Costa ouviu diretor da PSP que esteve em Timor sobre Pereira Gomes

PM reitera a confiança no embaixador que escolheu para liderar as secretas, apesar de todas as revelações que têm surgido

O primeiro-ministro António Costa chamou a S.Bento o diretor nacional da PSP, Luís Farinha, para ouvir a sua opinião sobre José Júlio Pereira Gomes, que escolheu para liderar as secretas, soube o DN junto a fontes que estão a acompanhar o processo. Aquele oficial da polícia integrou a Missão de Observação Oficial Portuguesa ao Referendo em Timor-Leste, chefiada por Pereira Gomes. A sua consulta pode ser um sinal que o chefe de governo não tem sido imune às polémicas revelações sobre o desempenho do diplomata naquela missão e procura informações que consolidem a sua escolha. Isto apesar de, publicamente, ter reiterado a sua "confiança" no embaixador.

Ontem, durante a sua visita aos Açores, o Presidente da República, comentou pela primeira vez o caso. Ao que o DN apurou Marcelo Rebelo de Sousa tem-se afirmado verdadeiramente "perplexo" com todo o problema. Ainda por cima porque, até se começarem a ouvir vozes discordantes, o Presidente da República só tinha indicações positivas sobre o diplomata. Indicações tanto do atual primeiro-ministro - responsável pela indigitação de Pereira Gomes - como de um anterior, Durão Barroso.

Marcelo salientou a importância da audição prévia que está a ser preparada na Assembleia da República. "Uma audição nunca é formal, é sempre substancial". "Não se trata de cumprir um pró-forma, de alguém que chega, que pode ficar em silêncio e depois sai em silêncio porque se cumpriu o formalismo.", vincou. Todos os partidos, com exceção do BE que pediu a Costa que "reconsiderasse" a escolha, também remeteram para esta audição a avaliação de Pereira Gomes, que será confrontado pelos deputados com as acusações.

Em 1999, Pereira Gomes chefiou uma missão portuguesa de observadores ao referendo que, no final de agosto, levou os timorenses a escolherem a via da independência. Depois da divulgação dos resultados, forças indonésias e milícias timorenses desencadearam uma onda de violência. Contra diretivas de Lisboa e sob forte impulso de Pereira Gomes, a missão portuguesa deixou o território (9 de setembro), falhando assim a presença quando se deslocou a Díli uma missão do Conselho de Segurança da ONU.

Por causa destes e doutros factos, a eurodeputada do PS Ana Gomes, na altura embaixadora de Portugal em Jacarta, já manifestou, ao DN, a sua "apreensão" com a escolha de Pereira Gomes, dizendo que o seu perfil "não inspira confiança nem autoridade" junto dos seus futuros subordinados.

Por seu lado, Pereira Gomes afirma que a missão portuguesa deixou Timor por ordens expressas vindas do Ministério dos Negócios Estrangeiros, em Lisboa. Pereira Gomes é também acusado de ter sido indiferente à sorte de dezenas de timorenses que trabalharam para os observadores portugueses - acusação que igualmente refuta.

O Presidente julgava também plenamente assente um acordo nesta matéria entre o Governo e o PSD - mas começou a verificar que o PSD começa a ter dúvidas, face à polémica que entretanto se gerou. Os sociais-democratas já tinham dado o aval ao embaixador, quer diretamente através de Pedro Passos Coelho quando foi informado por António Costa, quer através da deputada Teresa Leal Coelho que o considerou "um bom perfil".

Perante as polémicas revelações, o PSD pode recuar e criar dificuldades ao governo. Até porque, nesta matéria das secretas, apesar do PSD continuar a manter a tradição e apoiar o governo e o PS, como foi na recente aprovação da proposta de lei dos metadados, é o PS que está a quebrar o histórico entendimento do bloco central.

Em causa está a eleição da deputada social-democrata, Teresa Morais, que o PSD escolheu para presidir à fiscalização das secretas. A eleição é na próxima quarta-feira e a posição que o PS tem assumido até agora prevê um chumbo a este nome. A "falta de perfil" de Teresa Morais, que já fez parte deste Conselho de Fiscalização em dois mandatos, tem sido a razão invocada.

"Deus escreve direito por linhas tortas", ironiza um deputado do PSD, quando questionado sobre se o partido iria apoiar agora a nomeação novo secretário-geral das secretas - cujo percurso e perfil profissional tem sido posto em causa em várias frentes - caso o PS insistisse em vetar Teresa Morais, a deputada que os sociais-democratas querem a chefiar a fiscalização dos serviços de informações.

O PSD está a acompanhar "com preocupação" as informações sobre o embaixador. Fonte da direção do partido nota que "o PS teve uma atitude institucionalmente indigna", mas garante que esse facto "não vai afetar a avaliação" do caso. Na verdade, conclui, "o PS enterrou-se na sua própria soberba".

Além da eurodeputada, dois jornalistas, Luciano Alvarez e José Vegar, que acompanharam o trabalho de Pereira Gomes em Timor-Leste revelaram também novos dados, que confirmam a apreensão de Ana Gomes.

"O diplomata cedeu mentalmente à pressão dos cargos que exerceu, e no caso de Timor ao contexto de segurança existente naqueles meses de 1999, e o pânico paranoico em que se encerrou determinou as suas decisões e atos. Estas decisões e atos foram, muitas vezes, contrários aos objetivos da Missão que chefiava, afetaram os interesses portugueses, prejudicaram o desejo do povo timorense, e colocaram em risco vidas", salienta Vegar, um estudioso das secretas.

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