Fernando Medina: "Seria descabido impedir um estrangeiro de comprar casa no bairro de Alfama"

Entrevista a Fernando Medina (parte I). Mudança na lei das rendas está a ser negociada com António Costa

Fernando Medina substituiu António Costa na Câmara de Lisboa faz quarta-feira um ano. O que mudou na cidade entretanto e o que mudará até ao fim do mandato, em 2017? Como gerir a tensão provocada pela chegada de turistas e a necessidade de moderar o impacto que, dizem os críticos, ameaça transformar as zonas históricas numa espécie de parque temático, sem vida (como ela é) e cor, com poucos moradores lisboetas, embora ainda com fadistas e miradouros? Ou haverá nestas opiniões algum exagero? E ainda: as obras eternas na cidade, aqui ou ali, a desertificação da Baixa e também a nova vida da Baixa, o estacionamento, as rendas, a especulação imobiliária. Uma entrevista ao presidente da câmara para ler hoje - a segunda parte já amanhã. A cidade voltou a ser assunto para os lisboetas.

Como é que o presidente da câmara vive a cidade? Quando passa numa rua, vê mais problemas do que coisas bonitas, provavelmente.

A forma como se vive a cidade é, de facto, diferente. Às vezes, estou com amigos ou com a família, andamos pela cidade, e estou sempre a reparar naquilo que é preciso fazer, nalguma ideia ou em algo que não está bem e então dizem-me: "Para lá de trabalhar!"

Tiro fotografias e envio, às vezes às mais altas horas da noite, ou quando passeio de bicicleta, para os diretores e vereadores

Tira fotografias das coisas que não estão bem?

Sim, em permanência. É uma das vantagens destes telemóveis, embora seja também uma desvantagem para as equipas que trabalham aqui. Eu tiro fotografias e envio, às vezes às mais altas horas da noite, aos fins de semana ou quando passeio de bicicleta, e mando-as para os diretores e vereadores. Chamo a atenção para vários assuntos.

Que problemas tem encontrado mais em Lisboa nesses passeios?

Tenho uma uma grande preocupação. Tem que ver com a manutenção da cidade. Tudo aquilo que mexe com a qualidade do espaço público, desde os passeios aos sinais mal colocados ou ao excesso de sinalética nas ruas. Temos de ter uma cidade preparada para as pessoas usufruírem do espaço público, a ideia base é esta. Além disso, uma parte importante da população de Lisboa é mais velha, precisa de ter condições para circular em segurança. Estou muito atento a isso.

As pessoas queixam-se diretamente a si?

Sim, vêm falar comigo. A relação com o presidente da câmara é única. As pessoas têm uma grande intensidade na reclamação, mas também grande generosidade e compreensão. São bastante reivindicativas sobre o problema que as perturba.

Falam de problemas muito concretos ou mais estruturais?

Muito concretos. Problemas muito intensos, porque para elas a questão é única, não é? E tem de ser resolvida, porque lhe causa um prejuízo pesado.

E esse é o tipo de contacto direto que tem com os munícipes?

São encontros que acontecem espontânea e fortuitamente. Acontece também porque procuramos tê-los. Na programação da nossa agenda, sabemos que é importante dedicar parte do trabalho ao terreno, a visitar as freguesias, a ir ao território ouvir os presidentes de cada uma delas. Não ouvimos apenas os presidentes das juntas, ouvimos também a população, as associações locais, as forças de cada freguesia, os moradores. Participam todos nesse debate. Há ainda uma prática que foi instituída pelo António Costa: as reuniões públicas descentralizadas.

O que são?

São reuniões em que o executivo todo só tem um ponto único na ordem de trabalhos: ouvir os munícipes de determinada freguesia ou de determinado conjunto de freguesias.

São sempre as mesmas pessoas que frequentam esses debates?

Algumas repetem, mas há sempre participantes novos. Alguns problemas resolvem-se, depois surgem novos problemas. Outros, infelizmente, arrastam-se. Mas entre a preparação e a reunião e, depois, a sequência da reunião, dá para sentir o pulso do que se está a passar e dá para resolver um conjunto de questões . É importante perceber que a cidade é muito, muito, diferente. Quando falamos de uma freguesia como as da coroa norte...

... Que freguesias são essas?

Lumiar, Carnide, São Domingos de Benfica... São freguesias com uma população muito significativa. Estamos a falar das maiores freguesias da cidade, onde reside a maior parte da população urbana, mas onde, por exemplo, não trabalha uma parte importante da cidade de Lisboa. Não é aí que está a maioria dos empregos.

Está a falar dos serviços, das sedes das empresas?

Exatamente. Quando chegamos, por exemplo, aqui à zona da Baixa, as grandes questões que se colocam são outras. Há muito menos pressão do ponto de vista da população residente, que é muito menor... Mas a pressão do ponto de vista da população que vem aqui trabalhar e da população que, todos os dias, usa a cidade é muito grande.

Só refleti sobre a hipótese (de ser presidente da câmara) quando o António Costa me convidou para número dois

Nunca pensou, provavelmente, ser presidente da Câmara de Lisboa. Aconteceu estar integrado no executivo com António Costa e depois acabou por assumir esta função. É assim?

Nunca pensei no assunto, é verdade. Não pensei que isto me fosse acontecer. Só refleti sobre a hipótese quando o António Costa me convidou para ser número dois dele.

Ficou com a área financeira.

Com as finanças, sim. Nessa altura é que as coisas se puseram e eu perguntei-lhe: "Bom, mas tu vais sair?" E ele disse-me: "Sim, eu terei sempre de sair!" Porque com a lei da limitação dos mandatos este seria sempre o último de António Costa. Então disse-lhe: "Isso significa...?" E ele riu-se e disse: "Isso significa que ficarás como número um e terás de levar o barco a bom porto."

Pensa, portanto, recandidatar-se?

Isso será a seu tempo [risos]. Quer dizer, não quero fazer disto... as questões têm o seu tempo. Acho que durante este ano, até ao final deste ano, tudo ficará clarificado. O que posso dizer agora é que gosto muito daquilo que estou a fazer. É um lugar fascinante. Acordo todas as manhãs com vontade de vir trabalhar.

Mesmo quando há inundações?

Vamos lá ver, isto é uma função muito exigente, muito complexa.

Há muitas emergências. É uma pessoa que centraliza as decisões ou já consegue delegar mais?

Depende das áreas e depende também do estado dos dossiês. É natural que algumas áreas precisem de mais iniciativa e mais controlo político, logo, tenham de ser assumidas por mim.

Por exemplo?

Todos os assuntos novos. Numa câmara como a de Lisboa lidamos, basicamente, com dois tipos de problemas: aqueles que nos entram pela porta dentro, as emergências...

... As inundações, os buracos...

As inundações, a proteção civil, a manutenção geral da cidade, também problemas mais prementes do ponto de vista da política de habitação, coisas muitos concretas que mexem com a vida das famílias e dos bairros. E ainda os eventos em que a Câmara de Lisboa está presente, como as receções aos chefes de Estado estrangeiros. São acontecimentos pontuais que mexem com o ritmo da cidade, provocam transtornos e alterações, e é preciso estar atento, porque implicam a ocupação do espaço público. Eventos desportivos, os concertos, os festivais... Quer dizer, tudo isso é o dia--a-dia da cidade, é aquilo que nos entra pela porta aqui da câmara e nos obriga a dar resposta rápida. Depois há uma outra parte: a nossa agenda de transformação da cidade.

Neste primeiro ano de mandato mudou muito a sua visão de Lisboa?

Estamos sempre a aprender coisas novas e a ver novas complexidades na cidade. O António Costa disse-me uma vez que a questão fundamental da gestão de uma cidade era saber gerir os conflitos. E, de facto, é muito isso. Saber entender a cidade é saber entender que estamos sempre a lidar com escolhas.

Conflitos de pessoas, conflitos de interesses, conflitos de vizinhança, conflitos políticos...

Desde os assuntos mais simples aos mais complicados. Dos mais genéricos aos mais pessoais. Quando desenhamos uma ciclovia, estamos a arbitrar o que é o espaço que vai para o automóvel, o que fica para o pedonal, o que vai para o novo meio de transporte. Quando tomamos uma decisão sobre qualquer licenciamento é isso que está em causa também. Quer dizer, quando eu digo "conflitos" é nas diferenças que estou a pensar, não significa que sejam mesmo choques com visibilidade. Muitas vezes são diferentes sensibilidades sobre a cidade. Por exemplo quando discutimos a questão do ruído, que é das mais importantes na vida da cidade...

... A relação entre moradores e bares, discotecas, é isso?

Há a necessidade de compatibilizar dois objetivos diferentes. A necessidade do sossego, ou seja, o descanso das pessoas, a que todos têm direito, mas também o facto de a cidade precisar de vida noturna, intensa, vibrante e dinâmica. Não queremos uma cidade chata.

Lisboa passou a estar no roteiro turístico. Isso expôs a tensão entre moradores das zonas antigas (ou talvez os lisboetas que olham de fora para estes bairros históricos) e o espaço que hotéis, hostels e etc., vão ocupando. O que lhe parece este debate?

Em primeiro lugar, é importante sublinhar que não haverá bom desenvolvimento turístico sem que a cidade esteja equilibrada do ponto de vista dos residentes. Eu não acredito que haja desenvolvimento turístico sustentável feito de costas voltadas para os moradores.

Até para os próprios turistas interessa que Lisboa não se transforme num parque temático.

A questão está em saber se somos ou não consequentes com essa preocupação.

Com a mudança do governo, temos finalmente condições para mudar a lei das rendas e afinar a reabilitação urbana

O programa Lojas com História, que deveria proteger algumas atividades que ainda resistem, tem andado a passo de caracol. É só fogo-de-vista?

O programa vai ter uma importância grande do ponto de vista da proteção desse comércio e da proteção da identidade da cidade. Estamos muito empenhados em que isso aconteça. Agora, o ponto central para a eficácia desse programa está em dois elementos: em primeiro lugar, um processo de classificação das lojas - identificar, com um conjunto de critérios, quais as que necessitam dessa proteção. Os critérios já estão aprovados pela câmara, foram propostos pela comissão de acompanhamento. O trabalho já está iniciado e, em breve, avançará.

Estamos a falar de quantas lojas? Trezentas?

Menos do que isso, mas o critério pode ser alargado. Em minha opinião, é possível que venha a ser alargado. Estamos nessa discussão há mais de um ano. Mas há outro ponto importante: a classificação dá direito exatamente a quê, a que tipo de salvaguarda? Isso tem de ficar claro. Além disso, é preciso perceber qual tem sido o grande fator de ameaça a estes negócios, para o corrigir. Para mim, não há dúvida: a causa está na lei das rendas. Neste momento, tenho a fundada expectativa de que, com a mudança do governo, temos finalmente condições para promover a mudança da lei do arrendamento e também a afinação da lei da reabilitação urbana.

Em que sentido?

Antes disso, deixe-me sublinhar o seguinte: estamos a falar de uma ameaça ao comércio que tem viabilidade económica. São lojas que faturam e funcionam, têm clientes e mercado. Na lei do arrendamento ainda em vigor ficou [definido] que o arrendamento comercial pode ser denunciado no prazo de cinco anos, mediante indemnização, qualquer que seja a situação e a classificação das lojas. Estamos, portanto, a falar da loja mais moderna ou da loja histórica. Nenhuma se safa. Esta fragilidade faz com que qualquer loja, mesmo as que têm condições para pagar as rendas atuais, possam ser despejadas por simples conveniência do proprietário, como se não houvesse um outro valor a preservar: a autenticidade da cidade.

Não é justo que o dono possa dispor do seu património, ainda por cima indemnizando?

No caso das lojas com história, o pagamento da indemnização nunca pagará aquilo que é o seu valor intrínseco, o valor para o conjunto da cidade, a tal preservação da autenticidade de Lisboa. A mesma coisa acontece na lei de reabilitação urbana. Na atual lei, a reabilitação integral dos edifícios dá logo direito à resolução do contrato de arrendamento.

O proprietário que decide reabilitar por inteiro o edifício fica com o poder de afastar o inquilino.

Tal qual. E afastá-lo não só temporariamente mas definitivamente. Resolve o contrato. Ora, o que nós propusemos a este governo é que é preciso encontrar uma forma de garantir que nas lojas que os municípios classifiquem como históricos não haja lugar à resolução do contrato. Isto permitirá salvaguardar aquilo que o município venha a definir como o património da cidade, que transcende, de certa forma, o mero âmbito da propriedade privada e que merece ser protegido.

Protege-se o património físico e protege-se o património cultural, mas o cria-se um entrave ao proprietário, que deixa de ter incentivo para gastar dinheiro na obra do edifício. Voltamos ao antigamente?

É uma situação mais limitadora do que a atual, é verdade, mas neste caso é essencial fazê-lo, porque a total liberalização significará o fim de elementos essenciais de autenticidade de Lisboa, elementos que ajudam a definir e a preservar a nossa identidade quer como cidade quer como ativo turístico. A nossa cidade não será a mesma se estas lojas não forem protegidas.

Lisboa é uma cidade muito degradada. Logo aqui à frente, na Praça do Município, tem um edifício abandonado. Não está a condicionar o mercado cedo de mais quando ainda há tanto a fazer?

O imóvel aqui à frente vai ser adquirido pela câmara... Repare, não me parece que haja o perigo de condicionar em excesso nada. Estamos a falar de um conjunto limitado de entidades. São 150, 200 lojas que serão classificadas. E esta proteção não impede que se faça um hotel em cima. Não vejo que isso seja incompatível. Pode haver coabitação. De qualquer maneira, repito: não estamos a falar de uma medida generalizada, estamos a falar de um conjunto limitado de edifícios numa zona específica de Lisboa.

Nas zonas históricas.

Sim, está fundamentalmente concentrado nas freguesias históricas. Julgo que esta medida valorizará os imóveis, valorizará a zona, solidificará por isso o investimento de médio prazo, o que ajuda a cidade.

Lisboa está longe de atingir a saturação turística de cidades como Barcelona?

Do ponto de vista dos números isso é uma evidência. Nós não temos o direito de desperdiçar o contributo de um setor económico, o turismo, para o emprego e para a riqueza da cidade. Não temos esse direito! O que nós temos é a obrigação de não pôr em causa os equilíbrios de Lisboa. Veja a regulação dos tuk-tuks. A partir de 1 de janeiro de 2017 serão todos elétricos.

Demorou mas aconteceu.

A regulamentação foi aprovada, creio eu, quando devia ter sido aprovada. Vamos lá ver. Tudo tem de ser feito com ponderação, não é? Também havia quem dissesse que deveríamos acabar com os tuk-tuks e outros que achavam que tudo devia ficar como está. O que nós fizemos foi aprovar regulação que me parece sensata do ponto de vista do desenvolvimento. Isto é, a atividade deve manter-se, porque ela é procurada e é vista como uma ativo, apesar de não ser um produto tradicional, mas deve funcionar com certas balizas.

Quantos tuk-tuks há em Lisboa?

Mais de cem. Não é, repito, um produto tradicional português [risos].

Passou a ser.

Ainda não ganhou essa categoria. Mas é algo que tem ganho expressão e por isso não deve ser extinto. Agora, a atividade deve estar regulada do ponto de vista dos seus impactos, daquilo que é visto pelas pessoas como tendo consequências negativas no dia-a-dia. O ruído e a poluição, por exemplo. Foi por isso que limitámos algumas zonas em que não permitimos o acesso aos tuk-tuks e criámos a obrigatoriedade, a partir de janeiro de 2017, de serem todos elétricos. Por que razão é que fizemos em 1 de janeiro de 2017? Porque houve pessoas que investiram nessa atividade. Não seria sensato, de um dia para o outro, dizer: "Acabou, desculpem lá. Tem de ser de outra maneira." Temos de respeitar quem investe na cidade. E acho que foi um bom ponto de equilíbrio. Resolvendo estes pontos, o que também implicou a introdução dos horários de circulação e colocação de zonas de paragem para recolha e largada de passageiros, os turistas aproveitam, os empresários também, e os lisboetas não sofrem efeitos negativos.

Há pouco falámos do ruído e dos bares. Vêm aí regras apertadas para a noite, isso não ameaça o turismo?

As regras são mais apertadas do ponto de vista das condições dos bares e de todas as unidades em certas zonas da cidade. Mas, por outro lado, são mais flexíveis relativamente à zona ribeirinha, onde há menos conflito com os moradores.

Portanto, incentiva o desenvolvimento da noite de Lisboa para essas zonas e cria um condicionamento nos centros históricos, como o Bairro Alto.

Um condicionamento maior, sim.

Mas aí também houve gente a investir e agora mudam as regras...

A diversão noturna nesses bairros onde há habitação funcionará num determinado regime, mas continuará a ter relevância. Tem apenas de haver equilíbrio. É uma escolha política, claro, mas criamos alternativas. Além disso, temos outra preocupação: percebemos que a diversão noturna está a mudar. Hoje, muito do que se passa acontece na rua e envolve muito o circuito de lojas de conveniência. Ora, o regime das lojas de conveniência vai ser mais apertado do ponto de vista da venda de bebidas e dos horários, com as colocações dos referenciais de horas entre as 22.00 e a meia-noite. Isto depois terá de ser afinado com cada junta de freguesia, com cada zona de loja de conveniência, porque elas servem propósitos diferentes umas das outras: há algumas que estão em zonas tipicamente de diversão noturna e outras servem os residentes.

Nas zonas de bares e discotecas é provável que essas lojas tenham de fechar mais cedo...

Não, a venda de álcool é que fica limitada, é essa a ideia.

Os donos dos bares ganham com isso, não é?

Aqui a questão central é a do ruído e a questão da compatibilização do ruído com o descanso. Quer dizer, se a fonte do ruído, hoje, já não se regula exclusivamente através dos horários dos bares, passa por aquilo que acontece na rua. Então temos de intervir aí.

Tenho bastante convergência de opiniões com o ministro da Cultura, João Soares, relativamente a vários pontos

Voltemos atrás. O turismo hoje em Lisboa está muito centrado em certas zonas. A oferta para os turistas é limitada ou está bem assim?

O turismo de Lisboa concentra-se em três grandes zonas: Baixa, Castelo e Chiado; zona de Belém e Expo. A grande parte do alojamento turístico está concentrada na zona do Marquês de Pombal para cima. Cerca de 70% das camas estão entre o Marquês de Pombal e a Praça de Espanha. A maior parte não está aqui, na Baixa. Parece-me importante que tenhamos uma estratégia que desenvolva novas centralidades turísticas que estejam para lá destas que referi. Vou dar alguns exemplos. Nós apoiamos o projeto de expansão do Museu Nacional de Arte Antiga. Acho que era importante termos um projeto de valorização da zona dos palácios da Junqueira. Era importante termos um projeto de desenvolvimento do Palácio da Ajuda. É importante valorizar o centro histórico de Carnide como local de atração turística.

É mais ousada, essa proposta.

É mais ousada, sim. Vou dar-lhe o exemplo do Paço do Lumiar. Temos aquele tesouro, mas não é colocado no mapa como centro de atratividade turística. Ou, por exemplo, um caso mais próximo: a reconfiguração da Praça de Espanha. A ligação direta da Avenida de Berna à Calouste Gulbenkian e da António Augusto de Aguiar à Avenida dos Combatentes permitirá que haja um grande jardim. Isto cria uma centralidade cultural de grande importância.

E isso tem de ser feito em coordenação com o governo. Coordena-se com o ministro João Soares?

Sim, sim. Várias vezes. E há bastante convergência de opiniões relativamente a vários pontos destes projetos.

O conflito e a demissão no CCB foram tratados consigo na altura pelo ministro da Cultura? O afastamento de António Lamas foi decidido também com a câmara?

É preciso separar. A opinião da câmara, que transmiti ao ministro da Cultura, é de que a existência da Estrutura de Missão para a zona de Belém-Ajuda devia ser extinta. Já o tinha dito numa Assembleia Municipal. Aquilo era um absurdo. No nosso país estamos sempre a inventar estruturas para duplicar trabalho.

Mas tem vantagens, acaba por acelerar os projetos.

Este é, aliás, um excelente exemplo de como apenas se perdeu tempo. Nada acelerou. Criar um novo conselho de administração, com gestores públicos, para depois, mais tarde, criar uma empresa para gerir uma parte do território de Lisboa, com franqueza... era tudo o que nós não precisávamos.

O turismo na Baixa não afasta os residentes, porque eles já cá não estavam. Há um profundo problema de desertificação

Fez referência ao facto de a maior parte dos hotéis estarem na zona do Marquês de Pombal. Significa que a construção de novas unidades noutras zonas deixa-o confortável?

Convém distinguirmos as realidades de Lisboa. Em primeiro lugar, a Baixa de Lisboa, da Rua da Madalena à Rua do Crucifixo: são quarteirões onde se vive há décadas um profundíssimo problema de desertificação. Por isso, quando ouço determinado tipo de vozes a clamar contra esse risco, o problema do excesso de hotéis e hostels... Com franqueza, a minha preocupação é outra. A minha preocupação não é olhar para os prédios que estão reabilitados e que eventualmente já são unidades hoteleiras. A minha preocupação é olhar para os prédios que ainda não estão reabilitados e para a necessidade que temos de que essa obra acelere. Não creio que haja qualquer risco de expulsão de pessoas. Não há lá residentes!

Há ainda assim há alguns moradores, pessoas mais velhas.

Em algumas zonas, noutras nem isso, o que tínhamos era mesmo desertificação completa. Sinto que tenho a felicidade de estar a ocupar funções neste novo tempo mais dinâmico e com mais investimento privado. Porque todos os meus antecessores viveram todos com uma grande ambição: a recuperação da Baixa. Era um desígnio da cidade há décadas. Tivemos estruturas de missão, equipas de missão, chegámos a ter empresas... e não resultou.

O turismo serviu de alavanca?

Existem outros fatores. A política monetária que hoje estamos a viver tem um impacto grande do ponto de vista do parque imobiliário. Não só estimula a compra de casa como também incentiva o investimento imobiliário. Depois há ainda outras ajudas, como a redescoberta de Lisboa, a que se associam questões de natureza fiscal e geopolítica. O Norte de África e Médio Oriente, destinos de investimento, nomeadamente de investimento francês, agora têm a concorrência de Lisboa. Tudo isso introduz uma dinâmica que a cidade não via há muito tempo. Acho que não temos o direito de a desperdiçar. Dito isto, pergunta-me: o turismo na Baixa afasta ou não aos residentes? A resposta é evidente: não afasta, porque eles já cá não estavam.

Não é o caso de Alfama.

Onde é preciso, digamos, maior delicadeza é de facto na zona de Alfama e talvez na de Santo António. Agora, vamos lá perceber a complexidade do fenómeno. O fundamental do alojamento local é feito na base de um apartamento por prédio ou de dois apartamentos por prédio. Este tipo de alojamento local teve uma importância muito grande em suportar a cidade durante a crise. Há muita gente que tem casas em alojamento local e que, num momento de aperto, teve de arrendar. Eu falo até de uma situação mais prosaica: as pessoas que têm a sua casa e que em determinada altura a alugam para alojamento local e vão ficar 15 dias em casa dos pais ou dos amigos e utilizam isso como fonte de rendimento. Esta situação é muitíssimo frequente em Lisboa. O alojamento local não é só nem é maioritariamente um negócio de investidores profissionais. É muito uma dinâmica de investimento e de fonte de complemento de rendimento de proprietários isolados. Aliás, basta ver os anúncios que estão colocados nos sites e percebe-se imediatamente.

Quando o investimento chegou ao Algarve, não havia instrumento de ordenamento e planificação territorial. E é o que se vê

Essa é uma dinâmica. Mas também há investidores institucionais...

O que está a ter importância nos bairros históricos não é de todo essa, é a que está a ser conduzida pelos próprios proprietários e pelos residentes dos bairros históricos. Ora, numa primeira fase, isto até pode afastar alguns moradores, no sentido de dizer que estas pessoas viviam lá e saíram, temporária ou definitivamente. Mas a questão é que isto tem um impacto social positivo do lado do proprietário, do pequeno proprietário e, muitas vezes, do microproprietário que nunca teve qualquer fonte de rendimento que não de despesa com uma casa num bairro histórico. Já o disse: eu valorizo as preocupações com a manutenção da autenticidade. Valorizo muito e levo-as muito a sério. Porque não é só uma questão de preservação da nossa cidade, é preservação do ativo turístico de Lisboa. Não tenho uma visão nem de dramatismo nem uma visão simplista. Não podemos impedir que hoje alguém compre uma casa em Alfama e que esse investidor seja uma pessoa de maiores rendimentos ou, até, de outra nacionalidade. Não se pode nem deve regular nesse sentido, é impossível, seria descabido.

Chegam-lhe pedidos desses?

Sim, vão chegando, aqui ou ali... Tenho a sensibilidade para perceber as tensões de quem vai vivendo isto no quotidiano. Tenho menor sensibilidade para a expressão do saudosismo, só como elemento de saudosismo. Não seria desejável impedir os proprietários de Alfama de venderem as suas casas. Com franqueza! Além do mais, era socialmente mais injusto. Nós estamos a falar, para alguns, da primeira geração que tem a oportunidade de ter rendimentos com determinado tipo de imóveis. É bom notar que há uma grande diferença no desenvolvimento do turismo em Lisboa face àquilo que aconteceu noutras zonas do país.

Está a falar do Algarve?

Estou a falar do Algarve. Há uma enorme diferença, para melhor. Quando o investimento chegou ao Algarve, não havia instrumento de ordenamento e planificação territorial. E é aquilo que se vê. Aqui, os instrumentos estão aprovados, estão delimitados e estão efetivos. E é por isso que estamos a ver grande parte do investimento canalizado para a reabilitação, uma reabilitação que nós gostamos e que achamos bem. Penso que ninguém a questiona. Não é tema de debate que a reabilitação não está a acontecer, que está a ser mal feita, que estamos a desvirtuar o urbanismo da cidade.

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