José Manuel Neto: "Os sons que podemos tirar da guitarra portuguesa são infinitos"

São três gerações de músicos: a mãe, Deolinda, cantava fado; José Manuel é um mestre da guitarra portuguesa; o filho Ricardo escolheu a clássica e estuda contrabaixo no Conservatório de Amesterdão

É um alfacinha do fado mas escolheu a Ericeira, porque gosta do mar e do sossego, e aí tem por vizinho Óscar Cardoso, um dos dois construtores de guitarras em atividade. Na gravação, em pano de fundo está o tamborilar dos dedos de José Manuel Neto na mesa do café onde vai bebendo Água das Pedras fresca - está uma tarde de imenso calor na cidade. Trouxe uma guitarra porque vai ensaiar a seguir mas, também porque diz que não tem jeito nenhum para dar entrevistas nem para ser fotografado e assim sempre sabe onde pôr as mãos. Está preocupado porque a guitarra que trouxe é de Coimbra, e enquanto espera está sempre a dedilhar. Vai fazendo música quase em surdina, sem que os turistas que enchem o jardim estranhem ter ali aquele guitarrista genial. Só quem não o viu em palco pode desconhecer a qualidade extraordinária deste músico. Aconselha-se a ler ler este texto a ouvir o Tons de Lisboa, o disco instrumental que lançou em junho.

Escolheu a zona do Bairro Alto, em Lisboa, porque foi aqui que começou a sua ligação à música?

Sim, através da minha mãe comecei a vir para o Bairro Alto, muitas vezes à tarde, quando ela tinha ensaios em casas de fado.

Era a fadista Deolinda Maria.

Ela cantou em todas as casas do Bairro Alto, mais tempo no Café Luso, onde cantou vinte anos e onde eu ia bastantes vezes com ela. A minha ligação ao Bairro Alto é muito forte porque desde os 5 anos vinha para cá. Até por vezes à noite, fins de semana e tudo. Naquela altura as crianças entravam. Se houvesse uma inspeção chateavam, mas não havia muitas.

E a ligação à guitarra também começou aí? Observava os guitarristas que acompanhavam a sua mãe? Escolheu logo o instrumento mais difícil, a guitarra portuguesa.

Não foi logo, escolhi mais tarde. No início não liguei nenhuma. A minha mãe tentou impingir-me a guitarra, mas a princípio eu não pensava em nenhum instrumento. A minha mãe é que gostava que eu tocasse um qualquer. Era muito criança e não ligava, queria jogar à bola, brincar com os meus amigos, tudo menos tocar. Houve uma altura em que um amigo dela tocava saxofone num rancho folclórico que o Luso tinha. Ele era professor no Instituto Gregoriano e ela inscreveu-me lá para aprender música, tinha eu 6 anos. Lembro-me de que as aulas eram muito tarde, iam buscar-me lá às onze da noite. Mas a professora era muito severa e batia-nos com varinhas, eu contei à minha mãe e ela tirou-me logo de lá.

Andou lá pouco tempo, então?

Um mês e pouco. O primeiro contacto que tive com a música não foi lá muito saudável... Depois durante muito tempo não liguei muito à guitarra, até cantava e tudo porque era o mais fácil para mim, era fácil fixar as letras e as músicas. Tinha ritmo e tudo. Mas a guitarra não. A minha mãe dizia muitas vezes que eu tocava e que até tocava muito bem mas tinha muita vergonha. Um senhor guitarrista que tocava com a minha mãe ofereceu-me uma guitarra pequenina e eu sabia tocar um fado, um único. E a minha mãe estava constantemente a pedir-me para tocar aquele fado para os amigos dela.

E era qual?

O fado corrido. Eu só sabia aquele. Ela pedia e eu tinha muita vergonha porque tinha noção de que não sabia tocar. E ela dizia aquilo com tanto gosto "o meu filho já toca muito bem o corrido!" Depois durante muito tempo não peguei na guitarra, só por volta dos 9 anos mas não para tocar fado. Para mim era um brinquedo, pegava nela quando me apetecia e tocava o que ouvia na televisão, músicas dos desenhos animados, coisas para crianças. Às vezes estava dois ou três meses sem lhe pegar.

Ainda tem essa guitarra?

Tenho, é uma guitarra requinta pequenina, mesmo para aprender. E a minha mãe sempre a empurrar, sempre a tentar que eu tocasse. Mas quando somos jovens temos tendência a não fazer o que os pais querem, a fazer o contrário. Inscrevi-me numa filarmónica para aprender a tocar saxofone e aprendi solfejo. Entretanto, a guitarra ficou para trás. Mas a minha mãe insistia e convidou-me para tocar lá no Luso. E eu fiz aquela pequena chantagem, aquelas coisas que os miúdos fazem quando querem qualquer coisa: um fato de treino e uns ténis eram o meu cachet. E foi assim que comecei a tocar.

Bendito fato de treino! Mas aí começou a gostar?

Eu já gostava de música e aí comecei a ver e a perceber, com um violista fantástico chamado Zé Inácio. Comecei a perceber como o fado funciona. Os jovens têm dificuldade em gostar porque não percebem. E quando se começa a perceber um bocadinho o que é o fado e o que é a guitarra portuguesa... a gente para dizer que não gosta tem de perceber a fundo. Comecei a entrar nesse mundo e os mais velhos explicavam-me o que era o fado - o fado sextilhas, o fado quintilhas. Foi nessa altura que comecei a tomar gosto pela guitarra portuguesa.

E nunca mais a deixou?

Nunca mais.

Ainda agora estava ali sentado no jardim para ser fotografado com a guitarra na mão e começou logo a dedilhar. Não consegue ficar parado - com uma guitarra na mão tem que tocar?

É mesmo isso.

E quando está em casa também?

É aquela procura constante de sons diferentes. Isso está sempre presente no guitarrista. E também fazer novas músicas. É um instrumento que não tem fim. Cada vez que pegamos nele estamos à procura de fazer coisas novas, fazer experiências. Comigo é assim que funciona.

Há sempre novos sons?

Há sim, é infinito, há sempre novas possibilidades para explorar.

Foi aprendendo sozinho e com os guitarristas mais velhos.

Isto é uma tradição oral, eu perguntava aos guitarristas. Ainda agora é assim, eu passo o que sei aos outros. Já vai havendo umas escolas mas o fado funciona assim.

Ainda sabe solfejo? Sabe ler pautas?

Devia saber mais, tenho sentido necessidade de aprender mais um bocadinho, para mexer noutro tipo de coisas. Para o que eu faço, em coisas instrumentais e para que eu toco, não me faz falta, mas quero fazer outras coisas.

Na escola, chegou até que ano?

Fiz até ao oitavo ano. Nessa altura comecei a ganhar a minha vida, não havia muitos jovens tocar e nessa altura um jovem que aparecesse a tocar e a tocar bem - agora há dezenas deles - ganhava relativamente bem. Aconteceu-me isso. Tornei-me independente muito cedo e a escola ficou para trás. Por acaso tinha algum jeito, tinha boas notas, a professora dizia que era uma pena.

Tem pena?

Agora talvez. Se tivesse pensado bem, talvez tivesse feito a coisa de outra maneira.

Observando-o tocar, suponho que há uma semelhança entre o fado e o jazz: há uma melodia e depois há variações. Isto é um grande disparate?

Na maior parte das vezes, é mesmo essa questão como no jazz. No disco que gravei e nos solos que tenho tocado, a grande maioria das músicas foram construídas pelos guitarristas clássicos. Aproveita-se um tema e fazemos um improviso nosso, um arranjo nosso, mostramos a nossa forma de tocar aquele instrumental. Cada guitarrista tem a sua forma de tocar a mesma melodia. Ainda não tenho nenhum disco de instrumentais compostos por mim, mas vou tocando nos concertos. Nos concertos em que acompanho fadistas, toco instrumentais mas a maior parte não são meus, são dos antigos.

Os guitarristas estrangeiros que não conhecem a guitarra portuguesa mostram-se muito espantados com a quantidade de cordas que tem, acham que é difi-cílimo tocar.

Não é tanto assim. A guitarra clássica tem seis cordas, seis notas diferentes: mi lá ré sol si mi. E a guitarra portuguesa tem doze cordas: ré lá mi mi lá si. São doze cordas mas na verdade são seis duplas, estão duas a duas com sons iguais, não são sons diferentes. É isso que dá a característica do som. Nós tocamos as duas em simultâneo. É tão difícil para uma pessoa de fora tocar esta guitarra como para mim tocar viola, também não sei.

O que é que diferencia as duas guitarras, a de Coimbra e a de Lisboa?

Tem que ver com a afinação e o formato. A guitarra de Lisboa termina com um caracol, a de Coimbra com uma lágrima. O formato da guitarra de Lisboa é mais arredondado, o de Coimbra é mais em pera. E são duas formas de tocar completamente diferentes. A guitarra de Coimbra é afinada um tom abaixo da de Lisboa, fica um som mais grave, mais dolente, enquanto a de Lisboa é mais aguda. Mas não há diferença nas cordas.

Há poucas mulheres a toar guitarra portuguesa, lembro-me só da Luísa Amaro, companheira do Carlos Paredes.

Há a Luísa Amaro e há agora uma rapariga nova que é a Marta Pereira da Costa, gravou um disco. Não há nenhuma razão especial, mas poucas mulheres se dispõem a estudar a guitarra.

Gosta mais de tocar a solo ou de acompanhar fadistas?

Gosto das duas coisas. Tocar a solo é recente, embora o fizesse em casa e nos concertos, quando fazia um ou dois instrumentais. É mais complicado estar a tocar uma hora sozinho, mais assustador. São prazeres diferentes. Acompanhar também é maravilhoso, fantástico e difícil.

O que é bom no acompanhar?

É a conversa com o cantor, as dinâmicas que se criam, é caminhar ao lado.

Já tocou com todos os grandes fadistas atuais. Tem de se adaptar a cada um ou são eles que se adaptam?

Tenho de adaptar-me à forma de cada um cantar. É complicado: não perdendo a nossa característica de tocar, ir ao encontro do que o cantor precisa, da forma de acompanhar aquela pessoa.

Como se percebe isso?

São muitos anos de experiência.

A primeira pessoa que acompanhou foi a sua mãe. Era difícil de acompanhar?

Não, era muito fácil, ela cantava muito bem.

Tem discos gravados?

Tem, mas ainda em vinil e cassetes. No meu disco, tenho um tema dela a cantar que gravei do vinil com riscos e com tudo, e pus o meu filho a tocar contrabaixo. Foi muito engraçado. É o fado A Carta.

Estão os três?

Não, só a avó com os guitarristas da época e o neto. Não seria justo tirar o guitarrista que lá está. Estavam só guitarra e viola e o meu filho toca contrabaixo. Não era de bom tom tirar o guitarrista que ainda por cima era belíssimo, o Francisco Carvalhinho. Ficaram o neto e a avó. Porque eu cheguei a tocar com a minha mãe, mas o meu filho não.

Como é que ele chegou à música? Foi por sua causa?

Ele ainda foi mais teimoso do que eu, foi sozinho e ninguém lhe disse nada. Eu até o desencorajei, mas ele não foi nessa. Inscreveu-se numa filarmónica sozinho, aos 6 anos, para tocar trompete, e aos 14 quis sair da escola básica para ir para uma escola profissional de música em Mirandela, onde vive a avó, e ficou lá até os 18. Candidatou-se ao Conservatório de Lisboa e teve 20 a música, mas não entrou porque chumbou em Português. Em Amesterdão entrou logo, e não falava bem inglês... Está há dois anos em Amesterdão, quis ir para lá porque havia um professor que ele queria ter, e já está no terceiro ano, são quatro anos de curso.

Que tipo de música toca?

Música clássica.

Como se sente em relação a ter um filho na música clássica?

É fantástico, estou muito contente por ele gostar de música e invisto nisso, porque sei que ele é realmente muito bom e gosta do que faz. Não chumbou um ano. Desde que ele seja feliz é isso que é importante.

Agora também se toca contrabaixo com fado.

Quando ele tinha 17 anos eu poderia tê-lo trazido para o fado, mas não quis porque tive medo que deixasse de estudar. Depois de ter os estudos pode fazer o que quiser, é com ele. Já vai fazendo reforço no Concertgebouw, é capaz de ficar por lá. O meu filho tem o ouvido mais apurado do que eu, porque ele desenvolveu isso e comigo é intuitivo. Tem um ouvido extraordinário.

O fado entrou na moda há uns anos, atravessou diferentes fases. Viu as coisas a mudar?

Há uma fase que sei que nunca mais vou ver, aquela das casas de fado onde ainda se fumava, onde cantavam aqueles fadistas mais tradicionais, mais antigos. É uma realidade completamente diferente deste pessoal mais novo que apareceu. É giro ver a mudança. Mas ainda vai mudar outra vez, ainda há de passar para outra coisa completamente diferente que não sei o que será.

De que fadistas antigos se lembra?

Vi tocar muitos guitarristas e violistas antigos, e vi cantar muitos fadistas - o Fernando Maurício, a Beatriz da Conceição...

O Marceneiro [1891-1982] já não é do seu tempo?

Curiosamente, vi o Marceneiro quando eu tinha 6 anos. Só o vi, não o ouvi cantar, uma vez à tarde.

Não era o Marceneiro, era o senhor Marceneiro?

Quando ele aparecia era uma coisa... Eu estava numa festa, não me recordo onde, sei que a minha mãe foi lá cantar. Estava num corredor e vi um senhor a chegar com dois senhores a ampará-lo. E tudo a pedir silêncio porque ele ia a passar. Ele morreu passado pouco tempo.

Quais foram os guitarristas que o impressionaram mais?

Dos que vi tocar, foram vários:o Francisco Carvalhinho, o Ma-nuel Mendes, o Fontes Rocha, o Carlos Gonçalves que ainda é vivo e que foi guitarrista da Amália. E outros que são de outras áreas, como o Pedro Caldeira Cabral, o Ricardo Rocha, que é da minha idade e é neto do Fontes Rocha. Mas os que me marcaram mais foram o Francisco Carvalhinho e o Manuel Mendes e, mais tarde, o Fontes Rocha.

É possível exprimir em palavras o que os carateriza?

Tem muito que ver com a forma de tocar, de acompanhar. Tinham todos características diferentes, ouvia-os e sabia quem estava a tocar. Atualmente é mais é difícil ter um estilo marcado, às vezes oiço na rádio e não percebo quem está a tocar. Nos casos do Manuel Mendes e do Carvalhinho, via-se que era um género característico de Lisboa. O Fontes Rocha já tinha ali umas coisas de Coimbra, é uma outra escola da guitarra portuguesa. Tal como há formas de cantar, pessoas que seguiram a maneira de cantar da Amália Rodrigues outros da Fernanda Maria, o Manuel Mendes seria um e o Fontes Rocha seria outro.

O Carlos Paredes tinha uma respiração única, o tempo nele ia e vinha. Eram obras de arte

Viu o Carlos Paredes tocar?

Não, mas ouvi todos os discos. Além de ser um guitarrista fabuloso, era um compositor maravilhoso, nele juntavam-se dois em um. O som que ele tinha não era Lisboa. O Carvalhinho e o Fontes Rocha eram de Lisboa mas o Carlos Paredes era de Portugal. O som dele era Portugal, não era Coimbra, tinha ali uma portugalidade. A música que ele compunha tinha muito que ver com as danças palacianas e com a música antiga. A forma de ele compor tornava-o único e aquilo só tocado por ele fazia sentido. Tinha uma respiração única - não só a que se ouvia nos microfones e se ouve nos discos - mas a respiração de tocar. O tempo ia e vinha, era uma respiração muito pessoal. E depois ele tinha um violista que tocava com ele, que tinha a alcunha de A Sombra, o Fernando Alvim, eles eram um só. É quase impossível saber como eles sabiam o que o outro ia fazer.

Isso acontece-lhe com alguém?

Acontece-me muitas vezes com o Carlos Manuel Proença, tocamos juntos há muitos anos. Mas ali era diferente. Nós tocamos juntos há muitos anos e já adivinhamos muita coisa, mas também tocamos em projetos diferentes, não estamos sempre juntos. Ali, dá-me a sensação de que era outra coisa. Eles tinham de ensaiar todos os dias, o Fernando Alvim contou--me. Na altura não havia muita distração, eles não tocavam com trinta artistas diferentes. Eles só faziam aquilo. E daí aquilo soar tão bem. São obras de arte fantásticas.

Já correu o mundo inteiro com o fado. Os públicos são diferentes uns dos outros?

Sim, são. Tem que ver com as características dos povos. Mas temos surpresas. Isto é um género de música que, embora já se vá conhecendo, é novo para muita gente. Às vezes as reações são completamente inesperadas, de públicos que pensamos que não estão à espera deste género de música. Por vezes de públicos frios recebemos grandes ovações. Há países que já sabem o que é o fado, há pessoas que andam a aprender a falar português para perceber as letras, e há até praticantes.

Aparecem guitarristas a querer tocar guitarra portuguesa?

Já há sim, espanhóis, japoneses, vários brasileiros, holandeses.

Os construtores de guitarras já conseguem exportar?

Já, mas as guitarras não são muito acessíveis.

Quanto custa uma guitarra?

De quatro mil euros para cima, mas há umas que custam 200 euros e dessas é que vão muitas lá para fora.

Quantas guitarras tem?

Tenho cinco, duas de Lisboa e três de Coimbra.

Como é que escolhe?

Tenho uma relação privilegiada com um construtor, o Óscar Cardoso, que é meu vizinho na Ericeira. Atualmente só há dois grandes construtores, o Óscar Cardoso e o Gilberto Grácio. Escolhi o Óscar Cardoso já há muitos anos, é ele que constrói para mim. Tenho duas que são as minhas guitarras de sempre e depois tenho outras duas que vou experimentando, toco com elas uns tempos, depois ponho lá a vender e ele faz-me outra. Ando sempre a trocar. Mas há duas que são de sempre, uma de Lisboa e uma de Coimbra, feitas por ele, já têm muitos anos.

O que é diferente nelas?

Já lhes passaram uns anos por cima, nos verões as madeiras ficam bastante secas. Elas ganham características que precisam de ter aquele tempo para chegar àquele ponto. Quando são novas não têm. Já não vou procurar uma que posso arriscar a não chegar ali. Aquelas estão no ponto. Uma guitarra para chegar ali pode ter de esperar dez anos, não compensa.

Mas mesmo assim há umas que vão rodando?

Há algumas que saem logo muito boas.

E o Óscar Cardoso avisa-o?

Avisa - "fiz agora uma guitarra e tal" e eu vou lá experimentar.

Como é que ele nota a diferença? À partida é feita da mesma maneira.

Mas não há duas guitarras iguais. Ele faz as guitarras com as mesmas madeiras, as mesmas medidas, tudo igual, e são completamente diferentes. Não tem explicação. E são feitas numa máquina. Se for feita à mão podemos pensar que há ali a mão humana, mas numa máquina é a mesma coisa.

A sua guitarra não tem fundo, tem um buraco com mais de um palmo de diâmetro. Porquê?

É como se não tivesse o fundo. É um fenómeno acústico que o Óscar Cardoso inventou. Também faz violas e guitarras clássicas assim. Reparou que as guitarras sem fundo ficavam ainda com mais som do que as outras, e foi desenvolvendo isso. Os fundos já são meio côncavos, têm umas travessas lá dentro, e cada vez têm saído melhores. Umas saíam com mais som, outras com menos graves. É muito técnico. Agora estão quase iguais às guitarras que têm fundo, já têm graves, e não têm a parte de trás.

O que é que isso permite?

Não há feedbacks quando se toca em palcos grandes com microfones. Quando há um problema no tampo ou dentro da guitarra não é preciso abrir para reparar. Num concerto para muita gente não se pode tocar com guitarras tradicionais. A guitarra tradicional tem o fundo, as ilhargas e a frente. Tem de se meter o microfone à frente. O volume de som exterior é tão grande que entra todo pelo microfone e o som da guitarra já lá não chega, porque o microfone está a ser preenchido. Se a guitarra não tiver fundo, dá para meter o microfone lá dentro sem haver interferência do som exterior, ou ligar pick-ups.

Depois de começar a tocar guitarra nunca mais pensou em tocar outro instrumento? Nem se tenta com o contrabaixo do seu filho?

Sinceramente, não. Aquilo tem tanta coisa para a gente fazer, tanta coisa para a gente tirar, ainda há tanta coisa para descobrir que não vale a pena perder tempo. Há outras pessoas a tocar.

Toca todos os dias, tem horário?

Todos os dias toco mas é numa altura qualquer. Sei que tenho de pegar numa guitarra pelo menos uma ou duas horas por dia, mas pode ser de manhã ou depois de almoço.

E faz-lhe falta?

Sinto falta. Se estiver três ou quatro dias sem tocar não me faz diferença, mas mais faz, já notei, isto já não é a mesma coisa.

Tem a sorte de ter um instrumento portátil, não é um piano...

Posso levar sempre comigo, mesmo que seja uma viagem profissional. Agora tenho uma guitarra que não tem som, não tem corpo, só tem escala. Posso tocar nos hotéis, em todo o lado. Só tem o braço e as cordas e depois tem um aro, uma estrutura, sem mais nada. Só sai som se eu o ligar a um pick up. É como se fosse uma guitarra elétrica desligada. Só faz o som tic tic tic.

Com o Carlos Manuel Proença basta olharem um para o outro e nem precisam de falar. Tem fadistas com quem isso lhe acontece?

Normalmente acontece quando tocamos muitas vezes juntos, passa a ser automático. Com o Carlos Manuel é um perceber de vinte anos, é diferente. E com o Camané também já lá vão vinte anos.

Já o vi em palco com o Camané e parece que são quase só um.

Ele é um artista fantástico.Conheço o Camané há mais tempo, eu tinha 17 e ele 20. O som do Camané foi criado também comigo e como Carlos Manuel e, claro, com o Zé Mário Branco. Já nos adivinhamos uns aos outros. Ele é um caso sério.

É diferente o fado das mulheres e o fado dos homens?

Para mim é. Porque no meu ver os homens atualmente têm um fado diferente. Estão mais perto do fado que eu concebo, que eu conheço. As mulheres estão a afastar-se, estão numa outra realidade. Eu tenho tocado e gravado com eles todos, estou a falar do Camané, do Carlos do Carmo, do Ricardo Ribeiro...

Nunca tocou com a Amália?

Vi-a cantar mas nunca toquei. Gostava de ter tocado com ela. Mas eu era muito jovem na altura. Eu substituía o guitarrista dela que normalmente tocava na Adega Machado. Quando ia tocar com a Amália eu substituía-o. Às vezes eu estava a tocar e via-a entrar, ia lá ter com a dona da casa de fado, a Maria de Lourdes Machado - eram comadres e muito amigas. Também cantava muito bem e era dona da casa. A Amália fazia lá todos os anos um grande concerto à porta fechada, uma festa enorme para trezentas pessoas. Eu via-a lá de vez em quando, chegava com o seu casaco de peles, óculos escuros e um lenço. "Lá vai a Amália..."

Mudou tudo muito desde então.

O fado está numa fase de explosão e dentro de algum tempo deve assentar a poeira e vai haver uma escolha natural - o que vale ou não vale a pena. Há muito fado experimental. É o próprio conceito, não são apenas os instrumentos a acompanhar. Depende mais da abordagem aos temas e aos fados.

O que quer ainda fazer com a guitarra?

O próximo passo é fazer um disco de originais, dentro de um ano. Será com o Carlos Manuel Proença e ainda vou ver se terá algum músico convidado.

Custa-lhe muito estar sozinho em palco, como no concerto de janeiro no CCB?

Um bocadinho. Tocar não me custa nada. Custa-me entrar sozinho e ter de falar, apresentar. Mas já me vou habituando.

Quantos espectáculos faz por ano?

Talvez 150.

Gosta de estar no palco?

Gosto, seja numa casa de fados ou num palco, desde que esteja a tocar para o público e com a guitarra na mão. Já me impressionei mais, por insegurança, agora não. Mas faço sempre o meu melhor.

Tem muita boémia a sua vida?

Agora já não, isso foi há muitos anos. Deitar-me às tantas, fazer do dia a noite, deitar-me às seis da manhã, levantar-me ou duas ou três da tarde. Agora já não faço isso, mas deito-me sempre tarde, às duas ou três da manhã, levanto-me às dez. E não bebo álcool - quer dizer, não bebo o que bebia, mas bebo às refeições de vez em quando.

Bebia muito?

Ah... à noite os colegas juntavam-se, vai mais uma, vai mais outra, era o normal. Durante o dia fumava um maço de tabaco, na noite de fados das nove às cinco da manhã fumava dois, eram três maços por dia. E a alimentação também era assim, mais um petisco, mais outro. Isto era a regra, não era a exceção. Mas deixei isso,porque ganhei peso e percebi que não estava a ser uma vida saudável. Comecei a achar os dias curtos - como é que não haviam de ser, levantava-me às três da tarde, no inverno era logo outra vez noite. Foi para aí em 97 ou 98 que deixei isso. Comecei a tocar com a Mísia e ela já estava no circuito lá fora da world music, muito antes deste pessoal todo. Ela tinha montes de espectáculos lá fora, era muito conhecida. Estávamos sempre no estrangeiro. E aí percebi que aquilo não era como na casa de fados, tinha de apanhar aviões, tinha de haver ensaios, tinha de ter outro género de vida. Foi o melhor que fiz. Conheci o mundo com ela, dei várias voltas ao mundo. A Mísia continua a ter o trabalho dela lá fora, é uma grande artista, aprendi bastante com ela.

Por que foi viver para a Ericeira?

Porque adoro o mar e aquilo dá-me uma paz que eu não consigo encontrar na cidade. É tudo diferente, é uma aldeia a vinte minutos de Lisboa.

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