Prestígio e experiência de Guterres fazem dele "o candidato ideal" à ONU

Governo vai propor António Guterres para secretário-geral da ONU. Ex-ministros, diplomatas e oposição apoiam nome

A candidatura de António Guterres a secretário-geral (SG) da ONU foi recebida ontem com apreço generalizado nos meios político-partidários e diplomáticos.

"É um excelente candidato, tem experiência a nível nacional e internacional", realça o embaixador Pedro Catarino ao DN, pois continuam válidas "as mesmas razões que o levaram a ser escolhido numa competição feroz" para Alto Comissário para os Refugiados (ACR), frisou o atual representante da República para os Açores.

O ministro dos Negócios Estrangeiros anunciou ontem a proposta de candidatura de António Guterres por ser "a personalidade com melhores condições para exercer" o cargo, dados "os desafios que hoje se colocam à comunidade internacional" e em função da sua "longa experiência política e a forma exemplar" como foi ACR.

Dois critérios são vistos como negativos para o nome português: o geográfico - alguém do leste europeu - e o de género: ser uma mulher.

O embaixador Martins da Cruz, ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, vê um óbice adicional: "Parece difícil o grupo regional europeu [a quem cabe indicar um nome] colocar-se de acordo sobre um candidato". Porém, "se pensarmos em África, Ásia e América do Sul, António Guterres é uma personalidade muito mais marcante e reconhecida do que qualquer candidato da Europa de Leste".

Acresce, diz o embaixador e ex-secretário de Estado dos Assuntos Europeus Seixas da Costa, que os nomes do leste europeu "teriam de corresponder a um perfil que parece incompatível: ser aceite pelos EUA [...] e dar garantias à Rússia de não ser um elemento perturbador ou desequilibrador da balança de poderes na região." Washington e Moscovo "terão de se entender" porque lideram "posições confrontacionais" na cena internacional, enfatizou.

Marcelo Curto, ex-embaixador em Moscovo (onde promoveu a candidatura de Guterres a ACR), tem "a certeza que a Rússia" o apoiará pois há uma década mostrou "recetividade pelas qualidades" do político português - que "é o SG ideal para a ONU, pela maneira como geriu as questões dos refugiados, a sua dedicação a essa missão, a capacidade intelectual e um fundo pessoal de enorme generosidade e rigor".

Para Martins da Cruz, "mais do que a ação diplomática de Portugal tem importância o diálogo e o empenho pessoal de António Guterres com Moscovo".

O embaixador António Monteiro, outro ex-chefe da diplomacia portuguesa, vê Guterres como "um magnífico candidato" a SG pelo prestígio inerente ao "exercício brilhante" do cargo de ACR - e "é ao nível do mérito quase imbatível" entre os nomes do leste europeu - quatro com apoio oficial dos seus governos da Europa de Leste - propostos para a ONU.

"O mais importante é encontrar quem corresponda e tenha mérito para dar à ONU o papel de motor que muitas vezes não tem", frisa o diplomata.

No plano partidário, só o PSD não comenta a iniciativa do governo. Carlos César, presidente do PS, diz ao DN que a eleição do ex-líder socialista "seria um reconhecimento justo das capacidades de António Guterres, uma honra para Portugal e um fator de prestígio e certamente um contributo para a preponderância que importa reforçar no papel das Nações Unidas".

José Manuel Pureza, do BE, adianta ao DN: "Cremos que se António Guterres pautar o mandato por um espírito de defesa dos mais vulneráveis, que a real politik marginaliza, dará um excelente contributo para a causa da paz, dos Direitos Humanos e da igualdade."

Para o PCP, "a desejável presença" de portugueses "em altos cargos públicos internacionais não pode ser desligada [...] dos objetivos e projetos de intervenção que em concreto se propõem".

O líder do CDS e ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Portas, diz ter sido "testemunha do elevado prestígio e apreço por António Guterres no âmbito da ONU, das suas agências e do seu corpo de servidores".

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