Doutor Pedro Pezarat Correia: o general no seu labirinto

O general Pedro de Pezarat Correia tornou-se ontem doutor pela Universidade de Coimbra. Aos 85 anos, este capitão de Abril escreveu 500 páginas da história do colonialismo

No chão polido da sala Carlos Ribeiro, no edifício do Colégio de Jesus, uma frase pintada a letras brancas pela Universidade de Coimbra parecia feita para aquele momento: "Portugal de pedra e cal". Sobre ela estava sentada a primeira fila de uma sala a abarrotar, perto de uma centena de pessoas que ontem de manhã quis assistir à prestação de provas da tese de doutoramento de Pedro de Pezarat Correia, o general e capitão de Abril integrante do movimento que gizou a revolução de 1974.

Em cima da mesa, 500 páginas da tese "Descolonização: do protonacionalismo ao pós-colonialismo", orientada por José Manuel Pureza, professor do curso de Relações Internacionais na mesma universidade, deputado pelo Bloco de Esquerda. De resto, havia também alguma esquerda em bloco, naquela sala, para ouvir falar de um tema que conhece bem. Figuras como Otelo Saraiva de Carvalho, Vasco Lourenço ou o general Ramalho Eanes estavam entre a vasta plateia, eles que são parte do mesmo percurso do general Pezarat Correia.

"Quando a sala está assim, cheia, é bom sinal", haveria de dizer quase no final o professor Boaventura Sousa Santos, que integrou o júri do doutoramento, e para quem aquela foi "uma manhã singular, não apenas para a Universidade de Coimbra como para a sociedade portuguesa. Porque aqui está em causa não apenas uma tese nem uma pessoa, mas todo um coletivo, que nos permitiu a todos nós estarmos aqui, que ofereceu a democracia a Portugal".

E é desse capítulo essencial da história do país que trata, afinal, a tese de Pezarat Correia, integrante de seis comissões durante a Guerra Colonial. Nas conclusões, uma frase lapidar: "Sem o 25 de Abril Portugal teria falhado o seu encontro com a descolonização, e sem a descolonização teria falhado o seu encontro com a liberdade."

Mas para início de conversa, o general quis deixar "um contributo para a clarificação do que foi a descolonização, afetada por uma perspetiva viciada do colonizador. Muitos confundiram descolonização com transferência de poderes. E afinal, colonização e descolonização são dinâmicas do mesmo processo histórico e sociológico", lembrou, apontando os anos 60 como a fase mais crítica, que haveria de descambar "numa guerra cuja responsabilidade cabe por inteiro a Salazar", disse o candidato a doutor. Mas a guerra "radicalizou posições e podemos dizer que o feitiço virou-se contra o feiticeiro, pois despertou a sociedade portuguesa para a Guerra Colonial e seus efeitos, o que acabou por ser decisivo no derrube da ditadura", disse.

Pezarat Correia aponta, na sua tese, dois momentos fulcrais no processo da descolonização: o 25 de Abril de 1974, e o 27 de Julho do mesmo ano, em que pela lei 7/74 Portugal reconhecia o direito à independência. "Sempre recusei a tese da descolonização exemplar, ou da descolonização possível. Fez-se o que tinha que ser feito", conclui.

Pela dignidade da descolonização

A tese aponta os casos da independência de Moçambique e Angola como um modelo que "alterou radicalmente o estado geopolítico" e aborda todo o contexto em que decorreu. Pezarat Correia sabe que "ainda há muitos nostálgicos do passado colonial, só que mudaram o discurso".

Depois de ouvir a defesa, o júri do doutoramento (presidido por Teresa Pedroso Lima e ainda composto por Boaventura Sousa Santos, Luís Moita, Marcos Ferreira, Tiago Moreira de Sá, Maria Helena Carreiras e José Manuel Pureza) interpelou o doutorando, que deliciou a assistência com toda a intervenção. Depois de reunir por um período de 20 minutos, deliberou por unanimidade que Pedro de Pezarat Correia, nascido no Porto há 85 anos, é o mais recente doutor da Universidade de Coimbra, onde de resto lecionou geopolítica e geoestratégia, na faculdade de Economia.

"Fui muito feliz aqui", disse, logo ao início. No final, entre os abraços da família e amigos, falou ao DN dessa felicidade de uma vida: "Sinto-me honrado, e sinto que não sou só eu. Há um grupo que está comigo porque viveu o mesmo percurso que eu vivi. E com isto espero conferir dignidade académica, responsabilidade e seriedade ao tratamento de um tema que tem sido tratado muito superficialmente em Portugal, a descolonização". Depois abraçou Otelo, Vasco e Eanes, como no tempo em que sonhavam (juntos) a liberdade.

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