"É preferível manter o Novo Banco mais algum tempo no Fundo de Resolução"

"Este foi um ano relativamente fácil para o governo e para os partidos à sua esquerda que o apoiam. Foi fácil porquê? Porque foi o ano da distribuição, ou seja, foi o ano das medidas de reversão", considera o antigo ministro da Segurança Social Bagão Félix

A polémica do momento, daquelas de que gostam os políticos e os jornalistas, faz-se à volta da descida da TSU, da Taxa Social Única, para compensar os empresários por causa do aumento do salário mínimo. O senhor considera que a medida é errada, do ponto de vista económico, mas tendo havido acordo na Concertação Social, justifica-se, na sua opinião, este braço de ferro político entre Partido Socialista e PSD?

Bem, quando à medida em si, eu estou em desacordo com ela por várias razões, mas uma delas é fundamental para responder à segunda parte da sua questão. É relativamente fácil chegar ao acordo relativamente a uma parte que interessa aos dois lados, ao sindical e ao patronal, quando há um terceiro pagador, neste caso os contribuintes. E como havia um terceiro pagador da medida da Taxa Social Única - contribuintes e/ou beneficiários da Segurança Social -, mandaria a prudência que o governo, tendo em conta a importância do consenso, do acordo social, cuidasse também da concertação política. Ora, o governo foi imprudente - não tratou da concertação política -, pois até sabia de antemão que os partidos que são seus companheiros na coligação, entre aspas, que sustenta o governo, se oporiam à medida. Nesse sentido, deveria ter iniciado conversações com o PSD, que era o único partido que, pelo menos pela abstenção, lhe faria aprovar esta medida, e isso não aconteceu.

Contou que houvesse a mesma atitude por parte do PSD que houve no Orçamento anterior?

É uma boa questão. E é uma questão para a qual eu próprio não tenho uma resposta confortável, por várias razões. A primeira, é a questão da coerência ou da incoerência. Em abstrato, o PSD e Pedro Passos Coelho foram incoerentes. Aliás, é a terceira vez que isto acontece. A primeira, o PSD fez muito bem em contribuir para a aprovação do Orçamento Retificativo, por causa do Banif. De algum modo, também se sentia corresponsabilizado. Fez muito bem, na minha opinião, ao abster-se numa votação semelhante a esta, da Taxa Social Única, em fevereiro ou março do ano passado. Para uma situação que não era exatamente igual - a própria dimensão da taxa social era menor -, mas fez bem em abster-se, porque estávamos no início de um governo e não faria sentido que houvesse uma posição política tão de obstrução. Bem, passou um ano. Passou um ano e, apesar de tudo, o contexto é diferente. Nesse sentido, durante estes 12 meses, na minha opinião, o PSD - também por culpa própria, em parte, mas também por culpa do governo -, os dois partidos ou o governo e o PSD não foram capazes de estabelecer um denominador mínimo comum para algumas questões essências.

Como estas que são matérias de Concertação Social.

Como estas, sim. Porque, repare bem, este ano foi um ano relativamente fácil para o governo e para os partidos à sua esquerda que o apoiam. Foi fácil porquê? Porque foi o ano da distribuição, ou seja, foi o ano das medidas de reversão. As medidas de reversão, naturalmente, são populares. Concordemos ou não concordemos com elas, mas, de um modo geral, são populares: diminuir o número de horas de trabalho, acelerar...

Os feriados. Voltar a repor feriados.

Sim, a repor feriados, acelerar a devolução dos salários - que, aliás, já estava prevista também pelo PSD, embora mais lentamente -, a questão da sobretaxa. Pronto. E está esgotado o programa da reversibilidade da austeridade que havia sido programado. O que sucede a partir de agora é que, aparentemente, tanto quanto é possível prever, as políticas são mais de divergência do que de convergência entre o PS, o PCP e o Bloco de Esquerda. Porquê? São medidas que não têm tanto a ver com a distribuição, mas têm a ver com a criação de riqueza.

Nós já vamos voltar aqui, à TSU. Deixe-me dar só um salto no nosso alinhamento. Tem a ver com o facto de, entrando em ano de eleições autárquicas, antevê que entre os partidos da maioria parlamentar, por um lado, mas também dos partidos da oposição, aumente a crispação política e os antagonismos se tornem mais evidentes?

Não creio. Eu não dou tanta importância à extrapolação nacional das eleições autárquicas. As eleições autárquicas têm um código genético diferente das eleições gerais. É claro que no dia a seguir, nos dois ou três dias a seguir aos resultados faz-se sempre alguma especulação sobre isso.

Mas eu falo é de...

Antes. Antes.

Antes de chegarmos lá, não vai haver uma tentação de criar algumas polémicas artificiais para o PCP e o Bloco se distanciarem do governo?

Não. O PCP tem as suas autarquias mais ou menos seguras. O Bloco de Esquerda não tem peso autárquico. O próprio PSD tem dificuldades ao nível das grandes câmaras. E, portanto, não estão em posição de acicatar essa questão no antes eleições autárquicas. Eu creio que as questões que vão surgir, se surgirem, e admito que sim, são mais deste tipo. Ou seja, agora verdadeiramente o que emerge, no seio da maioria que apoia o governo, são questões em que há desacordo: a questão orçamental, a questão do euro, a questão das parcerias público-privadas, a questão da fiscalidade, etc. etc. etc. Ou seja, até agora esta maioria foi uma maioria que raramente se tornou minoria. Este é o primeiro exemplo de uma maioria que se pode tornar, em alguns casos, em minoria, o que não deixa de ser desconfortável para...

Para o governo e para o Partido Socialista.

...para o partido no governo, para o Partido Socialista.

De qualquer forma, o governo chegou a dizer que haveria um aumento do salário mínimo para os 557 euros e havia, aliás, um acordo político à esquerda para que se chegasse a esse valor.

Sim, sim.

Depois cedeu, em busca de uma acordo que era pedido, nomeadamente pelo Presidente da República. Acha que, também aqui politicamente, houve uma cedência por parte do ministro Vieira da Silva e do primeiro-ministro àquilo que era pedido pelo Presidente da República?

Não. Sinceramente, não creio. Acho que o senhor Presidente da República fez - e, em meu entender, bem - o seu papel de magistratura de influência, que, aliás, [ri-se] é muito ativa. Não é uma magistratura passiva, é bastante ativa. E fê-lo bem, não é? Acho que o Presidente da República naturalmente quer que haja sempre um valor patrimonial da Nação portuguesa, que é a estabilidade: a estabilidade social, estabilidade política. Independentemente de concordar ou não concordar com as soluções, desde que o que esteja decidido e acordado contribua para essas estabilidades, tanto melhor. Portanto, nesse aspeto, fez bem. Agora, levanta aí uma questão interessante, se me permite, que é a circunstância do papel da Concertação Social. Eu, há pouco, já referi que a Concertação Social é importantíssima, faz parte dos estados contemporâneos, abraça a ideia de um Estado Social adulto, maduro, consistente, estável. Mas acontece também que isso não deve substituir a câmara certa da representação do povo português, que é o Parlamento e a sua emanação governamental. Eu acho que - não é de agora, já é de há muito tempo a esta parte - a Concertação Social transformou-se numa espécie de câmara corporativa. Não estou a dizer isto no sentido negativo, mas no sentido de que era quase obrigatório que aquilo que é uma condição necessária se transformasse numa condição suficiente para a adoção de medidas.

Mas o que acontece agora também, pela primeira vez, é que o Parlamento funciona como uma sede de recurso para aquilo que se decidiu...

Claro, claro.

Também não é bom para a concertação. Esvazia a Concertação Social.

Não esvazia a Concertação Social, na minha opinião. Aliás, olhe, uma das afirmações que esvaziou a Concertação Social neste caso concreto foi a afirmação do governo dizendo logo aos parceiros sociais que, acordemos ou não acordemos, o salário mínimo nacional vai mesmo ser de 557 euros.

Será de 557 euros. Era nesse sentido que eu falava de esvaziamento.

De acordo com o estabelecido entre os três partidos ou os quatro partidos que sustentam o governo. Isso é que não é fortalecer e robustecer a Concertação Social. Depois, é muito fácil fazer Concertação Social, como eu lhe disse, havendo um terceiro pagador.

É uma parte. Quer dizer, o aumento é de 27 euros, o governo compensa com cerca de seis, não é?

Mas, ouça, há aí um paradoxo nesta medida toda. Eu sei que isto é discutível e a minha opinião é apenas a minha opinião. Mas há um paradoxo, que é o seguinte: não pondo em causa a justeza e a justiça e a dignidade do salário mínimo nacional, do seu aumento, nós estamos perante uma economia que, pelos vistos, não é capaz de o absorver. Alguma coisa está mal, nisto. Alguma coisa está mal! É a economia? É o salário mínimo nacional? Não sei, mas alguma coisa está mal. Quando é preciso subsidiar as entidades empregadoras em parte para compensar um aumento de 5% do salário mínimo nacional, alguma coisa está mal. Mais vale ir às causas, do que propriamente andarmos todos a...

Sim. Esta é uma medida provisória mas que se repete ano após ano.

Pois, essa é uma questão. Essa é uma questão interessante pelo seguinte: uma das críticas que se tem feito a esta questão da Taxa Social Única e do aumento do salário mínimo nestas condições é a de isso levar os empresários a... Bom, vou dar um exemplo. Em vez de contratar por 600 euros, o empresário diz: "Não, o melhor é contratar por 557 euros, porque assim vou ter um subsídio do Estado perpétuo...

O que se aplica, o desconto que se aplica é sempre a contratos que já existem.

Ora, exatamente! É isso mesmo! Essa tese cai, porque, quer este diploma, quer os dois anteriores - o de 20144 e de 2015 -, considerava que isto só se aplica a trabalhadores admitidos até ao dia 31 de dezembro do ano anterior e que ganhem o salário mínimo nacional da altura. Portanto, essa questão está posta de lado. Mas acontece que - e é por isso que eu me lembrei, face à sua pergunta - que a medida, como aliás é habitual em Portugal, as medidas transitórias às vezes são transformadas em quase-definitivas. Pelo menos até aos 600 euros, que é o que está acordado entre os partidos da maioria, é provável que isto continue a acontecer. Então, se não tem esse efeito imediato, tem o efeito a prazo. Ou seja, um empregador diz assim: "Bem, eu podia contratar por 600 euros, mas vou contratar por 557 euros..."

Porque, à frente, vou ser compensado.

Como quem diz: "Este ano não vou ser compensado, mas, para o ano, já sou apanhado pela medida". E, portanto, esta transitoriedade que é repetida vai gerando expectativas e vai tendo, também do ponto de vista dos trabalhadores mais indiferenciados, de facto, uma lógica de ponto de acumulação no salário mínimo nacional.

Podemos presumir que não vê inconvenientes em que a descida da própria TSU não seja aprovada, mantendo, ainda assim, o aumento para os 557 euros do salário mínimo?

Sim, sim, sim. Acho que sim. Eu sou a favor desse aumento e acho que uma economia e empresas que não suportam este aumento, alguma coisa está mal. Por exemplo, há dois setores da atividade económica onde a incidência do salário mínimo nacional é muito grande: restauração e turismo. Há outras, mas estou a citar estas. A restauração teve um beneficio que não repercutiu no operacional dos consumidores, em termos gerais, obviamente, em termos macro, que foi passar o IVA de 23% para 13%. O turismo é uma atividade que, felizmente, está em grande expansão. Mas deixe-me só, se me permite, fazer duas referências sobre esta matéria, a propósito da representatividade da Concertação Social. É que, além do mais, a Concertação Social precisa sempre de ter o suporte da decisão política, como é óbvio, e aí, quando há um governo que não tem ou que pode não ter maiorias ocasionais, como é este agora, evidentemente que os deputados sentem que não estão a pôr apenas um selo aprobatório na medida, sem pensar nisto. Portanto, nesse aspeto, também podemos ver pelo lado positivo esta questão, há uma discussão política sobre o assunto. E também porque a Concertação Social não inclui todos os representantes. Do lado dos sindicatos, há cada vez menos sindicalizados e há sindicatos independentes.

Que não estão lá.

Não estão lá. Do lado patronal...

Também há...

Olhe, eu vou-lhe citar. O setor financeiro não está lá: banca, seguros. Por exemplo, aquela questão de generalizar esta medida às instituições particulares de solidariedade social e às misericórdias resulta de também não estarem lá, não há ninguém que os represente. Dai, mais uma razão, em meu entender, que justifica, não só formalmente, mas substantivamente, a aprovação no fórum certo, que é o fórum político. Só mais uma questão. Diz-se que a Segurança Social perde receita, com uma medida destas, mas mesmo assim ganha porque o salário mínimo aumentou. Isso é verdade. Indiscutível. Mas essa não é...

São cerca de 40 milhões de euros.

Sim, mas essa não é a questão. A questão é a seguinte...

Mas há encargos futuros que também serão maiores por causa disso, não é?

Ora, exatamente! A questão é a seguinte: se o sistema estiver relativamente equilibrado, as contribuições devem corresponder aos encargos futuros com desemprego, doença, maternidade e pensões. Se se está a tirar uma parte, está-se a desequilibrar o sistema. E para quem -tanta gente - anda a pregoar aí o óbito, o obituário da Segurança Social, enfim, eu pergunto se é correto estar a financiar as entidades empregadoras numa situação de um aumento de salário mínimo nacional, face a outras perspetivas...

Até por ser temporária, devia ser o Orçamento do Estado, se esta medida seguisse.

Sim, sim. Agora é 50% e o Orçamento prevê que, para o ano, já será o Orçamento do Estado. Isso, apesar de tudo é mais correto. Mas o almoço nunca é grátis, como é óbvio. Mas pelo menos aí não vai erodir a base contributiva da Segurança Social.

[...]

O crescimento económico, tendo acelerado no segundo semestre de 2016 - o ministro das Finanças, numa entrevista ao Diário de Notícias e à TSF, assegurou que será superior aos 1,2% previstos pelo governo -, está claramente, ainda assim, abaixo do necessário para resolver o problema da criação de emprego e da gestão da dívida. Em que é que está a falhar este governo? Em que é que têm falhado os governos, sucessivamente, para não conseguirem o crescimento económico que o país precisa, em sua opinião?

Pois, este crescimento económico é muito débil. É inferior, aliás ao de 2015. Foi de um 1,5% ou 1,6%. Vamos lá a ver, os governos, hoje em dia, contribuem numa porção relativamente diminuta - leia-se isto um pouco entre aspas - para o crescimento ou para as questões económicas. Grande parte delas são decididas e geridas fora do país, no contexto da união económica e monetária, outra parte depende do ambiente, da confiança, dos mercados externos, da globalização - por exemplo, o caso das exportações, não é. Em todo o caso, quais são as armas que os governos têm ao seu dispor para poderem fazer alguma coisa? Em primeiro lugar, a arma de estimular ou não o investimento. Quer o investimento público - e esse investimento público está reduzido quase a zero...

Quase não existe.

Quase a zero. O que, aliás, tem contribuído negativamente - tem contribuído, mas é uma contribuição que não é positiva - para, por exemplo, um défice abaixo de 3%. Com um investimento razoável, nós estaríamos acima, um pouco acima. Isso criaria alguma dívida, mas na dívida e no investimento temos de distinguir o trigo do joio, não é?

Sim, há boa e má...

Há o bom e o mau, exatamente. E é a estabilidade - eu, há pouco, apresentava-a como elemento patrimonial do desenvolvimento - e, naturalmente, a política fiscal e orçamental.

Pois, aí, deixe-me lembrar, defendeu limites constitucionais para a cobrança de impostos, indexando ao PIB do país.

Sim. Sim, sim, sim, sim. Acho que sim.

Já esta cobrança brutal de impostos é, na sua opinião, fator crucial para impedir um maior crescimento da economia?

Sim, sem dúvida. Vamos lá a ver! O que é que é um imposto? Quando se cobra um euro de imposto, está-se a retirar esse euro à economia. Utilizando a linguagem própria dos economistas, o que nós temos de pesar é se a utilidade marginal de um euro cobrado pelo Estado, e que será despendido pelo Estado, é superior à desutilidade marginal do euro que se retira à economia. Certo?

Se ele fosse para investimento público, ainda havia alguma razoabilidade...

Claro. Mas, por exemplo, quando nós discutimos... Sei lá! Anteriormente discutimos os TGV e os aeroportos e as grandes obras - é essa questão que se coloca e deve colocar política e tecnicamente. Neste contexto, eu acho que o nosso sistema fiscal é um sistema que penaliza o investimento. E penaliza-o de várias maneiras - não interessa aqui estar a referir muito isso -, mas a questão, a equação orçamental cada vez mais (e isto, nós andamos sempre a dizer isto, mas é verdade e eu reconheço isso), mas cada vez mais se está a atingir o limite acima do qual já não é possível pensar em crescimento estável e sustentado.

Parece, mas depois vem um governo e consegue subir mais um bocadinho.

Pois consegue, na margem. Aliás, criatividade fiscal é o que não falta nos governos. Como dizia Colbert, o ministro das Finanças de Luís XIV: "Cobrar impostos é como depenar um ganso, tirar-lhe o maior número possível de penas com a menor gritaria possível". E é por isso que se tem ido para os impostos indiretos, que são mais anestesiados.

Percebem-se menos.

Mas têm perversidades, do ponto de vista de desincentivos ao crescimento, muito grandes. Olhe, vou-lhe só citar, dar um exemplo a propósito da Taxa Social Única e a propósito do IVA da restauração, de que falámos há bocado. Por exemplo, uma medida que teria sido preferível - eu sei que a restauração não gosta nada do que eu vou dizer - mas em vez de passar o IVA da restauração de 23% para 13%, devia-se ter diminuído o IVA da energia, da eletricidade, que passou de 6% para 23%. Isso beneficiava toda a gente, era mais justo, porque a eletricidade ninguém pode deixar de consumir.

Na última colocação de dívida, há 10 anos, Portugal já pagou os juros acima dos 4,2%. Há um limite para o nível de juros que Portugal conseguirá pagar com o atual crescimento económico?

Vamos lá a ver, a dívida pública, o custo da dívida pública, o custo implícito total do stock da dívida pública anda à volta de 3,5%, se a memória não me falha. Ou seja, é um custo superior ao crescimento nominal do PIB, ou seja, PIB real mais inflação. Portanto, 3,5% é superior a PIB, 1,2%, mais inflação, 0,7%: vamos falar de 3,5% contra 2%.

Certo.

Logo, nós estamo-nos a endividar para pagar juros, não é para pagar capital. Ora, isto é um garrote sobre o crescimento que é impossível sustentar muito tempo. E é por isso, de facto, que no contexto de uma união monetária a questão da dívida devia ser vista não unilateralmente, porque eu não defendo nada disso, mas devia ser vista em termos europeus, em termos globais da união monetária. Repare bem neste ponto: ultimamente a Alemanha teve, de repente, uma inflação de 1,5% ou 1,6%, q ue é uma inflação brutal para a Alemanha. [Risos]. E o que é que aconteceu perante essa notícia? Quando na Alemanha aumentou o custo de vida, em Portugal aumentou o custo da dívida. Quer dizer, os reflexos da inflação na Alemanha surgiram logo no custo da dívida em Portugal, o que é um paradoxo.

Acha que são os fatores externos que estão a pesar sobre o preço que nós pagamos pela dívida?

Não. Vamos lá a ver, é ao contrário. São os fatores externos, e em particular a política do BCE - que é, paradoxalmente, [risos] a única instituição que faz política na Europa, ao contrário do que deveria ser, não é? -, que, com injeção monetária constante, de 80 mil milhões, e outras medidas de política monetária, que está a contribuir para que os juros não subam. Mas bastou ela anunciar que ia reduzir um pouco o plano da expansão monetária...

Que eles passaram logo os 4%.

...de 80 para 60 mil milhões, e a questão de um ligeiro aumento da inflação e, sobretudo, na Alemanha, para os juros dispararem. A questão aqui se coloca - e à qual o primeiro-ministro não respondeu, quando lhe foi perguntado; pelo contrário, tentou omitir essa situação - é compararmos os diferentes aumentos, não é? E, de facto, o nosso aumento é muito maior para as mesmas circunstâncias externas do que o aumento verificado em Espanha, Itália e Irlanda. É essa parte, esse delta maior que deveria justificar... Olhe! Um consenso político, nesta matéria. Porque esta matéria, esta sim, é verdadeiramente de futuro e é geracional.

Continuando a falar de fatores que têm um peso significativo sobre a economia, nomeadamente os problemas do sistema bancário português, está confiante quanto à solução que precisa de ser encontrada para o Novo Banco? Acredita que esse dossiê não terá mais custos para o Orçamento do Estado, ou seja, para os contribuintes?

Eu sou muito sincero: não estou confiante com nenhuma solução. E, portanto, neste momento não é o second best, mas é o second worst, isto é, o que é que é o menos mau disso tudo. E mesmo assim tenho dúvidas. Eu acho que vender um banco, face, pelo menos, às ofertas que são conhecidas, é completamente errado. Felizmente, o ministro das Finanças disse, e muito bem, que o Estado não dava garantias sobre um side bank, digamos assim.

Disse-o, aliás, aqui na entrevista do Diário de Notícias/TSF.

Exatamente. Mas se, por acaso, essas garantias fossem dadas, obviamente que depois seriam concretizadas, os contribuintes portugueses pagavam para vender um banco, o que não deixa de ser anacrónico.

Não é a primeira vez...

Já não seria a primeira vez. Agora, a questão da nacionalização: a questão da nacionalização é entrar num buraco negro, que sabe como se começa mas não se sabe como acaba.

Ainda que ela fosse temporária?

Sim, tinha de ser temporária, até por questões de regras europeias. Portanto, isso, nem vale a pena discutir.

Certo.

Então, tudo considerado, o que é que eu acho preferível? Acho preferível continuar mais algum tempo, com uma boa gestão profissional, com o capital possuído pelo Fundo de Resolução, que também é uma entidade pública...

Mas isso implica negociar com a União Europeia um prolongamento do prazo.

Sim, claro. Claro.

Aliás, já tinha sido conseguido.

Claro, claro. Sim, sim. Mas implica isso, porque...

É isso que defende.

Não faz muito sentido a nacionalização, porque o banco, indiretamente, está nacionalizado, através do Fundo de Resolução, para o qual o Estado injetou grande parte da verba e que, por sua vez, faz parte do perímetro orçamental.

Em relação à Caixa Geral de Depósitos, ainda a falar de bancos, já ninguém estranha que o banco esteja sem liderança desde o início do ano. Imagina o que aconteceria se tudo isto se tivesse passado assim num governo presidido por Santana Lopes e um ministro das Finanças chamado Bagão Félix?

[Risos]. Não, eu tenho de reconhecer que o contexto, hoje, é mais difícil e, portanto, são situações incomparáveis, não é? Mas evidentemente que num governo desses o escrutínio seria muito mais violento. Porque mesmo com questões relativamente menores, essa questão, o problema não deixou de se colocar, esse tipo de problemas. Mas reconheço que, agora, a situação é mais difícil e é menos controlável pelo Estado português. Faz grande diferença.

Perdemos muita soberania em pouco tempo?

Sim, repare bem. Eu até me sinto incomodado, como português, por uma perda de soberania tão forte que leva a que o Banco Central Europeu, lá de cima, do seu pedestal, diga: "Este candidato a administrador da Caixa Geral de Depósitos sim, este não, este talvez, mas tem de fazer um curso de aperfeiçoamento". Nós entrámos neste ponto! Quer dizer, a nossa soberania relativamente ao sistema bancário... Não existe.

O senhor faz, aliás, parte de um grupo de reflexão que pediu um combate ao excesso de dirigismo das autoridades europeias sobre a reconfiguração do setor em Portugal.

Sim.

Desde que iniciaram essa reflexão, esses trabalhos, há razões para estar mais ou menos preocupado?

Há razões para estar mais preocupado.

Mais preocupado?

Sim. Sobretudo porque a Europa está-se a fragmentar. Quer dizer, depois do Brexit...Vamos lá a ver, a Europa tem sido um falhanço total. Porque, repare, as grandes questões não foram resolvidas e estão sempre a ser postas debaixo do tapete: a questão da política orçamental, a questão do euro, a questão dos refugiados, a questão das offshore, etc. Não se resolve nenhum problema! A Europa, neste momento, caminha num curto rio de inércia.

É uma questão dos dirigentes políticos que temos hoje na Europa ou era um caminho que teria de acontecer, porque, de repente, não houve um federalismo e, portanto, voltam outra vez os nacionalismos quando as coisas correm mal?

Não, há três razões, para mim. Em primeiro lugar, há uma escassez bastante grande de estadistas, ao contrário do que havia nesse tempo. Hoje, estadistas há muito poucos. Em segundo lugar, entendo que foi uma precipitação e uma aceleração o alargamento da União Europeia.

Ao Leste.

Ao Leste. Não que não se devesse ter feito, mas da maneira como foi ela feita gerou um mosaico completamente ingerível. Completamente ingerível. E mais do que isso: completamente hierarquizado. E em terceiro lugar, a construção do euro, que é uma construção do voluntarismo político sem quaisquer bases técnicas aceitáveis. Eu não sou federalista, completamente longe disso. Mas tenho de reconhecer que só pode haver moeda única com alguma federalização, designadamente dos orçamentos. E não houve. E, portanto, o euro é um projeto que igualizou realidades completamente diferentes. É como Portugal e a Alemanha irem para uma prova de 100 metros: a Alemanha só vai percorrer 50 e nós vamos percorrer 120, com as mesmas regras nominais e reais. É um desastre!

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