"Aos 16 anos comecei como aprendiz, aos 22 comprei a empresa"

No 10 de Junho, Cândido Faria será um dos quatro condecorados pelo Presidente da República em Paris, como empresário de mérito

Ana Sousa Dias
Cândido Faria é ativista e mecenas da comunidade portuguesa em França, além de empresário© Miguel Pereira/ Global Imagens

Era uma vez um rapaz de 12 anos que vivia numa casa grande e gostava de tomar banho no rio Ave. De um dia para o outro, foi com os pais e os irmãos para uma cidade maravilhosa onde não conhecia ninguém nem percebia o que diziam. Dez anos depois, comprou a empresa onde entrara aos 16 como aprendiz. Teve cinco firmas, 300 trabalhadores, fez bons investimentos e aos 54 anos isso é tudo passado. Só trabalha quando lhe apetece e só para amigos. Ocupa--se da família e da comunidade portuguesa em Paris, a cidade que o fez crescer. Cândido Faria vai ser condecorado pelo Presidente da República no dia 10 de Junho.

Conversamos no Aeroporto de Lisboa, onde Cândido está a fazer tempo para seguir para o Porto, entre uma ida ao Palácio de Belém com os Portugueses de Valor e o regresso a Riba de Ave, onde vai tirar a carta de condução - perdeu-a por sucessivas infrações, que a vida de empresário era muito agitada. Tinham-me falado muito nele em Paris por ter feito (e pago em grande parte) as obras do auditório da Casa de Portugal, na Cidade Universitária. Está divertidíssimo a conversar, como estará divertidíssimo na sessão de fotografias em Guimarães, os olhos claros sempre a sorrir. Está feliz porque acaba de concretizar um sonho com 40 anos: já existe uma sala de cultura para os portugueses no centro de Paris. E foi ele que a fez, mas isso é a história para ler mais à frente.

Há quantos anos está em França?

Os meus pais levaram-me para Paris tinha eu 12 anos, há 42, 15 dias antes do 25 de Abril. Quando cheguei lá tinha escola, tinha tudo preparado. O meu pai tinha ido primeiro, depois deve ter-se sentido só e resolveu levar todos para lá. Éramos sete irmãos, três meninas e quatro rapazes.

A sua mãe foi para Paris sozinha com os filhos? Que coragem.

Muita coragem. Era uma mulher excecional.

Adaptaram-se bem em Paris?

Para mim foi um choque. Toda a gente falava da França, da Alemanha, eu pensava que era o paraíso mas foi um inferno. A minha família era relativamente modesta, naquele tempo. Mas eu era feliz, ia nadar para o rio, tinha os meus amigos, fazia piqueniques nas montanhas, tinha os meus hábitos. Em Paris, a casa era muito pequena, eu não conhecia ninguém, não falava uma palavra de francês, o prédio era velho. Estava longe de ser o sonho da França. Fui para a escola, logo no primeiro ano tirei um diploma de francês, um certificado de estudos a que todos os franceses passavam, e passei como eles. Mas queria encontrar a cultura portuguesa. Tive de me adaptar e isso demorou muito.

Foi uma juventude difícil?

Intelectualmente, sim. Os portugueses eram considerados pedreiros, homens de limpeza, enfim, mão-de-obra secundária, e eu não admitia esse estatuto.

Estudou?

Não quis. Aprendi depressa a falar francês. Aos 16 anos pedi ao diretor da escola que me arranjasse trabalho. Tínhamos poucos meios porque éramos muitos. A minha mãe fazia limpezas e o meu pai era eletricista, aprendeu lá a profissão. O diretor arranjou-me uma empresa - Les Peintures et Plâtrerie Modernes - e foi o único patrão que tive na vida. Entrei como aprendiz de pintor de decoração, mas fiz a minha carreira e finalmente comprei a empresa aos 22 anos.

Assim tão depressa?

A empresa estava a fazer falência mas eu achava que tinha capacidades, que o problema era a gestão do proprietário. Disse-lhe: fico com a empresa e com as dívidas e tento continuar. Tinha 20 empregados, eles eram bons, nós tínhamos trabalho. Paguei as dívidas e no mesmo ano multipliquei os negócios por dez. E assim fiz a minha vida de empresário.

Como é que os franceses o viam, jovem, português e empresário?

Viam-me como um francês. Logo que tomei conta da empresa já não era português. Fui negociar com os bancos, porque a empresa tinha um défice grande. A vantagem é que os bancos não tinham caução, se me deixassem cair perdiam o dinheiro. Então fui ter com o banco: vocês têm aqui uma dívida, eu vou tentar pagá-la, só que para isso vocês têm de continuar a pagar, sobretudo os empregados. Fiquei com todos os empregados mas durante dois anos não lhes disse que era o patrão.

Porquê?

Tornei-me patrão do chefe que me ensinou, tinha sido aprendiz dele a agora era patrão. Eu queria que eles me apreciassem pelas minhas capacidades. O ser humano... enfim, as pessoas têm o seu orgulho. E só o souberam por acaso, dois anos mais tarde. Estávamos a fazer a entrega de uma obra grande, numa multinacional francesa, a Matra [telefones]. Havia no chão uma gota de tinta e o diretor virou-se para mim e disse: senhor Faria, está uma gota aqui no chão, faça o favor de a limpar já. Tudo bem, vou mandar uma pessoa limpá-la. Eu quero que você a limpe já. Vou mandar uma pessoa limpar imediatamente. Eu quero que seja você a limpar. Eu não a limpo, percebeu, eu não a limpo, vou mandar uma pessoa vir limpá-la. E o tipo insistiu. E eu disse: se o senhor não está contente, o problema é seu. Vou chamar o seu patrão e ele põe-no lá fora. O patrão está à sua frente. Você não trabalha mais para mim. E eu estou-me lixando, porque tenho muito mais clientes. Os empregados ouviram, ficaram pasmados - o que é que ele disse? Os clientes também não sabiam, eu não dizia porque era muito novo e sabia que isso seria um problema.

Como reagiram?

Reagiram muito bem porque entretanto eu dei-lhes um estatuto muito melhor, cuidei muito mais deles. Quando tomei conta da empresa e vi os salários de certos empregados, achei que era uma exploração, e pouco a pouco aumentei-os. Como era eu quem mandava no dinheiro, eles ganhavam mais e mais. O antigo patrão fez outra empresa e depois queria tirar-me os empregados e ninguém foi.

Consigo tinham mais vantagens?

E muito mais respeito pelo trabalho. Porque eu mesmo fui empregado e compreendi cedo que um empregado que ganha bem a vida dele, que de manhã quando se levanta não tem problemas de dinheiro, é muito mais rentável. Entre aquele tipo que está no trabalho a pensar como é que vai pagar a eletricidade e aquele que chega de manhã e diz: vou para o trabalho, sei que vou ganhar a minha vida, sei que sou reconhecido pelo patrão... você nem lhe pede para trabalhar, você é que tem de o parar.

Foi esse o ambiente que criou?

Sempre foi. Os meus empregados passavam à frente dos clientes. Não admitia que um cliente fizesse um comentário a um empregado, porque eu era o responsável. Sempre foi a minha filosofia e sempre funcionou muito bem. Sou uma pessoa humanista por natureza. Não suporto a miséria, sempre ajudei os outros. Quando uma pessoa tem sorte é normal ajudar os outros, proteger os mais fracos e tentar levá-los mais para cima.

Quantas pessoas tem a trabalhar consigo?

Na realidade não tenho ninguém, mas cheguei a ter 300, com cinco firmas ao mesmo tempo. Mas hoje não tenho nenhuma. Trabalhei bem, ganhei bem a minha vida, investi bem, tenho rendas financeiras, não preciso de trabalhar. Trabalho só um bocadinho e só com clientes de que gosto, se são simpáticos, se vou fazer ao meu estilo, porque sou um bocado decorador. E dedico-me ao trabalho social, ajudo a cultura, os portugueses, pessoas de certa idade, a minha família. Tenho quatro filhos, de três casamentos, criei-os todos e eles gostam muito uns dos outros.

Já tinha muito trabalho com a comunidade?

Quando vi que não havia espaços para a cultura, criei-os. A primeira possibilidade que tive foi a Casa de Portugal em Plaisir [em Yvelines, a 30 quilómetros de Paris], uma cidade que se chama prazer e ainda por cima é bonita. A câmara deu o terreno e era preciso construí-la, mas a comunidade não conseguiu passar dos alicerces. Fiquei muito envergonhado e disse: vocês não têm vergonha? A nossa comunidade é a maior comunidade estrangeira deste país e não temos dinheiro para fazer uma casa? Vamos fazer a casa e vai ser inaugurada no dia 25 de Abril [de 1995] - isto era em novembro. E assim foi, com apoio financeiro dos municípios do Vale do Ave. Depois fiz a Casa do Benfica em Paris, paguei-a a 100%. Sou benfiquista, como a maior parte dos portugueses. E assim têm um sítio para se encontrar, isso dá uma identidade à nossa comunidade. Foi a obra mais fácil que fiz e foi aquela por que fiquei mais conhecido. Não quero ser conhecido, mas as pessoas falaram muito.

Como foi parar à Casa de Portugal?

Foi o Hermano Ruivo Sanches, que é conselheiro da Câmara de Paris, que me apresentou. A diretora, a Ana Paixão, foi muito corajosa diante das dificuldades. Dizem que atrás de um grande homem está uma grande mulher. E eu tinha duas, a Ana Paixão e a arquiteta Teresa Nunes da Ponte. Era impossível falhar. Fui buscar os meus antigos empregados e disse-lhes que era eu que financiava. Eles aplicaram-se melhor e fizeram um preço mais barato.

É mais francês ou português?

No fundo do meu coração sou português, isso é evidente. Mas a França foi o país que me fez evoluir, ao frequentar outras raças, outras vidas. Reconheço que em Portugal talvez eu não tivesse uma evolução e uma abertura de espírito tão grandes. Nas aldeias portuguesas você só vê portugueses, só se fala português e os costumes mantêm-se. À sexta-feira não se come carne, ao domingo vai-se à missa.

Na inauguração das salas da Residência André de Gouveia conheceu o primeiro-ministro. O que pensa dele?

Ele tem uma boa visão. Se governar Portugal como governou Lisboa, tudo bem. Eu não tenho partido, tenho as minhas opiniões. Conheço pessoas muito boas e muito más na direita e na esquerda. Temos um bom Presidente da República e um bom primeiro-ministro. Esta é a visão que tenho. O que conta depois é o resultado.

Como na Cité?

Estou muito feliz porque se realizou a visão que tive de ter um espaço para os nossos artistas de qualidade poderem exprimir-se no centro de Paris.

Vai passar uns dias a Guimarães para visitar a família?

Vou tirar a carta de condução, na minha terra. Tiraram-me a carta, andava sempre a 500 à hora.

Os seus filhos gostam de Portugal?

Adoram. Não vimos todos os anos porque tenho uma casa no Brasil, em Campinas, no estado de São Paulo. Também conhecem a Itália porque a mãe de dois deles é italiana. Conhecem Lisboa, o Estádio do Benfica, sabem onde estão enterradas a avó e a bisavó. Quero que saibam as raízes deles. Depois decidem. Todos eles falam português.

Vai ser condecorado no 10 de Junho. O que significa isso para si?

Já aceitei, uma pessoa tem de aceitar primeiro. Só que a medalha não corresponde bem à minha carreira, porque me deram a medalha de mérito de empresário. Ser empresário não tem importância nenhuma em relação ao país. O que são a Sala Pessoa e a Sala Vieira da Silva? Cultura. Ser empresário é assim: ou consegue ou não consegue. É muito mais importante ter uma pedagogia em relação à cultura, ajudar um camarada a ir para a frente.

Foi ver a exposição do Amadeo de Souza-Cardoso?

Logo no primeiro dia. É mesmo extraordinária. O presidente da Gulbenkian disse para ir com ele, eu não sabia que tinha sido convidado. Chegámos lá mas, como ele estava à espera do primeiro-ministro e da presidente da Câmara de Paris, Anne Hidalgo, eu fui à frente ver a exposição com o meu filho e a minha esposa, sozinhos. Gosto muito de pintura, tenho muitos quadros em casa. Quando acabei de ver a exposição estava a comitiva a chegar, jornalistas e tudo, e fui-me embora.