Em meio ano, centro de saúde angariou oito dadoras de leite

Centro de Saúde de Lisboa Ocidental criou a primeira consulta para selecionar e recrutar mães lactantes para recém-nascidos prematuros. Das dadoras que angariou desde julho, cinco dão leite. Carolina Torres é uma delas

Carolina Torres foi mãe, pela segunda vez, há cinco meses e há quatro que é também dadora para o banco de leite materno da Maternidade Alfredo da Costa (MAC). Uma doação feita através da consulta criada em julho de 2017 no Agrupamento de Centros de Saúde Lisboa Ocidental e Oeiras - a primeira e única criada para recrutar mães dadoras de leite materno para recém-nascidos prematuros. É uma das cinco dadoras ativas que esta consulta já conseguiu. Ao todo, desde julho, a consulta recrutou "oito dadoras que cumpriam todos os requisitos necessários", refere a enfermeira Ana Lúcia Torgal, responsável pela consulta de recrutamento no centro de saúde, que é o único nacional certificado pela UNICEF como Unidade de Saúde Amiga dos Bebés.

O número de dadoras "excede as expectativas iniciais para o período em questão". "Em conjunto, estas mulheres doaram à MAC cerca de 70 litros de leite materno", acrescenta a enfermeira especialista em saúde materna e obstétrica. O que se traduziu numa ajuda a cerca de 70 bebés com menos de 32 semanas, internados na neonatologia da MAC. A maternidade também cedeu leite materno a bebés internados nos hospitais D. Estefânia, Santa Marta, Amadora-Sintra e Garcia de Orta.

Uma dádiva importante para os bebés prematuros, já que o leite materno tem várias vantagens quando comparado com o leite artificial, reduzindo em cerca de 30% o risco de enterocolite (inflamação intestinal) e em cinco vezes o risco de intolerância alimentar.

As vantagens são muitas, mas é difícil conseguir angariar dadoras, daí a criação da consulta numa lógica de proximidade com as mães. As várias regras que as dadoras devem cumprir podem também afastar as recém-mamãs.

"O início da doação deve ser antes de o bebé fazer 4 meses. Muitas mulheres com bebés de 2 ou 3 meses ainda não têm confiança suficiente para doarem o seu leite, pois receiam que a sua produção de leite passe a ser insuficiente para alimentar a sua criança", aponta Ana Lúcia Torgal. A estes obstáculos juntam-se uma série de regras de saúde e de comportamento que têm de ser cumpridas: "Serem saudáveis, não fumarem, não consumirem bebidas alcoólicas, não estarem medicadas, etc." Requisitos que também são avaliados por "análises trimestrais" enquanto durar a dádiva. "O facto de haver necessidade de cumprir um protocolo apertado pode ser desmotivador para iniciar o processo", admite a responsável pela consulta.

Carolina Torres já tinha experiência da maternidade - a filha mais velha, Rita, tem 2 anos - e, por isso, quando Mafalda nasceu em agosto pensou que aderir ao banco de leite materno era uma boa ideia. "Já da primeira gravidez nunca tinha sentido que faltava leite à minha filha e, por isso, desta vez, decidi ajudar", descreve.

E nem as regras que tem de cumprir afastaram a engenheira informática de 34 anos do objetivo inicial. "Pareceu-me muito natural, tendo em consideração que o leite vai ser tomado por crianças com sistema imunitário ainda muito frágil, fiquei satisfeita por saber que o processo era assim cuidado, organizado e pensado."

Antes das consultas e da vigilância da saúde das mães, a ideia de doar leite é apresentada aos casais que frequentam o curso de preparação para o parto no centro de saúde de Oeiras ou nas consultas de vigilância de saúde infantil quando o médico percebe que a produção de leite é superior às necessidades da criança. Depois, quando a mulher aceita fazer as doações, tem de ir a uma consulta de enfermagem avaliar as condições exigidas no protocolo, depois de assinado o consentimento livre há uma nova consulta de enfermagem, que pode ser realizada em casa. É aí que se ensina a "técnica de extração e conservação imediata no congelador do leite recolhido, bem como dos cuidados de higiene a ter durante a extração e manipulação dos materiais (bomba extratora e frascos)", refere Ana Lúcia Torgal.

Carolina faz todo este processo à noite, "por volta das 22.00", depois de a filha mais nova já estar a dormir. "Aproveito enquanto estou um bocadinho no sofá a ver uma série ou assim." O processo já se tornou automático. Ter as mãos lavadas, uma toalha lavada, os frascos que já vêm esterilizados e a bomba elétrica (que é emprestada pelo centro de saúde) à mão. Depois as enfermeiras passam lá em casa e recolhem as dádivas.

Carolina vai ficar em casa até Mafalda ter nove meses e espera assim continuar a doar leite, mesmo quando a sua bebé deixar de mamar em exclusividade. "Gostaria de continuar, acho que é permitido até a 1 ano, e se conseguir é isso que farei", sublinha.

Esta é a única consulta do género, também porque é em Lisboa que existe o banco de leite humano (na MAC). Mas, Ana Lúcia Torgal defende que seria importante ter uma consulta no Norte e Centro, para os prematuros que aí nascem.

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