e fui convidada quando a universidade abriu o curso de Engenharia Alimentar - que, entretanto, fechou -, e era uma área a que estava mais diretamente ligada do que o Departamento de Química da Universidade Nova, gosto mais desta parte do que da Química. Vim para cá por causa disso, foi um desafio de carreira. Foi um professor do Departamento de Fitotecnia que me fez o convite.

Tinha filhos pequenos, é mais complicado?

Tenho três filhos, já são grandes, e sete netos. E isso também pesou, a a minha filha casou nesse ano e veio viver para Évora. E, portanto, tudo se conjugava. O meu filho Diogo estava a estudar em Évora. Estava a viver em casa do pai, o meu ex-marido mora cá. E o mais novo ia de Erasmus para Trento, é formado em Direito. Saíam todos de casa ao mesmo tempo e, também por isso, foi mais fácil.

Qual é a principal diferença em relação à vida que levava?

Évora é mais calma, às vezes um bocado calma de mais. Depois é menos consumista, porque não tem onde consumir, não tem cinema, por exemplo. Não tem centro comercial, as lojas fecham ao sábado à tarde. É diferente. Mas está muito perto de Lisboa, a pessoa vai facilmente a Lisboa. É um hábito.

Quem está numa direção terá pouco tempo e é indiferente onde vive. É assim?

Sim, eu saio de casa às oito e meia da manhã e volto às nove e meia da noite, nos dias normais. Ontem, por exemplo, tive um jantar em Lisboa e cheguei à uma da manhã. É um bocado indiferente, é verdade.

Qual foi a principal dificuldade na adaptação?

Foi o facto de o Departamento de Fitotecnia da Universidade ser na Herdade da Mitra, que é a dez quilómetros daqui. Mas em Lisboa também trabalhava no Monte da Caparica, a diferença é que aqui há menos gente. No Monte da Caparica toda a gente saía sempre muito tarde, aqui não. As pessoas, realmente, têm um ritmo de vida diferente. Nos primeiros tempos, a partir das cinco e meia, seis horas, sentia-me um bocado sozinha.

Ganhou qualidade de vida?

Ganhei qualidade de vida? Não sei. Gostava muito de viver em Lisboa e gosto muito de Lisboa, sou de Lisboa e toda a minha vida vivi lá. As pessoas dizem que é qualidade de vida, claro que é qualidade de vida sair do Monte da Caparica e levar duas horas a chegar a casa - morava em São João do Estoril - e, agora, levo um quarto de hora. Agora, também me tinha habituado a ir pela Marginal e a ver o mar. Acho que há mais qualidade de vida para quem tem filhos mais novos. Por exemplo, um dos meus filhos mora cá e outro mora em Lisboa, o que mora cá tem mais tempo para ir buscar os miúdos à escola, para estar em casa a horas, etc. Há mais qualidade de vida nessa altura do que propriamente na minha.

Mantém a casa em São João do Estoril?

Não, a minha mãe mora em Cascais e fico em casa dela. E o meu filho também mora em Lisboa. Acho um disparate ter mais do que uma casa. A pessoa nunca está instalada, não tem tempo para estar em casa durante a semana e, depois, ao fim de semana vai para outro sítio, onde não está bem instalada. Gosto de ficar em casa ao fim de semana, é a única altura que tenho.

Qual foi a principal medida que tomou?

Foi a aprovação do plano estratégico e, portanto, a definição das áreas principais. O que não é fácil, porque todas as pessoas, obviamente, acham que as suas áreas são as fundamentais. A ciência, hoje, não é vertical, é transversal. Elegemos essas áreas - foi difícil a aprovação, em conselho geral e etc. -, mas aos poucos as pessoas estão a ficar um bocadinho focadas nisso. Depois, há algumas decisões que devem ser tomadas de cima, por exemplo, abrir concurso para professores catedráticos de acordo com as áreas fundamentais. E tentar que as pessoas trabalhem em conjunto, até entre as escolas, e nós temos tentado fazer isso.

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