"Nós não temos um governo, temos um negócio político entre PS, BE e PCP"

Líder parlamentar do PSD acredita que Passos será candidato a PM. Sobre a CGD: um governo de direita nunca contrataria por este preço

Ficou célebre a frase, da sua autoria, quando o PSD governava, de que o país estava melhor, mas os portugueses ainda não. O ex-líder do PSD, Marques Mendes, fez já um trocadilho com esta frase dizendo que agora o país estava pior mas os portugueses estavam melhor. Concorda?

Concordo só com a primeira parte desse trocadilho do Dr. Marques Mendes. De facto, o país está pior mas a vida quotidiana das pessoas não está melhor. Isto porque...

Mas já há muita gente que tem mais rendimento do que tinha no ano passado.

É verdade que os funcionários públicos viram acelerada a devolução dos cortes no vencimento, ao nível salarial que tinham antes de 2010 - porque o corte a que estiveram sujeitos vinha desde 2010. É verdade também que se perspetiva para o próximo ano uma melhoria de rendimento de alguns pensionistas. Mas, simultaneamente, todas essas pessoas e as demais, que não estão dentro deste universo de beneficiários das medidas de reposição de rendimentos, todas estão a pagar mais impostos: mais impostos nos combustíveis, mais impostos em vários consumíveis, em bebidas...

Impostos indiretos subiram...

[Impostos pagos] em aquisição de veículos, [sobre] o património, no IMI há um agravamento que vai afetar muitas famílias. Se no fim do dia essas pessoas fizerem contas, vão aperceber-se de que, por um lado, foi-lhes atribuída uma melhoria de meia dúzia de euros mensais no seu rendimento, mas aquilo que pagaram em impostos, no fim do dia, é superior àquilo que receberam. E, portanto, a minha perspetiva é que o país está pior porque não tem o crescimento que teve em 2015, não tem o nível de recuperação económica que nós vínhamos a alcançar nos últimos dois anos e, simultaneamente, há uma perceção de que o rendimento está a aumentar mas, no fim do dia, contas feitas, a situação não é melhor do que aquela que tinham em 2015.

Não teme que os eleitores com mais dinheiro disponível tenham tendência a adotar essa narrativa de que a vida está melhor e a ignorar os alertas que o senhor está a fazer, que o PSD tem feito?

Há um elemento que é muito sintomático e que pode atestar aquilo que eu estou a dizer. Todo o modelo económico em que assentava a estratégia deste governo e desta maioria dizia que, dando mais rendimento às pessoas, a procura interna iria disparar e o aumento do consumo iria estimular, ele próprio, o crescimento da economia. Ora, o consumo privado em Portugal, em 2016, vai ficar abaixo do consumo privado em 2015. Isso significa exatamente aquilo que eu estava a querer dizer: as pessoas têm aparentemente mais rendimento, mas não é mais rendimento disponível, porque feitas as contas ficam efetivamente numa situação pior e isto tem-se refletido no crescimento da economia. Este é um dado que é insofismável.

Mas também é verdade que o emprego tem subido acima do que era expectável para o crescimento económico que nós temos. Há alguma coisa de positivo nisso.

Mas ainda assim... É verdade. Sempre que se cria um posto de trabalho ou alguém sai da situação de desempregado é uma notícia positiva. Mas a descida do desemprego em 2016 e a capacidade de a economia criar emprego também estão a nível mais baixo do que aquele que aconteceu em 2015.

E também é verdade que as sondagens não refletem, de alguma forma, esse pensamento de que a vida está melhor. Ou seja, a esquerda consolida as suas intenções de voto ao mesmo tempo que o PSD vai perdendo espaço?

Pois, as sondagens têm sido um bocadinho erráticas nesse domínio. Ainda há escassos meses o PSD e o CDS juntos alcançavam um resultado igual e até, nalgumas sondagens, superior àquele que tinham tido nas ultimas eleições. Admito que possa haver estudos mais recentes que não sejam exatamente nessa linha. Mas eu não atribuo grande relevância a essa questão naquilo que tem que ver com a definição da nossa estratégia e do nosso trabalho político. E isto porquê? Em primeiro lugar, porque nós não estamos num período pré-eleitoral e, portanto, não é ainda um período de avaliação do mandato do governo como um todo - já temos uma avaliação do primeiro ano, mas não temos uma avaliação de todo o mandato.

É só esperar, para que o tempo dê razão ao PSD e a Pedro Passos Coelho?

Se virmos a última legislatura, vemos que em 2013 tivemos eleições europeias, em que tivemos uma derrota eleitoral coligados com o CDS e, passados dois anos, vencemos as eleições legislativas. O Partido Socialista, é curioso, teve mais ou menos o mesmo score - ganhando e perdendo - e o PSD, em eleições legislativas, conseguiu ter um resultado maior. E, portanto, creio que o percurso, por parte do governo, tem objetivamente cada vez mais dificuldade em poder convencer as pessoas de que este modelo alternativo é melhor do que aquele que tinha sido preconizado pelo PSD e pelo CDS-PP. Por outro lado, o PSD tem de ter a capacidade de demonstrar, doravante, que não só explica aquilo que está a acontecer ao país, mas também consegue mobilizar o país à volta de um projeto que seja gerador de mais crescimento económico, de mais emprego, de mais competitividade do país, naturalmente que isso poderá...

Isso não tem sido feito nestes últimos tempos?

Tem sido feito, mas num momento pós-eleitoral não é propriamente a altura certa para se apresentarem alternativas políticas e para se disputarem eleições.

Mas já passou um ano.

É verdade que passou um ano, é verdade que as pessoas hoje têm uma noção muito clara daquilo que defende o governo e daquilo que defende o PSD. Têm também uma prova feita de vida, uma prova quotidiana, que é aquilo que aconteceu de 2013 a 2015 e aquilo que está a acontecer agora, em 2016, e se perspetiva que possa acontecer em 2017. E nós teremos de ter o nosso trabalho político para podermos gerar essa confiança nas pessoas.

Entrando diretamente na execução orçamental e no Orçamento de 2017, há uma certeza: que o défice, em 2016, rondará os 2,5% e no próximo ano pode até ficar abaixo dos 2%. Está surpreendido com o desempenho da esquerda nesta matéria específica do défice orçamental?

Eu tenho de confessar que é bom para o país que nós tenhamos um défice abaixo de 3%. Seja 2,5%, seja mais ou menos décima, aquilo que é importante é verificar que o Partido Socialista, mas também o Bloco de Esquerda e o PCP, se conformaram com a necessidade de nós estarmos dentro dos parâmetros que estão estabelecidos em termos de equilíbrio orçamental com os nossos parceiros da União Europeia. Agora, eu lamento muito é a forma como nós estamos a fazê-lo. E isto porquê? Porque aquilo que foi apresentado por este governo ao país é que o défice seria inferior a 3% porque a economia iria ter uma dinamização, iria crescer mais do que aquilo que tinha crescido antes, nomeadamente através do tal modelo do estímulo ao consumo. Ora, hoje o défice está controlado, é verdade, mas está controlado à custa do quê? À custa de receitas extraordinárias - veja-se este programa de perdão fiscal que está agora a viver os seus primeiros dias; veja-se também a legislação que foi esta semana aprovada em termos de redefinição dos ativos das empresas e que vai permitir um encaixe financeiro, embora vá penalizar a receita de IRC nos próximos anos; e veja-se também aquilo que tem acontecido nos serviços públicos. E hoje nós temos, ao contrário do que aconteceu nos piores tempos da crise, escolas que fecham por falta de funcionários, serviços de saúde que estão encerrados, calendário de exames que é adiado, o sistema prisional com dívidas que ascendem a mais de 20 milhões de euros aos seus fornecedores. E, o exemplo mais sintomático, que se passa nos transportes públicos, com os portugueses - e os lisboetas em particular - a estarem horas nas filas para tirar bilhete e horas nas filas para apanhar o metro. Uma situação que não foi, de facto, vivida mesmo nos tempos piores de emergência de 2011 a 2013. Ou seja, à custa do Estado social, à custa de um corte cego na despesa. Veja bem, vejam bem! Um governo de esquerda, um governo de esquerda é responsável por este tipo de medidas para cumprir a meta do défice.

O PSD tem um projeto político, deve lutar por ele. A realidade vai dar-nos razão

O PSD repete, de alguma forma, à esquerda a crítica que a esquerda fazia ao PSD. Ou seja, na procura de uma poupança, poupança nomeadamente nos gastos do Estado...

Mas nós nunca pusemos em causa os serviços públicos, a economia cresceu...

Sobre os serviços públicos, de que estávamos a falar, o governo acha agora que não está a pôr em causa os serviços públicos, como o PSD e o CDS achavam que não estavam. A pergunta é se as críticas são ambas injustas ou é retórica política, é a diferença entre estar na oposição ou no poder?

Eu não creio que seja retórica, porque eu nunca vi escolas encerradas por falta de pessoal e nunca vi filas no metro por falta de material, seja para emitir bilhetes seja para termos material circulante em condições de poder fazer o seu trabalho seguro.

Governo e partidos à esquerda preparam-se para aprovar o segundo Orçamento. Não há - enfim, pelo menos para já - um espectro de crise política e se os essenciais da economia, nos próximos meses, não vos derem razão, em que estado fica o PSD perante este cenário?

O PSD está muito firme no modelo de desenvolvimento que tem para o país. E o PSD convive bem na luta política com o sucesso ou o insucesso do governo. Era bom para o país que o governo tivesse sucesso e isso não invalida a proposta política do PSD nem o facto de nós a considerarmos e tentarmos demonstrar aos portugueses que a nossa proposta é melhor do que a desta maioria. O problema não é esse! O problema é que esta maioria está a insistir num modelo que já não está a produzir os resultados previstos, está a falhar. E há aqui uma teimosia que passa pela circunstância de ser necessário alimentar este negócio político. Nós não temos verdadeiramente um governo, nós temos um negócio político em que o Partido Socialista, para ser governo, precisa do PCP e do Bloco e o PCP e o Bloco, para viabilizarem o governo, precisam de partilhar umas porções do poder. E isto vai-se fazendo no dia-a-dia de maneira a que o governo possa continuar a produzir resultados. Mas o país é que está estagnado.

E, no entanto, todos os estudos de opinião dão razão ao governo, ao PCP, ao Bloco de Esquerda...

Não me parece...

Eles consolidam intenções de voto e o PSD, pelo contrário, perde.

Não me parece que seja assim.

É só uma questão de perceção?

Não me parece que seja assim, nem me parece que o PSD possa ficar refém de estudos de opinião.

Não é uma questão de parecer, é o que dizem os estudos de opinião.

Sim, mas o PSD tem uma convicção muito forte no projeto político que defende. Deve lutar por ele. A realidade vai dar-nos razão, não tenho dúvidas nenhumas. Mas, independentemente dessa realidade, nós não vamos perder de vista aquele que é o nosso desígnio de termos uma economia mais competitiva, de termos uma administração pública bem estruturada e renovada para poder, precisamente, ter a mesma qualidade na prestação de serviços mas não poder absorver tantos recursos ao Orçamento do Estado.

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