Carlos Carreiras: "Costa foi um líder paroquial e agora foi chamado para o campeonato nacional"

Foi rebelde na juventude porque teve a sorte de passar a adolescência em pleno 25 de Abril. Carlos Carreiras foi um self-made man, mas o bichinho da política nasceu com os pais, fundadores do PSD na freguesia comunista de Cascais

No gabinete, virado para a baía de Cascais, tem uma secretária de arrumação imaculada. O retrato e o busto de Sá Carneiro, o político que mais o inspira, acompanham-no no trabalho diário de gestão da autarquia. Fuma, muito, enquanto vai brandindo contra os zigue-zagues do governo socialista, que, diz está a empurrar o país para uma nova situação penosa.

É um homem muito mimado? Tem um casamento longuíssimo, cinco filhas...

Tive esse privilégio de estar permanentemente rodeado de mulheres, porque são cinco filhas, mais a minha mulher. E há uma coisa que eu gosto que é de - mas é especialmente no inverno, naqueles dias mais duros - chegar a casa e "ah estou com febre" ou uma coisa qualquer e então elas vêm para cima de mim e mimam-me. Sendo que agora estou a ser substituído por o que eu chamo os inimigos, que são os namorados, que vêm buscar as filhas, - eu trato por inimigos (riso). E eles perguntam, quando é que deixam de ser inimigos, se era quando casavam. Não, é quando me derem um neto. A primeira que nasceu foi uma neta, portanto, esse genro só deixou de ser inimigo agora há pouco tempo quando nasceu o neto.

Esse neto foi o filho que andou à procura?

É uma coisa retrógrada, completamente desajustada, até porque eu acho que o mundo é de facto das mulheres. Mas ainda temos esses estereótipos da continuação do nome de família, o que também hoje já não é verdade. Talvez inconscientemente andasse à procura do filho. Mas no nosso projeto de vida sempre esteve termos muitos filhos. E temos sempre uma casa cheia porque depois não é só os filhos é os amigos e as amigas das filhas, e portanto a minha casa está sempre cheia de juventude. Tem uma grande vantagem, porque eu tenho uma amplitude grande entre as filhas, a mais velha tem 31 anos e a mais nova tem 12, o que nos obriga a ficar jovens durante mais tempo.

E quando apareceu o neto?

O neto ainda está naquela fase... havia aquela canção dos Delfins de quando um homem nasce, nasce selvagem. Eu não digo selvagem porque coitado é um bebé, tem cinco meses, mas ainda é assim um bocadinho, para os homens. As mães adoram, as avós adoram, mas para os homens ainda não tem reação. Tem um sorriso que abraça o mundo, que é uma coisa espantosa. Ela é que quando chega diz "vô" e eu sinto que me desarma totalmente. E, portanto, ainda tenho uma relação, neste momento, maior com ela, com a neta, do que com ele. E também tenho uma especialização maior com elas do que ele.

Vai conseguir jogar à bola com ele?

Vamos ver (risos), quer dizer não sei se já vou ter pernas para isso.

Como é que conseguiu conciliar uma vida profissional intensa e a política com uma família tão numerosa?

Isso é no pressuposto que consegui, não é? Eu acho que não consegui e aí deve-se acima de tudo à minha mulher que é uma companheira que de facto tem feito esse suporte todo de ausências. Sendo que agora tenho para mim, costumo dizer isto, uma melhor qualidade de vida porque pelo menos vou dormir todas as noites a casa. A minha vida profissional nas empresas obrigava-me a estar fora durante longos períodos e muitas vezes. A minha segunda filha era uma coisa espantosa porque quando se apercebia que eu ia voltar a viajar deixava de me falar e quando eu voltava estava sem me falar durante uns dias.

A sua mulher abdicou de uma carreira profissional?

Não. Ela tem uma carreira profissional, é professora universitária, é arquiteta. Agora obriga-nos a desmultiplicar muito.

É fácil sair com a família em Cascais e estar tranquilo?

Mantive a vida exatamente na mesma e frequento os mesmos sítios. As funções autárquicas são sempre de grande proximidade e as pessoas abordam-me às vezes para dar sugestões. Quando me abordam e dizem "ah olhe que eu não venho fazer nenhuma reclamação, nem nenhuma crítica" e eu costumo dizer na brincadeira "ah isso é que não pode ser. Não se pode abordar o presidente da câmara e não ter uma reclamação para fazer".

Mas nunca teve assim um episódio mais complicado?

Não, o único que me lembro e tem também a ver com a família, foi numa sessão em Alcabideche na altura das "grandoladas". Estava numa cerimónia que era de aniversário da junta e estava um sujeito à porta, percebi claramente que aquilo ia criar problemas. Era uma altura em que, enfim, as pessoas estavam muito revoltadas, muito afetadas pela crise que se tinha que colocar para pôr o país nos eixos. E quando saio, vou direito a ele e trato-o por tu e digo "tu não me conheces?" e ele fica assim muito aflito e diz "mas o senhor presidente conhece-me de onde?", "não estivemos presos os dois juntos?", ele diz: "sim eu estive preso", "tu estiveste onde?", ele disse lá um nome qualquer que eu não sabia e eu disse "ah não, então não foi daí porque eu fui aqui do Linhó" e saí. Estavam uns colegas da câmara e disseram "mas o senhor presidente já esteve preso?", eu disse: "eu não, mas resolvi o problema".

Passou a adolescência em São Domingos de Rana. Foi um bom treino bom para ser presidente do município?

São Domingos de Rana é a zona que ainda hoje vive mais assimetrias no concelho, costumo dizer que há a costa do sol, que é aquela que as pessoas conhecem e que identificam, e há a costa da sombra. São Domingos de Rana tem esse outro lado. Ao mesmo tempo eu estudei nos Salesianos do Estoril, portanto também tive noção da outra realidade. E isso leva a que hoje tenha essa perspetiva que é de conhecer bem o município.

"Como as gerações futuras vão olhar para a minha geração? A avaliação vai ser má, vai ser muito má"

Viveu duas realidades diferentes...

Os Salesianos do Estoril, ainda antes e muito antes do 25 de Abril, foram a verdadeira escola de inclusão social no concelho, porque tinham e aceitavam alunos de muitos estratos sociais que ao mesmo tempo se fundiam com filhos de pais com grande capacidade económica. E ali nós vivíamos todo um caldo cultural, em que de facto os salesianos nos ensinaram a viver dentro dessa tolerância, dentro dessa capacidade de todos nos darmos com todos.

Diria que vem então de uma família de classe média, média-alta?

Não, média.

Mas o seu pai foi gestor de empresas...

Sim mas fez todo um percurso a nível dos serviços, mais tarde chega a ser administrador de empresas, mas vem basicamente da área dos serviços. E a minha mãe só tinha um emprego, embora lhe desse muitas dores de cabeça que era tratar de nós.

Seguiu a experiência do seu pai.

Sim gestão, embora não tenha sido, um bom aluno. Os Salesianos não expulsavam ninguém, mas convidaram-me a sair.

Era rebelde?

Nos meus 14 anos, apanho aquela fase do 25 de Abril, que foi uma fase única. O meu pai tinha relações na oposição ao regime anterior, portanto, tinha algum envolvimento, havia já alguma politização passada para os filhos, eu era o mais velho, e aquilo foi um momento de exuberância e de excitação. Fazia as minhas extravagâncias que na altura não foram bem aceites, daí eu ter sido convidado a sair. E depois fui para o liceu de Carcavelos. Foi assim uma adolescência que teve essa oportunidade de viver esse momento único que foi o 25 de Abril. Uma das funções que eu assumo como mais importantes na política é ter aberto espaço para uma geração mais nova. Com a revolução entrou uma geração política que era muito nova que se tem perpetuado até aos dias de hoje e portanto abafou, abafou muito, não tem havido grandes oportunidades de sangue novo na política. Em Cascais tenho uma equipa muito nova de excelentes quadros e costumo falar-lhes, às vezes, nessa altura do 25 de Abril e isso parece que já foi...

Muito longínquo...

...muito longe. Eu tive a influência dos meus pais, que foram fundadores do PSD e, depois fui fundador da JSD. São Domingos de Rana era a única freguesia puramente comunista no concelho de Cascais e a primeira sede do PSD era na minha garagem.

Começou a trabalhar muito novinho, aos 16.

Um bocado por via desse grande percurso estudantil. Trabalho desde os 16 anos, estudando à noite. Acabou por me sair do pêlo, como se costuma dizer, porque de facto trabalhador-estudante é muito difícil, exige um conjunto de sacrifícios.

Subiu a pulso, como se diz?

Foi estagiário do segundo biénio, depois fui promovido para estagiário do primeiro biénio e até hoje não consegui perceber a diferença. Depois fui ­- hoje já está em desuso - terceiro escriturário, segundo escriturário, primeiro escriturário, chefe de secção num sector de produção. Conheço bem a realidade do chamado "chão de fábrica". Acabei o curso e depois candidatei-me a chefe de serviços. E depois fui promovido a diretor financeiro e depois ocupei responsabilidades de administração. Tenho ciclos de oito anos em cada uma destas fases. Quando fui pai pela segunda vez foi quando, o que coincidiu também com mudar de emprego, fui para uma empresa de gestão hoteleira que tinha muita coisa em África, especialmente na África Lusófona. Portanto, sou um apaixonado de África por via disso. Um ciclo de oito anos. Depois, fui para uma empresa de consumo de bebidas de alta rotação, de consumo de cerveja, água, etc, e tivemos grande investimentos no Brasil e fiquei apaixonado pelo Brasil e pela América do Sul. Mais um ciclo de oito anos.

Apesar de se ter envolvido na política, dizia que não queria exercê-la de forma executiva. Acabou por fazê-lo e até ter cargos importantes no PSD.

Sim, não nego isso. Tive, e tenho, essas responsabilidades neste momento a nível partidário, mas nunca tive objetivo de vida exercer a política de forma executiva. Por exemplo, fui o primeiro presidente da distrital do PSD que teve eleições no seu mandato, e foram duas, e não quis ser deputado. Tenho o maior respeito pelos senhores e senhoras deputadas, acho que é uma função de grande dignidade, mas não tem a ver com a minha forma de ser. Seria verdadeiramente um sacrifício para mim ser deputado, porque sou mais de fazer.

Na verdade gosta de ser executivo.

Gosto de ser executivo.Tive oportunidade de fazer coisas muito fora do que é comum nas empresas onde passei, mas onde me tenho realizado mais, não escondo, é de facto aqui na vida autárquica.

"O governo caminha para algo mais gravoso do que tudo aquilo que nós passamos"

Foi Sá Carneiro quem mais o marcou na política?

Sim, Sá Carneiro foi o homem que pela época, também admito que pelo assassinato - sempre assumi que foi assassinato, não gosto de estar com meias palavras -, me criou outro tipo de envolvimento. Até cheguei a conhecer o dr. Francisco Sá Carneiro e de facto era um homem com um enorme carisma, com uma visão para o país, com uma teimosia quanto baste. Tive depois mais tarde a honra de presidir ao Instituto Francisco Sá Carneiro, ao IPSD, quis reeditar e reeditei todos os seus textos e o que era espantoso e assustador ao mesmo tempo é que muito daquilo que disse - e estamos a falar, de uma época de 1974 até quase metade da década de 80 do século passado -, infelizmente, é atual. Como é que nós perdemos estes 40 anos, não resolvemos os bloqueios, não é?

Isso aconteceu porquê?

Não estou a desconsiderar os protagonistas, mas temos vivido com as mesmas pessoas desde 74 até agora a nível das lideranças dos vários partidos. E isso abafou, acabou por colocar o país num circuito fechado. Depois se nós analisarmos a história do país vemos que nunca tivemos uma grande elite, nunca tivemos uma quantidade grande de líderes. Se calhar só conseguimos ser grandes quando temos uma grande liderança.

É fácil gerir um município como Cascais, como disse tem algumas assimetrias, mas que é visto como um município rico?

É rico em pessoas. Quando foi a crise mais profunda, não é que não exista, continua a existir, mas houve uma altura que estava muito preocupado porque nós éramos chamados, cada vez a ir resolver mais problemas do ponto de vista social. E algumas pessoas na altura diziam "você teve azar, quer dizer vem para presidente de câmara numa altura mais difícil, das tais vacas magras". Mas não é difícil ser presidente da câmara em Cascais porque temos um conjunto de instituições de variadíssima natureza com um conjunto de homens e de mulheres, muitos até como voluntários. Inaugurámos aqui uma situação que foi um caso de sucesso, que se chama Cozinha com Alma, que é um take away solidário e no pressuposto dos fenómenos novos: há famílias aqui de Cascais consideradas as tais famílias ricas, não é que a crise também lhes chegou? E de doadoras, davam normalmente para o Banco Alimentar, passaram a receber do Banco Alimentar. Chegámos à conclusão de que não valia a pena dar comida a essas famílias porque ninguém sabia cozinhar. E um bem escasso que era a comida era estragado. Assim, nasceu esta ideia, um take away solidário em que todos nós temos um cartão igual, pagamos um preço justo, que tem uma margem, que é essa margem que permite acompanhar os que têm que ser acompanhados. Um presidente de câmara tem de estar atento às franjas que estão a ser excluídas da sua comunidade para garantir essa dignidade na dificuldade. Temos que definir prioridades e nesta componente social, as prioridades eram três e passaram a quatro. As três são: os mais jovens, os mais idosos e os cidadãos com deficiência e acrescentou mais uma, os desempregados. O maior fator de desestruturação social, é a pessoa ficar desempregada.

Defende um modelo de gestão autárquico mais descentralizado?

Neste momento estamos a passar uma terceira fase do poder local. Quando se fala em conquistas de Abril, a maior das conquistas, e tivemos várias, mas uma de maior sucesso foi o poder local democrático. Quem se lembra de Portugal em 74 ele lembra as carências de infraestruturas que o país tinha, hoje felizmente que o país evoluiu e os autarcas deram um contributo muito grande. Passámos depois para uma segunda fase do poder autárquico que era não só infraestruturar mas equipar o território. O poder autárquico está agora a entrar numa terceira fase que já não é de hardware, já não é de cimento, já não é betão, mas é de software, é de inteligência, é de ter capacidade de definição e de aplicação de uma estratégia. Portanto, hoje, admito até que por via destas circunstâncias é muito mais exigente para os autarcas do que era. Hoje ninguém pode pensar gerir um município se não tiver uma boa equipa. Eu sou um presidente que não tenho pelouros, os pelouros estão todos delegados no vice-presidente e o vice-presidente tem quatro vereadores que são responsáveis por quatro áreas. Um tem as pessoas, o outro tem o território, o outro tem o presente e o outro tem o futuro.

A regionalização é precisa, como defende Rui Rio?

Tenho outra abordagem. Sou um municipalista. Defendo uma coisa que é a glocalização, ou seja jogarmos com as forças da globalização a nosso favor. Como é que isso se faz? É preciso apostar no que não é replicável, naquilo que eu sou o único a ter capacidade de o fazer e isso depende do quê? Da minha identidade geográfica, da minha identidade sociológica, e da minha identidade cultural. Se nós formos capazes... e isto não tem nada a ver se um tipo é do PC, é do Bloco, é do PS, é do CDS. São de facto desígnios nacionais que ajudam a projetar e que vai muito para além da própria ideologia. Nós estamos à beira do maior acontecimento que nos vai tornar um país rico, nada periférico, perfeitamente central e enorme .Temos aqui à nossa frente um território que é português, vai ser reconhecido pelas Nações Unidas, que é o mar, que é do tamanho da Índia e do Paquistão juntos. Temos uma outra coisa que é a economia das cidades. É importante continuarmos a desenvolver as cidades inteligentes.

"Foram devolvidos os rendimentos, mas nunca houve tantos impostos como agora"

É nesses factores de mobilização que se inscreve aquele famoso vídeo de provocação aos filandeses?

O vídeo nasceu de um episódio durante o governo Sócrates. Pedro Passos Coelho andava pelo país e vai a um restaurante e há um senhor finlandês que estava lá e quando sai é mal criado, é mal-educado, diz: "Eu só espero que essa conta do almoço não seja eu a pagar". Depois houve uma outra coisa que me irritou também que foi as agências de ratting, na altura a gente andava ali a discutir o que era um A+, uma setinha para cima ou uma setinha para baixo e os portugueses eram classificados consoante a letra e a setinha. Então fizemos alguma coisa que tivesse impacto nas conferência do Estoril desse ano e foi o vídeo. A estratégia foi minha, agora o que aquele vídeo teve de talento, não é meu, o mentor, o pensador para a realização do vídeo foi o Rodrigo Moita de Deus. Foi lançado no meio do discurso e de facto teve esse grande impacto. E um impacto ao ponto, porque eu só vim a saber isso depois, de os finlandeses estarem a bloquear o apoio e a ajuda a Portugal . O ministro dos Negócios Estrangeiros finlandês sentiu necessidade de responder imediatamente, pelas novas tecnologias. Desbloqueou-se uma situação que podia ser muito complicada porque estávamos de facto à beira de não ter dinheiro.

Uma ajuda do PSD ao governo de Sócrates...?

É uma daquelas coisas que eu acho piada, lá está a questão da austeridade e estes tipos gostam da austeridade, não é? Quer dizer, o PSD e o CDS adoram a austeridade? É que austeridade começa no momento em que não temos dinheiro para pagar o que são funções do Estado e muitas delas são funções sociais, o maior ataque ao Serviço Nacional de Saúde, é levar um país à bancarrota. O maior ataque à escola pública, é levar um país à bancarrota. O maior ataque à justiça, é levar um país à bancarrota, porque não há dinheiro para pagar tribunais.

Não admite que Passos exagerou na austeridade?

Não. Repare, é preciso ter noção do contexto. O contexto é um governo que chega com um país em pré-bancarrota e com uma ementa de medidas que tem de aplicar porque senão as aplicar não vem dinheiro para cumprir as tais funções do Estado. O governo de Passos Coelho tinha um check list, que de X em X tempo vinham cá os senhores e diziam "vocês querem a tranche a seguir ah então vamos lá ver, o que fizeram? isto, foi feito?, isto, foi feito?". E se não fosse feito não vinha a tranche. O atual governo caminha para algo mais gravoso do que tudo aquilo que nós passámos.

Está a dizer que podemos cair novamente numa situação de incumprimento?

Às tantas todos estamos a acreditar que as vacas voam. Porque os factos vão saíndo e a resposta é: "lá estão eles a criar fantasmas". Não há nenhum fantasma porque a economia de facto não está a crescer. Se a economia não crescer, não se combate um conjunto de situações sociais absolutamente necessárias de serem combatidas. Às vezes pergunto como é que as gerações futuras vão olhar para a minha geração, qual é a avaliação que fazem? Vai ser má, vai ser muito má. E nós estamos a caminhar novamente para uma lógica do Estado cada vez mais em cima da vida das pessoas e das empresas, a sufocar a própria sociedade, a não deixar libertar a própria sociedade, estamos a criar responsabilidades enormes para as atuais gerações mais novas e para as futuras gerações. Foi há nove meses que apresentámos um caminho completamente diferente deste e mais ainda, a maioria dos portugueses até votou mesmo depois de termos passado momentos de uma dificuldade atroz. Não tenho dúvidas nenhumas que as medidas que o primeiro-ministro da época, Pedro Passos Coelho, tomou foram as que mais lhe custaram tomar. Esta rapaziada reverte tudo, os tais ziguezagues que custam muito dinheiro, faz tudo em ziguezagues, não se percebe qual é a estratégia, qual é a visão de futuro, é o casuístico, é o dia-a-dia, é se a Catarina Martins ou se o Jerónimo de Sousa estão de acordo ou não estão de acordo.

Apesar de tudo Passos não tem um discurso demasiado pessimista?

Não. Foram devolvidos os rendimentos aos portugueses, mas depois foi-lhes retirado esses rendimentos por mais impostos, nunca houve tantos impostos como agora.

Mas acha que as pessoas têm a noção disso?

Não, não têm, ainda não têm. Porque isso é a mesma coisa que o sapo na panela, portanto, se eu ponho uma panela a ferver. O sapo salta para dentro da panela a ferver, o sapo salta logo, agora se eu ponho o sapo na panela e a água vai começando a aquecer até ferver, o sapo morre. É isto que se está-a passar neste momento. Nós portugueses ­- os sapos - estamos todos dentro da panela e ela vai aquecendo e nós vamos vivendo até ao dia que o sapo morre. Estou em crer que este processo que ainda existe, infelizmente vai doer muito.

Mas admite que o António Costa é um político muito hábil.

António Costa foi um líder regional, foi um líder paroquial, se quisermos, é certo, que da maior paróquia que o país tem, que é Lisboa, e agora foi chamado para o campeonato nacional. Agora isto não é futebol. Ora, na política, na gestão da res publica isto não funciona assim, quer dizer não é, olha vamos à bancarrota outra vez, não tem problema nenhum, a gente agora vai iniciar um novo ciclo e nesse novo ciclo vamos ser os campeões do desenvolvimento...

Passos Coelho é um líder teimoso?

A coisa que mais me irrita é que ele não deixa, porque ele acima de tudo é um homem de missão, com a sua consciência e subordinado à sua consciência, passar a dimensão humana que tem. Qual é a imagem que as pessoas têm de Pedro Passos Coelho? É essa que me está a transmitir, uma pessoa muito teimosa, uma pessoa obstinada, fria. Ele teve vários casos no seu percurso de vida, exemplos dessa dimensão humana, ainda recentemente o teve e é do conhecimento público. Ele tem uma capacidade de resistência, quantos de nós seríamos capazes de resistir às dificuldades a que ele teve de facto que resistir. Havia 20 caminhos mais fáceis, mas não davam o resultado que se era exigido.

Santana tem a experiência que o posiciona para liderar uma autarquia

Como coordenador autárquico do PSD, Lisboa é de facto o grande imbróglio do PSD nas eleições autárquicas?

Não. Há candidaturas, neste caso são 308 candidaturas às câmaras, são mais 4200 às freguesias e tem que ser geridas, tem que ser acompanhadas. Nós tomamos uma opção que foi não fazer distinção entre as câmaras. Estamos nesta fase, a quero aprofundar exatamente o pensamento, a estratégia, os contactos com a própria comunidade de cada uma dela. Isto não é um concurso de misses. Não escondemos que obviamente há municípios que pela sua dimensão têm um nível de exposição. Lisboa está à cabeça desse peso, as pessoas dizem é Lisboa e Porto, espera aí, mas se a análise é dessa maneira, o Porto é o quarto município do país, portanto, o segundo é Sintra, o terceiro é Gaia, o quarto é Porto e o quinto é Cascais, já agora só uma penada.

Mas admite que Santana Lopes seria o melhor candidato em Lisboa?

Quem foi o último presidente de câmara que teve uma visão estratégica para a cidade, que teve uma visão que foi para além do dia a dia, foi o Pedro Santana Lopes. Lisboa precisa de alguém que tenha essa visão estratégica. Depois Santana Lopes tem uma experiência e um currículo que de facto posicionam, acompanhado pela tal estratégia, que o posicionam muito bem para liderar uma autarquia portuguesa. Numa lógica muito partidária, sabe que tem essa força. Devemos olhar taticamente para a estratégia dos nossos concorrentes. E eu pergunto: não seria normal em Lisboa não voltarem a enganar os lisboetas, a forma como os enganaram enquanto portugueses, ou seja, não seria normal haver uma coligação PS, PC, Bloco de Esquerda?

Será admissível que o PSD apoie Assunção Cristas caso ela decida candidatar-se a Lisboa?

Por princípio o PSD concorrerá a todos os municípios do país com candidatos próprios ou com simpatizantes e independentes indicados pelo PSD.

Por falar em independente, o Porto, Rui Moreira é imbatível?

Em democracia não há imbatíveis, como não há insubstituíveis. Em democracia não há vitórias antecipadas.

Se Passos se não ganhar as autárquicas, acha que consegue manter-se na liderança do PSD, é daqueles que acredita que não vai ter influência?

Se o PSD porventura perder as eleições autárquicas, o Carlos Carreiras não teria condições nenhumas para ser líder do partido, também não é uma coisa que eu queira ser, mas não teria, em relação ao Passos Coelho posso dizer o seguinte: só depende da vontade dele. Se as pessoas não conseguem perceber isso as que estão de fora, as que estão de dentro percebem. Ele é líder do partido enquanto tiver essa vontade de continuar a ser o líder do partido, não depende rigorosamente de mais nada e, portanto, ganhe as eleições, perca as eleições...

Pedro Passos Coelho enganou-se quando redigiu aquele perfil que excluía Marcelo Rebelo de Sousa dos presidenciáveis?

Não. Vamos lá ver eu tenho que fazer uma declaração de interesses eu fui sempre um grande apoiante da candidatura do atual Presidente da República, sempre o manifestei nos órgãos próprios. Era uma candidatura, não vale a pena estarmos também a contar histórias, que deixava dentro do partido algum desconforto, não pelo candidato presidencial, mas pelo comentador. Mas sempre considerei que Marcelo Rebelo de Sousa era aquilo que Portugal estava a precisar na dimensão da função presidencial, não que o anterior não tenha sido a meu ver tenha, mas a história nunca se escreve no dia a dia, a história vai-se escrever passado uns tempos, o anterior presidente da republica para os momento que teve que ultrapassar foi um bom presidente da república, mas nessa fase em que o país estava precisava de um Presidente com características diferentes. Não sinto nenhum desconforto, antes pelo contrário por parte de Pedro Passos Coelho em relação ao atual presidente da república, não há. Nem sinto de uma forma global da parte dos militantes do PSD.

Ler mais

Exclusivos