Distribuidoras querem remédios para VIH e cancro disponíveis nas farmácias

Associação do setor destaca os ganhos significativos para os doentes, que passam a ter os medicamentos mais próximos. Grupo de Ativistas em Tratamentos (GAT) questiona os custos que esta solução pode ter para o SNS

Há doente oncológicos, com cancro e hepatite C que têm de percorrer dezenas de quilómetros para levantar medicamentos nas farmácias hospitalares. Uma situação que a Associação dos Distribuidores Farmacêuticos (ADIFA) gostava de ver alterada. Depois de quebras significativas no mercado dos medicamentos vendidos nas farmácias nos anos de crise, os operadores do setor querem que alguns dos remédios que atualmente só existem nos hospitais possam ser dispensados nas farmácias comunitárias, passando a ser entregues pelas distribuidoras.

Em Lisboa, os doentes portadores de VIH/sida seguidos no Hospital Curry Cabral beneficiaram de um projeto-piloto de dispensa de medicamentos hospitalares nas farmácias comunitárias, que entretanto foi desativado. "Foi cancelado por razões operacionais", explicou ao DN fonte do Centro Hospitalar de Lisboa Central, adiantando que "vai iniciar-se um novo estudo observacional, com parecer positivo da Comissão de Ética para a Saúde do CHLC".

Diogo Gouveia, presidente da ADIFA, diz que "a expectativa é que, depois da avaliação do projeto, o Ministério da Saúde alargue a dispensa a outros medicamentos", uma vez que os doentes beneficiam de maior "acessibilidade, proximidade e comodidade". Para o representante da associação, depois de "anos muito duros" e antevendo um crescimento dos medicamentos genéricos, é esse o caminho a adotar com vista ao cres- cimento das empresas de distribuição, que sofreram com "a quebra do valor do mercado dos medicamentos" e "a redução das margens de comercialização".

De acordo com os dados do Infarmed, em 2017, os portugueses adquiriram mais 1,4 milhões de embalagens de medicamentos nas farmácias face a 2016, tendo sido dispensadas 157 milhões no total, o maior volume dos últimos cinco anos. "É uma recuperação muito ténue. Nos anos de crise, entre 2008 e 2016, houve uma redução de 4,1% na utilização de medicamentos, pelo que, em cima de uma quebra destas, não é um crescimento significativo", refere Diogo Gouveia.

Em valor, prossegue, a queda foi de 27% no referido período, "muito por culpa das reduções administrativas do preço" dos fármacos, "o que teve um impacto forte nas farmácias - com fechos e insolvências - e nos distribuidores". Neste setor, "as empresas reestruturaram-se, tentaram otimizar custos operacionais, reduziram algumas plataformas", mas "ainda existem muitos problemas". No final de 2016, revela, o valor acumulado em dívida às distribuidoras ascendia aos 240 milhões de euros. "Existem cobranças de dívidas de largos anos. Ainda não está tudo resolvido", destaca o representante.

Para a ADIFA, a solução passaria "pela passagem de alguns medicamentos que são dispensados nas farmácias hospitalares para as farmácias comunitárias", já que existe "uma rede de farmácias com boa qualidade e que garante acessibilidade e proximidade a todos os cidadãos". No entender de Diogo Gouveia, "não há nenhuma razão técnica para que alguns medicamentos não possam ser dispensados nas farmácias de ambulatórios".

Refere-se sobretudo a medicamentos destinados a oncologia, VIH, hepatite C e doenças autoimunes, que tendem a ser mais caros. "A grande maioria dos medicamentos dispensados nas farmácias hospitalares são como os outros, não precisam de atenção especial na entrega e têm perfis de segurança semelhantes aos outros", destaca. Esta é, segundo o mesmo, uma grande oportunidade também para o Estado, "que aumenta a previsibilidade, a otimização em termos de stocks e garante a entrega quando o doente precisa".

Só o mercado dos medicamentos para tratar o VIH vale, segundo o presidente da ADIFA, aproximadamente 200 milhões de euros. Sendo a despesa total com medicamentos nas farmácias de aproximadamente dois mil milhões de euros, a dispensa dos fármacos para tratamento da sida "implicaria um aumento de cerca de 10%".

Luís Mendão, presidente do GAT - Grupo de Ativistas em Tratamentos, diz que a organização não tem uma posição tomada sobre este tema e considera que é necessário refletir sobre vários parâmetros. "Percebo o interesse comercial para os distribuidores, mas é preciso ver se uma solução destas não tem custos adicionais para o SNS", sugere. Além disso, alerta, há o perigo de "exportação paralela" dos fármacos para outros países. E é preciso que existam "projetos-piloto" para estudar a solução.

Trabalham nas seis empresas com maior expressão na distribuição cerca de 1900 pessoas, que fazem cerca de 200 mil quilómetros diários para garantir que, em média, em 2/3 horas um cidadão que precise de medicamentos consegue tê-los.

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