Da Dona Palmira a Carlos Mota Pinto

O DN lançou a iniciativa Professor do Ano, que visa reconhecer os melhores docentes, com a ajuda das comunidades educativas. A deputada Maria de Belém Roseira recorda nomes de professores que a marcaram, da primária à universidade.

Teve professores marcantes no seu tempo de estudante?

No meu tempo de estudante os professores eram sempre marcantes. Normalmente eram professoras, porque ainda era o tempo de liceus femininos. Tive várias que deixaram marcas. Várias professoras de Português muito boas, lembro-me também da professora Odete, de Inglês. Uma professora de História muito exigente, a professora Adelaide.

E da sua professora na escola primária, ainda se lembra?

Sim. Na escola primária estudei no Colégio Santa Teresinha, na Rua da Alegria , no Porto. E lembro-me da dona Palmira. Se calhar foi ela quem me ensinou a ler e a escrever. Mais tarde, estudei no Liceu Rainha Santa Isabel, só feminino. Do liceu, lembro-me ainda de uma professora de Filosofia, a professora Teresa Pinto.

Quase todos os nossos entrevistados têm recordado os professores de Filosofia. Era uma disciplina especial para os alunos?

Filosofia era muito marcante naquele tempo. E, no meu caso, também Português, por causa da literatura. Mas era a Filosofia que nos abria a cabeça para questionarmos o mundo e a nós próprios.

Mais tarde estudou Direito, em Coimbra. Teve bons professores universitários?

Tive muitos. Teixeira Ribeiro, de Finanças, foi muito importante. Lembro-me de um professor, Serra Correia. E de Mota Pinto, que viria a ser vice-primeiro-ministro e presidente do Partido Social Democrata. Era professor de Teoria Geral da Relação Jurídica.

A Faculdade de Direito era diferente antes do 25 de Abril?

Antes do 25 de Abril era à séria!

Porque diz isso?

Havia poucas mulheres em Direito. Muito poucas. Não deviam ser mais do que uma dúzia entre 400 rapazes. Era uma coisa muito assimétrica. Os próprios professores, alguns deles, consideravam que aquele curso não era bem para meninas... Não era o caso de outro professor de quem gostei muito, Barbosa de Melo, que foi presidente da Assembleia da República.

Teve várias destacadas figuras políticas como professores. Foi daí que veio o seu interesse pela vida política?

Na minha geração entendíamos a participação política como um dever cívico... a atividade política no ativo aconteceu quando fui para o Governo [foi ministra da Saúde de 1995 a 1999]. Antes disso tinha a minha profissão [de jurista]...

Que continua a exercer?

Agora menos. Mas [no Parlamento, onde é deputada do Partido Socialista] temos um papel também legislativo, na produção legislativa. E tenho algumas [leis] a meu cargo que considero muito importantes, quer no Governo quer na Assembleia da República, como a lei da procriação medicamente assistida e a lei da paridade.

Voltando à escola... O 25 de Abril mudou por completo o ensino em Portugal?

O ensino democratizou-se. No meu tempo

havia o nível básico dos quatro primeiros anos de escolaridade, que eram obrigatórios, mas que, se as pessoas não frequentassem, não acontecia nada. Eram épocas subdesenvolvidas. O nosso grande atraso explica-se pela falta de capacitação das pessoas, que condizia com toda a filosofia de um governo de ditadura. A ditadura dá-se melhor quando as pessoas não têm capacidade crítica. E essa vem da aprendizagem, de estimular a massa cinzenta.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG