Diplomacia entregue ao homem que gosta "de malhar na direita"

Santos Silva já foi ministro de quatro pastas diferentes. Agora nos Negócios Estrangeiros, diz que reduzir diplomacia à economia é "enorme erro"

O novo ministro dos Negócios Estrangeiros nunca poupou nas suas palavras - como governante ou comentador político. Disse ele, quando foi ministro dos Assuntos Parlamentares do primeiro governo de José Sócrates: "Gosto de malhar na direita." E desde então não perdeu uma oportunidade, quando achou que tinha de o fazer. Ainda no passado dia 17 desancou no seu Facebook a demora de Cavaco Silva em indigitar António Costa. E o Presidente tem uma palavra a dizer sobre o titular das Necessidades.

Foi Augusto Santos Silva, 59 anos - que já foi ministro de quatro pastas diferentes e secretário de Estado - quem disse que "é um erro enorme reduzir a diplomacia portuguesa à "diplomacia económica"". O sociólogo e professor universitário desfez de uma penada a ideia-chave da política do XIX Governo Constitucional, no qual Paulo Portas inscreveu a expressão no dia-a-dia mediático e político.

No livro Os Porquês da Esperança (conversa com o jornalista Paulo Magalhães, publicada em julho pela Matéria-Prima), Santos Silva carregou no adjetivo: é "gravíssimo erro" colocar aí os recursos porque apesar de, na "atual conjuntura crítica", ser "importante" a diplomacia económica, "por decisiva que ela seja para o equilíbrio da balança externa pelo aumento das exportações".

Num momento em que se pede mais músculo na relação com Bruxelas - e o BCE e o FMI -, o novo inquilino do Palácio das Necessidades quer imprimir outro peso aos "múltiplos papéis" que o país pode desempenhar na "política europeia, na política externa europeia e na política internacional", seja no quadro da ONU seja nas alianças ou blocos regionais a que pertence Portugal, como a NATO, CPLP ou Organização dos Estados Ibero-Americanos.

Por isso, "reduzir a diplomacia a uma espécie de cobertura glamorosa do agenciamento de investimentos e trocas" não colhe. "Por duas razões", como explicou Santos Silva no livro: "Porque o jogo internacional e o papel de Portugal nele são muito mais do que isso (são segurança, política, direito, influência cultural e moral); e porque, quanto mais qualificado for o lugar nesse jogo, em melhores condições funcionará a vertente propriamente económica."

António Costa não deu aos Assuntos Europeus uma pasta própria, pelo que o ministro terá um papel a desempenhar junto das instituições europeias. E o novo ministro já balizou essa atuação no quadro das metas orçamentais europeias, ao apontar a necessidade de "não deixar o défice derrapar de novo (e apresentar um saldo primário positivo) e colocar a dívida numa trajetória descendente".

Segundo Santos Silva, há um cartão com sete "simples frases" que devia ser escrito e guardado na carteira: "Portugal não é dono da lusofonia; é mais do que a lusofonia; é um país europeu médio, com ligações intensas a muitas outras regiões do mundo; por isso pode desempenhar agilmente múltiplos papéis na cena internacional; com vantagens e recursos próprios, entre os quais a língua; isto tudo é que conta, não apenas os produtos e serviços exportados ou o investimento atraído; e tudo isto ajuda imenso a vender mais produtos e serviços e a cativar mais investimento." É a cartilha do novo ministro.

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