Doentes com esquizofrenia sem meios para pagar nova medicação

Psiquiatras pedem a comparticipação dos medicamentos antipsicóticos injetáveis a 100%. Há doentes a abandonar o tratamento

Aos 19 anos, Emanuel teve a primeira crise. "Ouvia vozes" que lhe falavam do avô. Sons que pareciam reais, que faziam sentido. Pouco tempo depois descobriu que é "esquizoafetivo". "Tenho alucinações auditivas e visuais, delírios, manias, depressões." Nesta tarde de quinta-feira, com o sol a iluminar o Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa, recorda como a luz o deixava deprimido: "Estranho, não? Tinha de me esconder do sol." Começou por ser medicado com o fármaco Haldol (haloperidol), que o deixava "prostrado, apático". "Mas se não tomasse a medicação, desvairava", conta, pausadamente, no jardim do Hospital Júlio de Matos, onde lhe é administrada uma injeção mensalmente. Mas nem os fármacos o impedem de continuar a ouvir vozes. "E por vezes conseguem ser muito destrutivas. Não consigo trabalhar."

Atualmente, Emanuel, com 40 anos, toma uma injeção de Fluanxol (flupentixol), que lhe permite "ter uma vida quase normal, sem ansiedade". Mas sabe que este não é o melhor medicamento para a esquizofrenia. "O Xeplion [paliperidona] é o último grito das injeções. Reforça a autoestima, dá-me força para acordar, para viver a doença. Faz que me interesse pela vida", afirma. Enquanto caminhamos para o restaurante PsicoPrato, onde estagiou no âmbito do programa de reabilitação do hospital, Emanuel conta que deixou de poder pagar as injeções mais recentes quando acabou um outro estágio num restaurante fora da instituição. "Tenho uma reforma de invalidez, mas não dá para pagar a injeção mais recente, que custa quase 50 euros." Sem poder contar com o apoio da família, diz que se sente "desamparado".

A realidade de Emanuel é semelhante à de muitas pessoas que vivem com esquizofrenia em Portugal, onde a medicação antipsicótica deixou de ser comparticipada a 100% em 2010. Desde essa altura que os doentes passaram a pagar uma parte dos fármacos: o estado paga 95% no regime especial e 90% no regime geral. Uma diferença de cêntimos nos medicamentos mais antigos, mas que pode chegar aos 46 euros euros nos fármacos mais recentes (as injeções de toma mensal custam cerca de 460 euros). Passados oito anos, este é um tema que continua a preocupar os psiquiatras, já que leva a uma diminuição da adesão à terapêutica, que implica recaídas e um agravamento da doença.

Foi a pensar nos doentes que não conseguem suportar os custos da medicação mais recente que os autores do livro Urgências Psiquiátricas, Henrique Prata Ribeiro e André Ponte, resolveram direcionar os lucros das vendas da publicação para as injeções de doentes com esquizofrenia acompanhados pela Associação de Reabilitação e Integração Ajuda (ARIA).

"É uma forma de chamar a atenção para o facto de o Estado não pagar a medicação injetável de longa duração. Sendo comparticipada a 90%, muitos doentes não possuem meios para pagar a medicação mais recente, já que vivem com reformas de invalidez ou com a ajuda dos pais", explica Henrique Ribeiro, interno de psiquiatria, adiantando que "há doentes a abandonar a medicação e outros a fazer medicação que não é tão recente".

Como tem um menor perfil de efeitos secundários, a medicação atípica - a mais recente - permite aos doentes "um melhor controlo da sua doença e uma maior capacidade de trabalho", o que, segundo o médico, reduz os custos com a esquizofrenia. Já a medicação mais antiga - e mais barata - é oferecida pela maioria dos hospitais, mas tende a fazer que "os doentes se babem, arrastem os pés, tenham dificuldade na marcha". A longo prazo, adianta, também tem mais efeitos secundários a nível metabólico e lipídico.

Este é um tema que preocupa o Colégio da Especialidade de Psiquiatria da Ordem dos Médicos. Ao DN, Miguel Bragança explica que "os doentes com esquizofrenia têm péssima adesão à terapêutica" (porque tendem a não reconhecer a doença), pelo que "o custo ainda agrava mais essa adesão". Por outro lado, o presidente do colégio sublinha que, devido à própria patologia, "são doentes que não têm voz, que têm dificuldade em se unir e protestar". Por isso, avança, "o colégio é da opinião que, sobretudo os medicamentos injetáveis de longa duração, deviam ser gratuitos", já que "existia a garantia de que são mesmo para doentes psicóticos".

Peso para as famílias

O caso de Joaquim, de 30 anos, ainda está em estudo, mas o diagnóstico será de esquizofrenia ou doença bipolar. Enquanto se prepara para mais uma consulta no hospital de dia do Júlio de Matos, o jovem conta ao DN que começou a tomar a medicação mais recente (Xeplion) há quatro meses. "Sinto que fiquei mais chegado às pessoas, mais calmo. Parece que tenho sempre a mesma maneira de ser. E deixei de ter os ciúmes que tinha", diz. Para ter acesso à injeção, Joaquim paga 46 euros por mês. "Não estou a trabalhar. Por vezes, tenho de deixar de comprar outras coisas para pagar a injeção, mas ajudou-me bastante. Sinto-me outro."

João Marques Teixeira, presidente da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental (SPPSM), lembra que "uma família com doentes psicóticos crónicos tem uma sobrecarga exagerada sobre si: a das alterações comportamentais associadas à doença, a emocional, a social muito associada ao estigma sobre estas doenças e a sobrecarga económica". Aliviar as despesas era, segundo o psiquiatra, uma maneira de ajudar as famílias e os doentes.

Na opinião do presidente da SPPSM, existem "iniquidades", pois há doentes - mesmo dentro das doenças mentais - que têm o direito de ter "todos os medicamentos de que necessitam comparticipados a 100% e outros doentes, por exemplo os psiquiátricos graves e crónicos, não têm esse direito". Por isso, defende "igualdade de direitos para os doentes".

Contactado pelo DN, o Infarmed adianta que "não está prevista nenhuma alteração ao regime de comparticipação dos medicamentos antipsicóticos".

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