"É preciso deixar de servir a banca" em Sintra

Marco Almeida é recandidato como independente à câmara e o PSD dá-lhe o apoio que negou há quatro anos

Se em Lisboa o problema de uma candidatura de peso está por resolver no PSD, em Sintra está solucionada. O partido dá o apoio à candidatura independente de Marco Almeida, quatro anos depois de o ter rejeitado como candidato do partido à autarquia.

Marco Almeida, atual vereador no município, anunciou ontem a sua recandidatura à presidência da autarquia, onde foi derrotado por uma margem muito escassa pelo candidato independente apoiado pelo PS, Basílio Horta, em 2013.

Foi esse empate técnico em número de vereadores - Basílio foi eleito só com mais 1.700 votos - que motivou Marco Almeida a relançar uma candidatura às autárquicas de outono de 2017. O que lhe deu "a confiança de que o projeto não estava esgotado", diz ao DN. "Sinto hoje que o apoio ao Movimento tem crescido e constitui a única alternativa à gestão incompetente do Dr. Basílio Horta, alicerçada na forma como interpreta a realidade: Sintra é a penúltima da Área Metropolitana de Lisboa em matéria de investimento, a quinta que mais impostos cobra e a segunda com maior saldo orçamental. É preciso terminar com a perspetiva de ver os sintrenses como meros contribuintes e não como beneficiários", diz. E acrescenta: "É preciso deixar de servir a banca e olhar para as fragilidades do concelho. A minha proposta é que os sintrenses sejam a prioridade do próximo governo local."

Em 2013, o PSD não o quis apoiar enquanto candidato do partido a uma das maiores câmaras do país. Pedro Pinto, que era vice-presidente de Pedro Passos Coelho, foi o escolhido para encabeçar a lista social-democrata ao município, mas ficou em terceiro lugar nas eleições autárquicas. Muitos culpabilizaram o líder por ter inviabilizado a vitória em Sintra.

Mas Marco Almeida prefere esquecer as feridas de 2013. "Quanto ao PSD o passado está enterrado. A democracia dá-nos a liberdade de fazer escolhas e as de 2013 não impedem o alargamento de apoios. Nesta fase, estão juntos o PSD, o PPM e outro movimento independente de 2013. Outros se seguirão. Estamos a crescer e mais fortes para a disputa eleitoral que se aproxima", garante.

O líder da distrital de Lisboa do PSD afirma que "por clivagens do PSD local não foi possível um entendimento" para o apoio a Marco Almeida. Agora afirma, sem sombra de dúvida, que em 2017 "será uma candidatura ganhadora".

Miguel Pinto Luz lamenta, aliás, que este acordo agora conseguido na concelhia de Sintra - que aprovou o apoio à candidatura independente de Marco Almeida por 28 votos e uma abstenção - não esteja a ser possível de conseguir em Oeiras, onde o partido anda desavindo há muito tempo.

Exclusivos

Premium

Viriato Soromenho Marques

Madrid ou a vergonha de Prometeu

O que está a acontecer na COP 25 de Madrid é muito mais do que parece. Metaforicamente falando, poderíamos dizer que nas últimas quatro décadas confirmámos o que apenas uma elite de argutos observadores, com olhos de águia, havia percebido antes: não precisamos de temer o que vem do espaço. Nenhum asteroide constitui ameaça provável à existência da Terra. Na verdade, a única ameaça existencial à vida (ainda) exuberante no único planeta habitado conhecido do universo somos nós, a espécie humana. A COP 25 reproduz também outra figura da nossa iconografia ocidental. Pela 25.ª vez, Sísifo, desta vez corporizado pela imensa maquinaria da diplomacia ambiental, transportará a sua pedra penitencial até ao alto de mais uma cimeira, para a deixar rolar de novo, numa repetição ritual e aparentemente inútil.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Agendas

Disse Pessoa que "o poeta é um fingidor", mas, curiosamente, é a palavra "ficção", geralmente associada à narrativa em prosa, que tem origem no verbo latino fingire. E, em ficção, quanto mais verdadeiro parecer o faz-de-conta melhor, mesmo que a história esteja longe de ser real. Exímios nisto, alguns escritores conseguem transformar o fingido em algo tão vivo que chegamos a apaixonar-nos por personagens que, para nosso bem, não podem saltar do papel. Falo dos criminosos, vilões e malandros que, regra geral, animam a literatura e os leitores. De facto, haveria Crime e Castigo se o estudante não matasse a onzeneira? Com uma Bovary fiel ao marido, ainda nos lembraríamos de Flaubert? Nabokov ter-se-ia tornado célebre se Humbert Humbert não andasse a babar-se por uma menor? E poderia Stanley Kowalski ser amoroso com Blanche DuBois sem o público abandonar a peça antes do intervalo e a bocejar? Enfim, tratando-se de ficção, é um gozo encontrar um desses bonitões que levam a rapariga para a cama sem a mais pequena intenção de se envolverem com ela, ou até figuras capazes de ferir de morte com o refinamento do seu silêncio, como a mãe da protagonista de Uma Barragem contra o Pacífico quando recebe a visita do pretendente da filha: vê-o chegar com um embrulho descomunal, mas não só o pousa toda a santa tarde numa mesa sem o abrir, como nem sequer se digna perguntar o que é...