A falar a uma só voz, Marcelo e Costa tentam carregar Guterres até à ONU

Presidente vai em setembro a Nova Iorque promover a candidatura se Guterres ainda estiver na short list para secretário-geral das Nações Unidas. Primeiro-ministro aposta forte em ajudar português a passar teste de julho

Marcelo pensou no presunto que iria conquistar Ban Ki-moon, Costa levou António Guterres no avião até à Turquia a uma cimeira mundial. Presidente da República e primeiro-ministro não param de promover a candidatura do português a secretário-geral das Nações Unidas.

O próximo líder da ONU devia ter duas características: ser mulher e da Europa de Leste. António Guterres não tem nenhuma das duas, mas Marcelo e Costa não desistem e o português continua na corrida.

O antigo embaixador de Portugal na ONU, António Monteiro, explica que por muito que os políticos portugueses corram, "não são determinantes: quem manda é o Conselho de Segurança".

No entanto, "o que eles podem fazer, têm feito muito bem. É falar a uma só voz e estarem em total sintonia no apoio à candidatura portuguesa".

António Monteiro vê assim uma "unidade nacional" que pode ser "importante até em comparação com países que apresentaram candidatos, como a Bulgária, que tem uma candidata, mas há pressão para ser substituída por outra". Ora, "isso enfraquece uma candidatura, na mesma medida que a unidade portuguesa só pode fortalecer".

A prioridade agora é permitir que Guterres continue forte após votação de 25 de julho

Também o antigo embaixador de Portugal nas Nações Unidas, Francisco Seixas da Costa, explica que "a grande questão é saber que candidato a Europa Ocidental apresenta que os russos não rejeitem". Quanto ao que o Presidente pode fazer, Seixas da Costa explica que passa por "sensibilizar os seus homólogos, exceto os presidentes que têm poder executivo, pois com esses fala o primeiro-ministro".

Ainda em abril, no meio da Ovibeja, Marcelo comprou presunto para oferecer a Ban Ki-moon, assumindo que iria falar com o atual secretário-geral da candidatura de Guterres quando aquele visitasse Portugal.

Semanas depois, António Monteiro assistiu in loco a essa operação de charme. "Estive no almoço em que o Presidente disse a Ban Ki-moon que Guterres era o político mais notável da sua geração. E o próprio Ban Ki-moon disse que não podia votar, mas reforçou as qualidades de António Guterres."

Fonte de Belém explicou ao DN que Marcelo "dará todos os empurrões e fará os possíveis e impossíveis por impulsionar a candidatura de Guterres".

Antecipa também que quando for, em setembro, à Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova Iorque, "o Presidente levará o tema na agenda".

A questão é saber se ainda irá a tempo. "Nessa altura já haverá uma short list", lembra António Monteiro. Já Seixas da Costa acredita que em setembro "as contas já estão fechadas", pois "as coisas vão ficar já mais claras no próximo mês".

Haverá uma votação informal no Conselho de Segurança da ONU no próximo dia 25 de julho, em que os membros vão indicar se "encorajam", "desencorajam" ou são "indiferentes" aos candidatos já apresentados. Possivelmente, cairão vários nomes. A candidatura de Guterres está agora concentrada em passar esta prova de fogo.

António Costa sabe disso, daí ter levado António Guterres na comitiva portuguesa à Cimeira Humanitária de Istambul (Turquia) a 23 e 24 de maio. E mais: teve reuniões bilaterais com alguns países.

O mais importante foi o encontro com o presidente da Ucrânia, Petro Porochenko. O país - em conflito com a Rússia - é um dos membros não permanentes no Conselho de Segurança, onde Portugal poderá também com o precioso apoio de países como Espanha e Angola.

António Costa também se reuniu com o ministro dos Negócios Estrangeiros da Nova Zelândia, Murray McCully. O país tem uma forte candidata (Helen Clark), logo um acordo entre Portugal e Nova Zelândia só poderia existir de forma condicionada: se um cair, o país apoia o que restar na luta.

O primeiro-ministro português, apurou o DN junto de fonte governamental, aproveita todos os momentos. Na semana que antecedeu essa cimeira, Costa tinha um encontro com líderes dos partidos socialistas europeus (que acabou por ser desmarcado pelo primeiro-ministro italiano, Mateo Renzi) em que iria aproveitar para convencer os seus homólogos a apoiarem a candidatura de Guterres.

Com Paula Sá

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