"Guterres é o melhor candidato para a ONU. Por acaso é português"

António Monteiro, embaixador de Portugal junto da ONU (1997-2001), realça que António Guterres é independente da máquina da ONU

Há algum perfil para se ser secretário-geral?

O perfil ideal é o de António Guterres, homem com verdadeira vocação internacionalista, carreira política notável, um papel de liderança em que é conhecido pela capacidade de diálogo e tolerância que são valores essenciais para se ser secretário-geral. Tem genuína vocação para as questões mais candentes da era da globalização, com provas dadas nos assuntos relativos a refugiados, uma facilidade muito grande de expressão e comunicação com todos os interlocutores, uma atitude em que a sua modéstia se sobrepõe a qualquer tipo de arrogância, uma enorme capacidade de criar pontes... isso é essencial para a ONU.

Mas são precisas qualidades políticas e administrativas...

Com António Guterres, a ONU vai ter um chefe administrativo de grande capacidade mas não limitado a esse papel, porque ele tem uma visão política que engloba o que pretende executar na ONU. Sendo uma organização intergovernamental e dependendo dos Estados membros, é essencial que, para tomar decisões concretas, haja alguém que possa criar condições de consenso que possibilitem a sua atuação. António Guterres reúne também uma certa independência de julgamento, porque não é da máquina e não está adstrito a uma visão particular do mundo ou da organização e dá garantias de que vai aplicar criteriosamente medidas que possibilitem à ONU ser mais efetiva.

Um nome com o nível de apoios recebidos por Guterres ser vítima de jogos políticos afetará a já debilitada imagem da ONU?

Não seria bom, mas estamos perante uma votação secreta no Conselho de Segurança [CS]. Aí as decisões são, às vezes, tomadas (ou não tomadas) não no sentido do interesse coletivo da ONU mas de interesses individuais de alguns países. Daí ser necessário democratizar a ONU, dando mais poder aos membros eleitos e limitando o uso do poder de veto... o ideal seria até que desaparecesse, o que seria quase uma revolução.

As divisões na UE sobre o melhor candidato favorecem a Rússia?

É normal haver vários candidatos e isso mostra a força de Guterres, pois a regularidade da sua votação mostra uma certa unanimidade no CS quanto aos méritos da candidatura. Não foi Portugal nem António Guterres que se posicionou como favorito mas o CS. Por isso digo que já temos um candidato de consenso e é ele, pois raras vezes se chegou a um consenso tão rápido sobre um nome.

A China, ao querer o "mais capaz" dos candidatos, apoia Guterres?

Não sei fazer essa extrapolação, mas objetivamente favorece a candidatura de António Guterres. Tem-se defendido outros critérios, respeitáveis mas secundários. O primeiro deve ser o mérito, sobretudo para os países empenhados em que a ONU funcione! A China, ao tomar uma posição que favorece a candidatura portuguesa, demonstra empenho em que a organização corresponda àquilo que dela se espera.

O facto de Guterres ser um ex-chefe de governo de um país da NATO é um óbice junto de Moscovo?

Não creio. Na escolha vai olhar-se para aquilo que o candidato oferece como qualidade e previsibilidade na condução dos negócios da organização. Aí não vai ser uma questão de nacionalidade. A Rússia vai, como qualquer país normal e experiente na cena internacional, escolher alguém fiável, imparcial e objetivo. António Guterres deu provas de que o poderá ser, tanto como primeiro-ministro como presidente da UE. O facto de ser de um país da NATO não impede que ofereça mais garantias de imparcialidade que outros de outra área.

Porquê haver ainda duas Europas na ONU, quando o Muro de Berlim caiu há duas décadas e meia?

Muitas vezes, a incapacidade de decidir leva a que se arrastem situações anómalas. É muito mais difícil recompor grupos regionais do que manter uma ficção. O que se chama renovação do CS são questões que a ONU não decide porque é mais fácil, em vez de tomar decisões, manter o statu quo, mesmo que seja fictício e não sirva os interesses da ONU. Daí os impasses como o atual. Uma coisa rápida foi a sucessão da URSS pela Rússia no [exercício do] direito de veto, mas aí convinha a todos que assim fosse para não deixar que se questionasse que um membro permanente ficava indefinido sobre quem herdaria o voto da defunta URSS [1991].

Prometer a nomeação de figuras russas ou pró-Moscovo para cargos importantes na ONU é uma chave para ter o apoio da Rússia?

Não creio que as situações se repitam. No caso de Kofi Annan havia a necessidade de salvar a face à França, que o estava a vetar, e daí a negociação [que levou a nomear um francês como responsável das operações de manutenção da paz]. O que poderá acontecer é que os países, ao tomarem a decisão, queiram garantias. Não vão fazer exigências ao secretário-geral mas é natural que haja conversações, que queiram assegurar que haja imparcialidade no desempenho da função.

Como vê o mandato do atual secretário-geral, Ban Ki-moon?

Relativamente fraco. Não é um mandato [de dez anos] que inspire e daí que a organização precise de alguém inspirador e Guterres é o melhor candidato para a ONU. Por acaso, esse candidato é português.

Outras Notícias

Outros conteúdos GMG