"O cinema é isto: sombras e luzes e seres humanos aflitos no meio"

Caminha sem descanso pela cidade de Lisboa mas também em todos os sítios por onde trabalha. Não é uma coincidência: parte hoje para um périplo asiático, preparando a Peregrinação de Fernão Mendes Pinto

Anda em grandes viagens, o que está a fazer?

Estou a preparar a Peregrinação de Fernão Mendes Pinto. Tenho o guião, ganhei um concurso, já consegui metade do orçamento. Agora vou um mês e meio para a China e para o Japão, para arranjar coprodutores. Vou fazer um pequeno documentário sobre os sítios impossíveis de filmar onde esteve o Fernão Mendes Pinto, porque estão completamente transformados, e encontrar equivalentes ou parecidos. Vou filmar muita coisa cá, em estúdio, vou construir uma arca enorme e filmar as caravelas. Vou andar aí no mar.

Isso vai demorar quanto tempo?

Muito tempo e vai ser muito caro. Tem aventuras, naufrágios, mortes. Vou fazer um bocado da Peregrinação, uma ideia da Peregrinação. E vou filmar coisas da vida dele. Quando ele voltou a Portugal não foi reconhecido, ninguém acreditava nele, e então resolveu escrever. Era um grande estudioso e trouxe grandes livros chineses e japoneses e cobriu os buracos da sua narrativa com narrativas muito antigas que encontrou. Tanto esteve a construir a Muralha da China como foi o primeiro tipo que levou a espingarda para o Japão... se não foi o primeiro, foi o segundo. Na verdade, foi nessa época que entrou a espingarda no Japão, que se construiu a Muralha da China, por causa dos tártaros. Ele estava em todo o lado. É um grande escritor. Criou essas aventuras, demorou sete anos a escrever e depois ninguém reconheceu. A D. Catarina teve aquilo quatro anos dentro de uma gaveta, o D. Sebastião nunca o recebeu - recebeu o Camões, mas a ele não -, o cardeal D. Henrique muito menos. O único que se interessou por ele foi o Filipe II de Espanha, porque adorava as narrativas. Quando ocupou Portugal ficou dono do mundo, tinha um império no qual o Sol nunca se punha, como o britânico. A grande informação sobre o Oriente dessa época é do Fernão Mendes Pinto, muito antes de qualquer outro. O Marco Polo escreveu sobre a China mas nunca refere a muralha. É estranho! Algumas aventuras do Marco Polo também... ou ele não foi lá ou passou ao lado.

Fernão Mendes Pinto era um grande estudioso, tinha grandes livros de onde guardou narrativas

E o Fernão Mendes Pinto vai buscar a informação aos livros?

Ele refere tudo, os códigos, as religiões. Vêm cá enviados dos Médici para saber informações sobre o Oriente e o Filipe II reconhece o valor do Fernão Mendes Pinto, e acaba por dar-lhe uma tença três meses antes de ele morrer. Ele era judeu-marrano, cristão-novo, e tem uma atitude em relação ao bem e ao mal completamente diferente. Para ele, o Afonso de Albuquerque é um facínora, para nós é um herói. Tem formação com os jesuítas mas não era cristão puro, correram-no. Ele tem um enorme respeito pelo outro. Os únicos que ele não respeita são os muçulmanos, o que é natural porque havia uma luta pelo território, por parte do império Otomano. Mas diz que a civilização chinesa é superior à nossa, que os japoneses são muito mais educados. Respeita o outro, com humildade. E, sobretudo, é um texto tão bem escrito, com uma tal oralidade... Ele é o inventor do livro de viagens, o Voltaire e os outros foram lá todos beber.

Como é que lhe passou pela cabeça meter-se nesta aventura?

Cheguei a uma idade em que ou tu crias um acontecimento ou ninguém te liga. Comecei a pegar em textos que me interessam, escritos por outros e, se calhar, mais bem escritos do que se for eu a escrever. Fiz o Filme do Desassossego e fiz Os Maias. São textos marcantes. E isto também tem a ver com a idade, a aprendizagem e a luta contra o esquecimento. Quando andei pelo país a mostrar o Filme do Desassossego e Os Maias, à tarde dava aulas de cinema aos miúdos, à noite eram os pais. Lembro-me de sessões maravilhosas e de sessões horríveis. E depois percebi que aquilo dependia do professor. Quando via um professor a fumar com um aluno, antes de entrar na sala, sabia que ia correr mal.

Porquê?

"Ó Luís, dá-me aí lume." Um professor a dizer isto a um aluno! Não tenho questões morais sobre isso ou sobre essa intimidade, mas sabia que aquilo ia correr mal. Porque a seguir um miúdo diz uma piada, outro aponta um raio laser para o ecrã. Tive de interromper sessões: "Meus meninos, isto é uma aula. Vocês não são obrigados. São 500, se há aqui 20 que querem ver e os outros 480 não, vão brincar, vão jogar à bola, vão lá para fora, vão fumar, mas aqui não!" A liberdade é a coisa mais importante que há mas tem limites - o incomodar o outro. Com Os Maias tive sorte, foi o regresso dos adultos ao cinema. Os adultos raramente vão ao cinema.

Por que acha que isso acontece?

Há mais cinema nas séries de televisão americanas do que nas salas. Grandes histórias, grandes argumentistas, grandes atores. Muitos adultos não estão interessados em ir a um filme onde se come, onde há barulho de pipocas e o sorver do fim da Coca-Cola, mensagens de telemóvel, e-mails... Não estão para isso! Portanto, não vão, ficam em casa. O cinema passou a ser um entretenimento. Deixou de ser uma sala escura, quase uma missa onde se celebrava, apagavam-se as luzes, as pessoas ficavam todas muito caladinhas. No teatro desliga-se o telemóvel e não se come. Por que hão de comer no cinema? E tudo porque o cinema é um negócio. Num bilhete de cinema, uma distribuidora ganha dois euros, o exibidor ganha um ou dois. Mas ganham na pipoca e na Coca-Cola! Querem filmes onde se possa comer e beber. E eu não sei fazer isso. N"Os Maias, os adultos mandavam calar os miúdos, porque o filme lhes interessava, tinham lido, "vamos ver como é que ele o adaptou". A Peregrinação é uma saga dos portugueses, as pessoas vão querer ver.

O João tem uma forte relação com a literatura mas também com a pintura, a escultura...

Há uma aprendizagem da imagem, sou de um tempo em que as pessoas iam aos museus e às exposições. Hoje as pessoas vão às inaugurações mas ninguém vê um raio de um quadro! No dia seguinte, não está lá ninguém. As pessoas estão no Louvre de costas para a Mona Lisa, a fazer selfies. Adoro o Panteão de Roma. É o melhor de todos os edifícios de arquitetura, vou sempre vê-lo, mas da última vez não consegui porque estavam milhares de pessoas a fazer selfies e era tudo um burburinho do caneco, não se conseguia ver nada, tudo aos encontrões. O mundo foi destruído em nome do entretenimento e de uma imagem pessoal do meu e do meu e do meu. As pessoas não querem ver as obras: querem ver-se ao pé das obras. O Godard dizia: "Eles não querem o progresso das ideias e das formas, querem o sucesso imediato." Querem aparecer no jornal, nas selfies, nas redes sociais, dizer "estou aqui!" O pensamento é destruído em nome da informação e da velocidade da informação e do entretenimento. Ninguém fica cinco minutos à frente de um Cézanne. Eu ainda fico, porque sou antigo.

Já havia Stroheims e Sternbergs e nós aqui com O Pátio das Cantigas, sem uma ideia de cinema

Tem um olhar diferente?

Gosto de voltar a ver um quadro, um filme. Vou muitas vezes à Cinemateca, vou muito pouco às salas. Os filmes de hoje podem assustar mas não inquietam. Podem enveredar pelos sentimentos primários, mas o cinema é para inquietar, é para perturbar, é para que as pessoas façam qualquer coisa diferente quando veem um filme. O Kafka dizia essa coisa sobre os romances: "Um romance bom tem de rasgar, violentar, pôr as pessoas a fazer uma coisa diferente, levá-las ao suicídio." Enfim, não é preciso tanto... Houve uma altura em Portugal em que se levou a revista para o cinema: eram bons atores, mas aquilo não era nada, não havia uma ideia de cinema. Qual é o interesse cultural de "seu patego, chapéus há muitos", "ó Evaristo, tens cá disto"? É zero! Já havia Stroheims e Sternbergs por todo o lado e nós aqui com O Pátio das Cantigas. As histórias eram todas iguais, coisas pequeno-burguesas: a criada porta-se bem, casa-se com o patrão, o chofer porta-se bem, casa-se com a herdeira, portas-te bem, tens o reino dos céus. É o discurso de Salazar.

É um homem do Norte que vive em Lisboa. Como aconteceu isso?

A raiz da família é toda de Vila Real. Os meus pais eram professores primários, estavam colocados em Lamego e eu nasci lá, mas tenho uma relação má com Lamego, uma relação fria de morte, não gosto.

Porquê?

Sou órfão de mãe desde os 6 anos. A minha mãe está lá, no cemitério. Um irmão mais velho, que era o meu ídolo, morreu aos 20 anos, tinha eu 9. Era piloto de jato e teve um acidente. Está lá enterrado. O meu pai está lá enterrado. Nunca fui ao cemitério, nem vou. Lamego era neve, gelo, frio. Lembro-me de estarem oito graus negativos e só eu é que tinha sapatos, porque era filho do professor. Os outros andavam com os pés entrapados. Ainda me comovo, ao passar na escola primária que agora é um instituto superior. Vila Real já era outra coisa, fiz lá o liceu.

Foi para lá com o seu pai?

Com o meu pai, com uma avó e com as irmãs. Em substituição da mãe, eu tive quatro mulheres - uma avó e três irmãs mais velhas.

E elas continuam a tomar conta de si e a mandar doces e bolas?

Sim. Ainda vou lá, de vez em quando e dou-me muito bem com elas. Houve uma altura que eu quis fazer a Condessa de Ségur - aliás, o Tráfico acaba com um bocadinho d"Os Desastres de Sofia - porque os primeiros livros que li eram das minhas irmãs. Havia também uma coleção de Júlio Verne, lá em casa, com as capas em percalina de várias cores. Estou sempre marcado pelos Desastres de Sofia e queria fazer As Meninas Exemplares. Aliás, fiz uma adaptação e depois chumbei... O Eric Rohmer começou As Meninas Exemplares e não acabou. Mas ninguém estava muito interessado em que eu fizesse a Condessa de Ségur com adultos.

Com adultos?

Adultos a fazer de crianças, adorava fazer isso. "E que tal a régua?" Aquilo é sadomasoquista e violento, é uma coisa de adultos, não é de crianças.

Fez o liceu em Vila Real e depois?

Devia ter ido para Arquitetura, tinha muito jeito para desenho. Mas estava farto de família, queria estar sozinho. Fiquei independente muito cedo. No fim do liceu fui para Coimbra, porque aí não tinha família. Mas não havia Arquitetura, só havia no Porto, e aí tinha família... Fui para a Faculdade de Ciências. Sou uma pessoa com sorte porque apanhei muita coisa diferente: o Salazar, puro e duro, o Marcelo Caetano na idade de transição de jovem para adulto, e tive a "revolução coimbrã", que não é uma revolução, apenas uma revolução de costumes. Atrasada, como sempre, a chegar cá um ano depois de Berkeley, nos Estados Unidos, do Maio de 68, em França, e aqui chegou em 69. Houve uma convulsão nas relações.

Apanhou a crise de 69 ???????em Coimbra?

Eu sou da crise de 69. As primeiras coisas gráficas que fiz foram murais, panfletos, caricaturas do Hermano Saraiva, que era ministro da Educação. Essa mudança nos costumes foi muito importante. Pela primeira vez, os rapazes deitam-se com as raparigas iguais a si, não têm de ter a iniciação sexual de ir às prostitutas com os pais, que os levavam, ou com as criadas. Passou a ser homem e mulher e tudo igual.

Envolveu-se no movimento ???????estudantil?

Até fiz parte de um grupo! As revoluções começam sempre nas cantinas, com a revolta pela comida. Eu fui da Comissão da Cantina. A primeira coisa política que fiz foi estar numa comissão numa grande cantina, para melhorar a qualidade da comida, que era uma porcaria. Aí é que começou o movimento. Depois houve desenvolvimentos, aproveitamentos. Porque nessa altura havia a luta anticolonial.

Os rapazes estavam sempre na iminência de ir para a guerra.

Houve muitos que foram. Alguns desses, da crise de Coimbra, dão origem ao 25 de Abril, porque foram para a Guiné, começaram a minar por dentro. Tanto que o PC dizia que as pessoas deviam ir para a tropa. Andei dois anos semiclandestino em Portugal. Era possível! Iam ao Porto, eu estava em Coimbra. Iam a Coimbra, eu estava em Vila Real. Eu estava na faculdade, mas na semiclandestinidade, ia lá de vez em quando e ia aos exames. Tive uma tipografia clandestina em casa, nos anos 1970, no Porto, fazíamos panfletos. Em Coimbra fazíamos teatro no CITAC, representávamos Brecht e Rosalía de Castro. Normalmente, o encenador era posto na fronteira e nós éramos presos.

Nunca ficou preso muito tempo?

Seis dias na PIDE, depois da crise. Acabei num movimento que era o Jusqu"au-boutisme, era para lá dos situacionistas! Era para ir até ao fim... Estive dois anos em Coimbra sem ir a uma aula mas fazíamos uma aprendizagem coletiva. Ou seja, havia o Lemos, que adorava música, via muito mal mas tinha uns ouvidos notáveis. Adorava música, adorava jazz. Saía um disco do Miles Davis e íamos todos ouvi-lo e ele falava. Havia o Zé-Manel Pinto dos Santos, que depois foi juiz e morreu há pouco tempo, que adorava literatura. Obrigou-nos a ler, em coletivo, o Quarteto de Alexandria, de Lawrence Durrell. Havia um tipo que sabia pintura, íamos aprender. Estávamos num grupo de teatro. Era fantástico. Havia uma aprendizagem coletiva notável.

Não saía de Portugal, não viajava?

Lembro-me de ir para a Europa todos os anos. O meu pai não tinha dinheiro, eu ia à boleia e ia trabalhar em fábricas. E foi nessa altura que o cinema se tornou um vício. Trabalhei em fábricas na Inglaterra, em restaurantes na Suécia e na Dinamarca, numa fábrica de pickles na Holanda, onde me caía uma gota de vinagre constantemente na cabeça, uma tortura. E depois gastava, em duas semanas, o dinheiro todo a ver seis filmes por dia, na Cinemateca de Paris. Aprendi o cinema a ver. Depois vinha nas camionetas ou nos comboios dos emigrantes, sabia que com eles conseguia comer, eles davam-me. Acabava sempre sem um tostão. Trazíamos livros proibidos, de Georges Bataille e Antonin Artaud, por exemplo, que não existiam cá. E víamos tudo o que podíamos. O Cineclube de Coimbra era um sítio político onde vi o Couraçado Potemkin e A Linha Geral de Eisenstein e O Último Ano em Marienbad, do Alain Resnais, que era uma chatice, muito antes do 25 de Abril. Marchava tudo! Víamos, discutíamos, falava-se de cinema, falava-se de tudo. Foi essa aprendizagem coletiva que me formou. Hoje ainda gosto de coletivos.

Saiu de Coimbra para o Porto e voltou a estudar?

Sim, houve um refluxo depois da crise em Coimbra, dispersámo-nos. Fui para o Porto estudar Engenharia Mecânica. Mas a luta política no Porto era a sério. Era quase engenheiro quando aconteceu o 25 de Abril. Faltavam duas cadeiras, já estava a dar aulas em Matosinhos.

E não chegou a acabar?

Nem quero! Já mas ofereceram mas não quero ser engenheiro. Estava a dar aulas de Física e Desenho de Máquinas, foi o único emprego que tive e durou três meses. Tive trabalho toda a vida, mas não um emprego. Depois do 25 de Abril, vim para Lisboa, para a escola de cinema.

Porquê o cinema?

Tinha visto muitos filmes, tentei a escola de cinema e entrei, já tinha 25 anos, era mais velho do que os meus colegas, que tinham 20. A escola estava numa transformação completa, houve saneamento de pessoas fantásticas. Aquelas maluqueiras. Mas na escola aprendi muito nos seminários. O Jacques Aumont, dos Cahiers du Cinéma, ensinou-me ensinou muito. Tomámos o poder e mandámos vir esse tipo. Era um dos grandes mestres dos Cahiers, um grande crítico. Durante três semanas, enfiou--me na mesa de montagem, para ver, plano a plano, A Linha Geral, estudei tudo, plano a plano, as diagonais, a luz, até fiz um grande artigo para a revista M.

Mas vieram também realizadores, não foi?

Sim, quando fiz a Semana dos Cahiers, em Lisboa, na Gulbenkian. Se calhar é o cartaz mais bonito que fiz na vida, o promontório de Sagres com pessoas a verem cinema para o mar. É uma serigrafia do António Inverno, que morreu há pouco tempo. Veio cá o Godard, mais 13 críticos dos Cahiers e outros cineastas. Íamos todos os anos ao Festival de Cinema da Figueira da Foz, que era muito importante, que era dos melhores festivais do mundo. Veio o Jean Marie Straub, veio o Stanley Kramer, vinham todos. Havia discussões, filmes fantásticos. O Straub abandonou a sala aos gritos no filme do Oliveira, O Ato da Primavera: "Film de curé"! Filme de padre!" Depois ficaram amigos, passados anos.

E a vinda do Godard, como foi?

Saiu antes da sessão. Ele estava à espera de encontrar uma revolução, encontrou uma data de burgueses a falarem-lhe da comida ao jantar, passou-se e foi-se embora. Era maluco! Fez um filme em Moçambique, o Comment Ça Va?, a partir de uma fotografia da revolução portuguesa, um soldado a apontar. Ia fazer um filme revolucionário e não saiu do hotel.

Fez filmes, como diz, de quatro em quatro anos, realizador bissexto. Como ganhava a vida?

Com trabalho gráfico. Fiz 3000 capas de livros. Inventei aquela editora, no Porto, com uns amigos - o nome roubei ao Jean Renoir - que era A Regra do Jogo. Ilustrei os livros do Manuel António Pina, fiz capas para uma data de editoras incluindo A Centelha, de Coimbra, para a Cotovia um bocado mais tarde. E fiz muitos cartazes e catálogos para a Cinemateca.

E cinema fazia quando podia, quando conseguia subsídio?

O cinema nunca deu nada. Nunca ganhei um tostão com o cinema. Nunca tive uma conta bancária positiva e eduquei três filhos. Mas não me queixo como o senhor Oliveira se devia queixar. Eu comecei a filmar longas-metragens em 1980, portanto, tenho 36 anos disto e fiz 16 ou 17 longas e 14 curtas.

Também fez uma grande exposição no ano passado, em Guimarães, é multidisciplinar.

Fiz uma coisa chamada Só Acredito num Deus Que Saiba Dançar. Gosto de dançar. Há colegas meus que vão para o ginásio, outros andam de bicicleta, outros vão para a natação. Eu acho que a dança é mais engraçada. É uma coisa mais ou menos coletiva. Gosto de música eletrónica. Dançar é bom para o físico e para o espírito. Uma pessoa não pensa em nada e mexe o corpo. Diz-se que "um homem pequenino ou é velhaco ou bailarino".

Não é velhaco.

Não, não sou. E gosto da vida. A vida é uma dádiva notável, as pessoas deviam aproveitar melhor o pouco tempo que estão na Terra. Eu quero lá saber da vida das pessoas; o que me interessa é o que elas fazem. O Godard parece que é um bandido nas relações pessoais e com os técnicos - tem obras sublimes, quero lá saber da vida dele. As pessoas estão na Terra para tentar ser felizes e bem-dispostas.

Esteve doente há uns anos. Isso mudou-o?

Quando se mata um cancro, tem de se agradecer o tempo que se está na Terra. É outra sorte na minha vida. Há coisas pequeninas que deixam de ter importância. E passei a divertir-me mais, também porque os filhos já estão autónomos, nenhum depende de mim. Cada um tem a sua vida, a sua casa, as suas relações. Mas nessa história da doença e da possibilidade de morte... eu julguei que ia morrer. Chorei baba e ranho e achei que era uma indecência. E, de repente, uma pessoa safa-se, Viva la libertad! Comecei a ter uma boa relação com a vida. Não me zango com ninguém, não quero, não tenho tempo. Vou comprar cigarros e apareço passados dois dias...

O cinema ajudou?

Aprendi uma coisa maravilhosa com o Straub, um dos grandes cineastas que admirei. Houve uma altura em que só gostava de dois, o Straub e o Godard. Eram aquelas coisas radicais: Viva o Rossellini, abaixo o Visconti! Mas são dois génios! Viva o Ford, abaixo o Welles! Eu não gostava do Fellini... é um génio, cada vez gosto mais. O Buñuel, neste momento, é o cineasta que eu idolatro mais. Mas naquela altura tinha uma reação de puto parvo e revolucionário. Hoje gosto de 500. Mas o Straub ensinou-me uma coisa: "Nunca digas resistência, diz dissidência." Se fazes resistência e vais combater com poucas armas, perdes. Se fizeres ao lado, fazes diferente. E, se não gostarem, paciência. Aprendi a não ter medo de fazer. O cinema tem muitas variáveis, muita gente envolvida, quando se tem meia dúzia delas certas é um milagre. Quando a luz está boa, o ator disse bem o texto, mexeu-se bem... se a roupa não for grande coisa, paciência! Ajudou-me muito no cinema a minha formação matemática e de engenharia, por causa da estrutura. Nunca atrasei um dia um filme. Cumpro sempre os trabalhos. Quando filmo, já sei como vai ficar.

Essa é a estrutura. E o que há mais?

Griffith disse: "O que falta ao cinema é filmar o vento nas árvores." O cinema pode ser aquele vento na árvore e a luz, se estiver bem certa...

Filmou o vento nas árvores no Quatro, na parte sobre João Queiroz.

Filmei porque ele também pinta o movimento, pinta o vento. Nós não somos muito bons na ação, na montagem, na velocidade. Somos bons na contemplação, temos uma boa relação com a poética do tempo. O que é o cinema? Sombras e luzes e seres humanos aflitos no meio. Os otimistas saem da sombra para a luz, os pessimistas, da luz para a sombra. O cinema nunca foi uma arte pura, foi sempre uma arte viciada. Tem um pecado original: é um negócio.

O que mudou no próprio cinema?

Há um triunfo da história sobre o cinema.Há filmes com milhares de planos, cheios de efeitos. Mas o Hitchcock tinha várias camadas, ainda hoje vejo coisas que nunca vi. Resiste ao tempo. As histórias eram de cacaracá, o modo como as filmava é que não. Leva-nos a ter sentimentos com abstrações: não é a morte, é a ideia da morte. Nos filmes do Ford morriam índios e cowboys mas não se via uma gota de sangue. A ideia de morte não é a morte. Hoje quantos mais morrerem, mais vão ver o filme.

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