Deputado diz ainda ser do PS mas pode pôr em causa a maioria

Domingos Pereira quer ficar como deputado socialista, apesar de se desfiliar do partido. Argumenta que "há pessoas que não são militantes" no grupo parlamentar

Domingos Pereira esteve ontem longe do Parlamento onde o deputado do PS pode jogar no futuro um papel-chave para assegurar votações em que os comunistas se abstenham. Para já, o parlamentar garantiu ao DN que tem de ter "uma conversa" com o líder parlamentar socialista, Carlos César, e não quer antecipar cenários mais complicados. "Somos pessoas de bem", disse.

"Tem sido uma azáfama", desabafou Domingos Pereira, ao telefone a partir de Barcelos, onde ontem anunciou que se demitia dos vários cargos dirigentes do PS, antecipando uma eventual candidatura independente à câmara minhota, mas também a vontade de permanecer na bancada socialista.

O deputado confirmou, a meio da tarde, que já se tinha demitido de presidente da comissão política concelhia do PS de Barcelos, de presidente da mesa da comissão política da federação distrital de Braga e de membro da comissão política nacional. "Demiti-me hoje", disse ontem ao DN.

O motivo das demissões de Domingos Pereira - e de ter sido catapultado para jornais e noticiários - prende-se com as próximas eleições autárquicas. O deputado queria ser candidato à Câmara Municipal de Barcelos, com o apoio dos órgãos concelhios e distritais do partido, mas o seu nome foi vetado pela comissão política nacional, que avocou a si o processo de escolha do candidato. Este órgão definiu como orientação a recandidatura dos atuais presidentes de câmara que não estejam limitados pela lei e o desejem, no caso, Costa Gomes, que já há muito entrou em choque com os órgãos dirigentes concelhios, ou seja, com a liderança de Domingos Pereira.

O deputado afirmou que está a avaliar se lançará uma candidatura independente. "Vou ponderar se avanço como candidato independente. Eventualmente deve acontecer", admitiu ao DN. E nesse momento avaliará o futuro no partido, recusando qualquer punição: "Vou ponderar se saio do partido. Mas saio livremente."

Esta saída não implica deixar a bancada do PS no Parlamento, argumentou, recordando que "terá de ser negociada" e que "há pessoas que não são militantes" no grupo parlamentar socialista. Mesmo deixando o partido, se o PS permitir que fique na bancada, Domingos Pereira jura cumprir com lealdade esse mandato. "Respeitarei integralmente a disciplina de voto. Quando assumo uma coisa, nem é preciso escrever", justificou-se. E vai travando qualquer cenário futuro mais complicado. "Primeiro, vou falar. Somos pessoas de bem. A Assembleia da República não pode ser palco de combate para dirimir questões de índole partidária."

Num cenário em que Domingos Pereira fique como independente (como no passado ficaram Luísa Mesquita, que saiu do PCP, e Daniel Campelo, que deixou o CDS), sem o acordo do PS, o seu voto e os votos dos dois parlamentares de Os Verdes e do deputado único do PAN acabam por ganhar outra importância. E também a lista de presenças no plenário terá de ser gerida com pinças, para evitar faltas que serão votos a menos.

A bancada socialista é hoje composta por 86 deputados, a do BE tem 19, o PCP 15 e o PEV 2 - e mais o deputado do PAN, que tem acompanhado a maioria de esquerda em algumas matérias, como no Orçamento do Estado. Se, por exemplo, houver uma abstenção dos comunistas, a maioria é curta para fazer aprovar uma lei face aos 107 deputados de PSD e CDS. Com a saída de Domingos Pereira, o voto deste deputado será decisivo. Mas PEV e PAN não poderão desalinhar sob pena de o PS ver travada qualquer iniciativa sua, que mereça a abstenção do PCP.

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