Costa diz ao que vem: crescimento, emprego e igualdade

Primeiro-ministro deixa várias críticas à linha seguida por Passos. Reafirma os compromissos com a UE mas fala em "tempo novo"

Vestindo pela primeira vez a pele de primeiro-ministro, António Costa ensaiou ontem um discurso a olhar para a frente. No fundo, dizendo aos portugueses ao que vem. Com palavras que remetiam para o programa de governo do PS, que será discutido no Parlamento na terça e na quarta-feira, assinalou o "triplo propósito" com que vai chefiar o executivo: "Mais crescimento, melhor emprego e maior igualdade."

Numa intervenção lida em tom sereno, apesar dos múltiplos recados ao Presidente da República - a quem jurou, contudo, "a máxima lealdade e cooperação institucional" (ver página 3) -, Costa debruçou-se sobre os princípios que vão presidir à governação, desde logo o respeito pela Constituição. A intenção era clara: demarcar-se dos quatro anos de mandato de PSD-CDS, que somou vários chumbos a diplomas por parte do Tribunal Constitucional.

Sinalizando que este será "um governo de garantia", o primeiro--ministro afastou os fantasmas do antieuropeísmo e do antiatlantismo que têm sido levantados devido às posições do BE e do PCP, representados, respetivamente, pela porta-voz, Catarina Martins, e pelo líder parlamentar, João Oliveira.

Costa falou de "um tempo novo", virando a página da austeridade

Costa assegurou a "continuidade do Estado nos seus compromissos internacionais e no quadro da União Europeia [UE]", reafirmando, sem margem para equívocos, "o lugar de Portugal na UE e na zona euro", bem como na CPLP. E na "grande ligação atlântica, incluindo na Organização do Tratado do Atlântico Norte", contra a qual bloquistas e comunistas se batem.

Da fase da responsabilidade e da reafirmação de compromissos, o líder do executivo passou depois a prenunciar "um tempo novo", a sua "verdadeira ambição". Contra as "falsas, demagógicas e perigosas dicotomias" que "pretendem pôr em confronto os interesses e os direitos de jovens e velhos, de ativos e pensionistas, de empregados e desempregados, de trabalhadores do setor público e trabalhadores do setor privado", Costa defendeu que não se podem pôr em causa "os alicerces em que assenta o contrato social".

Para notar que a página da austeridade vai ser virada, o chefe do governo frisou que Portugal atravessou "momentos muito duros" e que esse trilho "deixará marcas profundas". "Por muito tempo", até porque, reforçou, "a nossa sociedade está mais pobre, desigual e a nossa economia mais enfraquecida no seu potencial de crescimento e o país mais endividado".

Ainda assim, agitou as suas bandeiras de sempre: aumento e proteção dos rendimentos, alívio fiscal sobre a classe média, combate à precariedade e à pobreza, promoção de um ambiente mais favorável ao investimento e defesa dos serviços públicos e do Estado social.

Em tom agregador, sublinhou que "este é o tempo da reunião" e não de "crispação", mas não conteve uma renovada farpa a Pedro Passos Coelho e Paulo Portas, que o ouviam na primeira fila: "A conduta do XXI Governo pautar-se-á pela moderação. Moderado será o seu programa, realizando uma alternativa à vertigem austeritária, que só agravou os problemas económicos, sociais e mesmo orçamentais; mas será uma alternativa realista, cuidadosa e prudente. E moderada será a sua atitude."

A rematar, e apesar das inúmeras críticas veladas à atuação do governo cessante, dirigiu uma "cordial saudação" a Passos e à sua equipa e reconheceu a "dedicação e o esforço" do ex-primeiro-ministro "num período tão crítico e de grandes dificuldades, em prol daquilo que era a sua convicção do interesse nacional". Passos reagiu sem reagir. Não alterou a expressão facial.

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