Dez personalidades fazem a antevisão de 2014

O capitão de Abril Vasco Lourenço, o economista João Ferreira do Amaral, o professor universitário Viriato Soromenho-Marques, o presidente da Câmara do Porto Rui Moreira, o presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz Bruto da Costa, o físico Carlos Fiolhais, o escritor Gonçalo M. Tavares, o Patriarca de Lisboa Manuel Clemente, o ciclista Rui Costa e o escritor e cronista Rui Cardoso Martins fazem a antevisão de 2014.

Vasco Lourenço: "Temo que os militares se possam juntar às situações de violência"

O "capitão de Abril" Vasco Lourenço antevê situações de violência crescente e generalizada em Portugal em 2014, incluindo por parte dos militares "massacrados", embora deseje uma "alteração radical das políticas", com "o Estado Social a ser praticado".

"Os militares estão a ser massacrados com ataques tremendos que têm vindo a sofrer há bastante tempo. Estão a aguentar, sem problemas de maior em termos de cumprimento de missões, porque têm um sentido do dever patriótico muito forte, mas tudo tem limites. Por isso mesmo, também temo que os militares se possam juntar às situações de violência", previu, lembrando o que se passou na manifestação de polícias a 21 de novembro, que terminou com a subida das escadarias do parlamento.

O antigo membro do Movimento das Forças Armadas e do Conselho da Revolução, após o 25 de Abril de 1974, queria para o próximo ano "uma alteração radical da política e que se começassem a recuperar os valores de Abril, com uma política social mais justa, com a justiça a funcionar, com a saúde a funcionar, isto é, com o Estado Social a ser praticado".

"Isso era o que eu gostava mas, infelizmente, o que prevejo é que as políticas vão continuar. A teimosia de quem está a ocupar o poder vai continuar, quer na Presidência da República, quer no Governo. Isso vai continuar a provocar mal-estar nas populações e, provavelmente, vai forçar à violência. Que fique claro que não estou a fazer apelo à violência, mas ela vai ser inevitável se estas políticas continuarem", frisou o coronel do Exército.

João Ferreira do Amaral: 2014 só trará menos austeridade se houver mudanças na política europeia

Só uma mudança na política europeia trará menos austeridade para Portugal em 2014, defendeu o economista Ferreira do Amaral, que mantém uma visão pessimista sobre a economia portuguesa após a saída da 'troika'.

Sem arriscar cenários para Portugal depois de junho, mês que marca o fim do programa de assistência financeira, Ferreira do Amaral tem, no entanto, algumas certezas: o défice vai continuar a ser elevado, mesmo que seja cumprido o objetivo dos 4% do PIB definido no Orçamento do Estado para 2014, e não haverá facilidades no financiamento necessário para a economia e para o Estado.

O que é crucial é a posição das instituições comunitárias e a forma como encaram a saída de Portugal do plano de resgate, pois irão "determinar os meses seguintes", sublinhou o professor do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG).

Ferreira do Amaral salientou que "2014 só trará menos austeridade se houver uma mudança na política europeia", que não excluiu, face à proximidade das eleições para o Parlamento Europeu e aos sinais do comissário europeu dos Assuntos Económicos e Monetários, Olli Rehn, de que a consolidação orçamental deve ser abrandada.

Viriato Soromenho Marques: 'Troika' deve fazer um "exame de consciência"

O professor universitário Viriato Soromenho Marques espera que 2014 traga "um duplo sobressalto" a Portugal, com a 'troika' a fazer um "exame de consciência" e o país a chegar a consenso para cortar com a austeridade.

"A minha esperança para 2014 é que seja possível um duplo sobressalto. Que por um lado os nossos credores, a 'troika', sejam capazes de fazer como já o FMI está a fazer (...) um exame de consciência. Essas instituições devem chegar à conclusão de que a situação portuguesa foi agravada por erros de conceção da estratégia associada ao programa de ajustamento", disse.

Embora este eventual sobressalto não signifique que o país passará "da noite para o dia", Portugal "poderá retomar alguma margem de manobra" sobre o investimento económico, a planificação do futuro, e o financiamento de políticas sociais, argumenta o professor catedrático da Universidade de Lisboa

Por outro lado, o filósofo espera um sobressalto nacional, que permita "fazer um consenso no país": "Não um consenso para continuar esta política, mas um consenso para romper com esta política".

Este consenso devolveria a Portugal a "capacidade de ter uma voz na Europa", acredita.

Rui Moreira: Portugal devia beneficiar de um "apaziguamento europeu"

O presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira, gostaria que Portugal, no próximo ano, "pudesse beneficiar de um apaziguamento europeu relativamente àquilo que é a relação entre o norte e o sul".

"Espero que finalmente se possa encontrar um caminho europeu -- a solução para Portugal passa sobretudo por aí -- e, portanto, espero que possamos continuar a fazer o nosso caminho, que continuemos a trabalhar, a exportar", disse o autarca, em entrevista à agência Lusa.

Para Rui Moreira, há "alguns sinais, nomeadamente na exportação, no turismo", que o levam a acreditar numa recuperação económica do país em 2014, desde que sejam dadas "condições pelos europeus" para que os portugueses possam "sobreviver".

"Gostaria que a baixa do desemprego não resultasse apenas das pessoas que têm de sair de Portugal para trabalhar", ressalvou ainda o presidente da Câmara do Porto, esperando também que "seja feito um esforço conjunto relativamente à questão da coesão social", na medida em que entende que "a situação do país é, nesse aspeto, alarmante."

Bruto da Costa: Sem aumento do poder de compra não haverá crescimento económico

O presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz mostrou-se "muito pessimista" quanto à "evolução da sociedade" em 2014, considerando que dificilmente o país retomará o ritmo de crescimento económico sem aumentar o poder de compra dos portugueses.

"Não basta termos sinais ténues de que já não estamos em recessão técnica. Isso é bom mas não basta", sublinhou Bruto da Costa.

Portugal precisa de ter "ritmos de crescimento" que permitam criar mais emprego e rendimentos para que as famílias aumentem o seu poder de compra.

Contudo, Bruto da Costa disse não encontrar "nenhuns sinais" no país que "levem a pensar que o Governo vai mudar o modo de encarar os problemas económicos e financeiros".

"Eu não vejo nenhum aspeto que me permita dizer que a política adotada nos últimos dois anos está a ser bem-sucedida", disse, acrescentando que "não pode ser medido meramente em termos de exportações ou da balança comercial, ou de pequenos sinais de crescimento económico".

Advertiu, por isso, para os "gravíssimos" problemas humanos e sociais que "tudo isto cria".

Carlos Fiolhais: Físico espera que 2014 traga mais ciência e emprego para os jovens

O físico da Universidade de Coimbra Carlos Fiolhais deseja que 2014 seja um ano com uma aposta maior na ciência e no conhecimento, vetores determinantes para um futuro mais conseguido.

"Infelizmente, em 2013, a ciência foi menos, não foi mais. E eu desejo que haja mais ciência em 2014. Se queremos entrar no futuro decididos, temos de entrar pela porta da ciência", disse o ensaísta.

Carlos Fiolhais, catedrático na Universidade de Coimbra desde 2000, recordou que os jovens, os cérebros que despontam, são a "maior riqueza" de um povo e pediu ainda emprego para esta faixa etária que precisa de "mais vida".

"Demos-lhes algumas bolsas, mas agora precisamos de lhes dar vidas, empregos nos centros de investigação, nas faculdades. A riqueza económica está baseada na ciência. Hoje, o conhecimento é o passaporte para se ser rico. Estes jovens aqui formados em Coimbra e nas outras universidades do país precisam de empregos científicos", sintetizou.

Gonçalo M. Tavares: "Situação de desemprego é um problema social e de democracia"

O escritor Gonçalo M. Tavares deseja que em 2014 os portugueses deixem de emigrar e que o diminua o desemprego, "uma tragédia coletiva".

"A situação de desemprego devia envergonhar não as pessoas, mas o país. Acho que isso deve ser repetido mil vezes. O desemprego não é uma vergonha individual, é uma vergonha coletiva. O nível de desemprego que existe em Portugal, em Espanha, por exemplo, é tão assustador que há muito tempo deixou de ser um problema económico. É um problema social e é um problema de democracia", sublinhou.

O autor propõe que os desempregados "manifestem publicamente - até corporalmente - o seu estado de desemprego, assinalando exteriormente para que na rua, quando passassem, as pessoas percebessem o número de pessoas que estão desempregadas".

Para Gonçalo M. Tavares, o "facto de uma pessoa desempregada não ter uma marca exterior dessa violência que é exercida sobre ela é qualquer coisa que faz que com que as pessoas não se apercebam da dimensão da tragédia".

Manuel Clemente: "As melhores perspetivas só podem ser que alguns indícios de recuperação se verifiquem"

O Patriarca de Lisboa e presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, Manuel Clemente, espera que "alguns indícios de recuperação [económica] já anunciados se verifiquem mesmo" em 2014.

"As melhores perspetivas só podem ser que alguns indícios de recuperação já anunciados se verifiquem mesmo. É o melhor que pode haver como perspetivas para o próximo ano", disse Manuel Clemente, sobre o que espera para Portugal para o próximo ano.

O Patriarca de Lisboa mostrou-se ainda esperançado de que esta "seja a última etapa do reajustamento" financeiro, e que "seja de reajustamento para uma sociedade mais justa e mais solidária".

"Todos nós que estamos cá e que não desistimos de estar e de fazer isto melhor do que se encontra, sejamos mais solidários e mais criativos [...] porque esta última etapa, e esperamos que seja a última de reajustamento, seja isso, seja de reajustamento e para melhor, para uma sociedade mais justa e mais solidária", afirmou.

"São as perspetivas que podemos alimentar mais otimisticamente, mas também mais comprometidamente. Porque isto toca-nos a todos", acrescentou.

Rui Costa: Se pensarmos positivo "as coisas vão dar a volta"

O ciclista Rui Costa espera que 2014 seja "um ano melhor, um ano bom", entendendo que os portugueses estão a "passar uma má fase", mas que se pensarem "positivo" as "coisas vão dar a volta".

"Espero que todos nós portugueses possamos dar uma alegria ao nosso país", afirmou o primeiro campeão mundial de ciclismo português, que, a nível pessoal, deseja um 2014 pelo menos tão bom como 2013.

"Este foi um ano de ouro para mim", disse à Lusa o atleta.

Rui Cardoso Martins: "Não vai mudar nada de especial"

Para o escritor e cronista Rui Cardoso Martins, 2014 vai ser acompanhado com "a história do relógio do ministro Paulo Portas", considerando que "quando chegar ao zero, não vai mudar nada de especial, a não ser mais uma sensação de desilusão porque as coisas vão continuar na mesma".

No dia 15 de dezembro, o vice-primeiro-ministro, Paulo Portas, inaugurou um relógio que regista, em contagem decrescente, os dias, horas, minutos e segundos que faltam para a 'troika' sair de Portugal.

O escritor está convencido que as pessoas "vão continuar a empobrecer, a emigrar", e tudo, justifica, devido às "perspetivas erradas e mentiras sistemáticas" da governação.

Rui Costa Martins considera que, além do relógio, vai estar presente ainda em 2014 a incógnita de como se vai arranjar "mais dinheiro, mantendo ou não as mesmas políticas", mas considera que o Mundial de futebol do Rio de Janeiro, no Brasil, vai deixar as pessoas "suspensas, numa espécie de esperança".

"Eu também vou tirar uma espécie de férias deste pesadelo pequenino que nos caiu em cima, há pesadelos piores temos de reconhecer, há fomes há guerras, há doenças terríveis, mas depois disso volta tudo ao mesmo, a não ser que mude, e essa mudança pode ser brusca. Parece que estamos naqueles momentos em que pode acontecer uma coisa brusca", afirmou.

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