Diversidade e luta contra o medo no Que se Lixe a Troika

Estudantes, arquitetos, desempregados, gente que nunca se manifestou e os que vão a todas: é esta a diversidade do movimento "Que se Lixe a Troika", que no protesto de sábado quer ver o povo a perder o medo.

"O que mais me afetou nesta crise foi o clima de caos social. Sentir que as pessoas têm medo. Mas esse medo pode terminar no dia 02", avisa Adriano Campos, de 28 anos, um dos organizadores portuenses da manifestação "O Povo é quem mais ordena".

Neste segundo protesto da plataforma no Porto, há mais preparação, mais gente e muitos receios -- de perder a casa, a escola pública, o Serviço Nacional de Saúde, do monstro do desemprego.

"Já nem sei desde quando vivo com o medo do desemprego. Eu e os meus amigos", desabafa Amarílis Felizes, estudante de teatro de 22 anos, atormentada com aquilo a que chama pavor "geracional".

Paula Sequeiros, outro dos elementos do "Que se lixe a Troika", sente nas pessoas "conformismo" e "acima de tudo algum medo", mas também "um outro lado" que "sairá à rua a 02 de março, numa manifestação como provavelmente Portugal já não vê há muito tempo".

Nuno Flores, um arquiteto de 33 anos que vai emigrar em abril, não quis ir embora sem "apoiar" o movimento "contra esta política da troika e a democracia 'partidocrática' em que os políticos, depois de eleitos, sentem que podem fazer o que quiserem".

Bolseiro de investigação, Adriano Campos saiu à rua pela primeira vez em nome da "Geração à Rasca", a 12 de março de 2011, envolveu-se na associação "Precários Inflexíveis" e esteve na organização da primeira manifestação do "Que se Lixe a Troika", a 15 de setembro.

Seis meses depois, juntaram-se à organização "cada vez mais pessoas, muito diferentes e com percursos distintos, de todos os quadrantes políticos, partidários e da vida social", em busca de "um rumo alternativo e políticas diferentes", descreve o responsável, frisando que o movimento "apartidário" não é "apolítico".

Ativista estudantil desde o início da década de 70 do século XX, a investigadora Paula Sequeiros entregou-se "completamente ao 25 de abril [de 1974] e aos 57 anos tem como "grande esperança" como avó "recuperar muitas das conquistas de abril" e evitar que outras se percam.

Olhar para o dia-a-dia como uma "mera sobrevivência" é uma das coisas que angustia Tatiana Moutinho, mãe solteira de 40 anos, que deixou de poder "visitar a família em Coimbra" por não ter dinheiro "para o bilhete de comboio".

A bolseira juntou-se ao "Que se Lixe a Troika" quando percebeu que a manifestação de 15 de setembro ia acontecer no Porto. Nunca tinha participado em nada do género, mas agora a vontade de ajudar surgiu naturalmente: "Já não podia ser doutra maneira".

Sem se recordar do momento exato em que decidiu sair à rua e colaborar com o "Que se Lixe a Troika", a estudante Amarílis Felizes sabe que já não consegue "ficar em casa sabendo que anda gente na rua a colar cartazes ou a distribuir panfletos".

"A democracia somos todos nós e "todos temos de ser cidadãos", sustenta.

Afligem-na os "cortes nos salários dos pais, as propinas de valores completamente insustentáveis, o abandono escolar enorme no ensino superior".

Aspirações políticas? "Construir um mundo melhor", garante.

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